O Benfica maltratou uma cambaleante Juve e nem a tentativa de reação no fim evitou a desastrosa eliminação dos italianos
Apesar do despertar da Juventus na reta final do jogo, em pressão pelo empate, o Benfica dominou grande parte do duelo e poderia ter vencido com mais conforto
A Juventus tinha consciência de que apenas um milagre salvava sua campanha na Champions League. Os erros se repetem em toda a temporada dos bianconeri e não seria simples virar a situação num compromisso difícil, durante a visita ao Benfica no Estádio da Luz. Os encarnados, por outro lado, vinham repletos de empolgação. Atravessam meses inspirados, tanto na Champions quanto no Campeonato Português, com vitória no clássico contra o Porto no final de semana. O placar deu a lógica: o Benfica ganhou por 4 a 3 e se classificou aos mata-matas, enquanto a Juve no máximo vai à Liga Europa. Seriam 75 minutos de show dos benfiquistas. A equipe dominou de início e desenhou uma goleada contra uma Velha Senhora perdida em campo. Contudo, os lisboetas perdiam chances de tornar o placar ainda maior e, com a entrada de garotos que estavam no banco, os juventinos voltaram à vida. Diminuíram a diferença de três gols para só um e botaram pressão numa dramática reta final de partida. A derrota se tornou menos dolorosa aos italianos, mas os problemas são óbvios, enquanto os lusitanos têm méritos claros por um resultado que poderia (e deveria) ser mais confortável.
O Benfica mantinha a formação dos últimos compromissos. Enzo Fernández e Florentino Luis eram os volantes, com João Mário, Rafa Silva e Fredrik Aursnes formando a trinca de meias. Já na frente, Gonçalo Ramos era o homem de referência. David Neres ficava no banco. A Juventus veio alinhada num sistema com três zagueiros, incluindo Danilo, e dois alas mais soltos, confiando na qualidade de Filip Kostic e Juan Guillermo Cuadrado no apoio. Manuel Locatelli, Weston McKennie e Adrien Rabiot fechavam o meio. Dusan Vlahovic e Moïse Kean compunham a dupla de ataque.
O Benfica fazia um início de partida bastante confiante. Era quem tinha a iniciativa e dominava a posse de bola, contra uma Juventus recuada. Os encarnados trabalhavam com paciência. Não surgiam muitos espaços para criações claras dos benfiquistas, mas a equipe era claramente melhor. Rafa Silva incomodava. E não demorou para que o time da casa marcasse seu gol, aos 18, na primeira oportunidade concreta. Depois de um escanteio curto, Enzo Fernández cruzou pela esquerda e António Silva concluiu de cabeça. Diante da pressão imposta pelos lusitanos, era um gol merecido.
A Juventus, entretanto, não ficou muito tempo atrás no placar. O empate veio logo na primeira tentativa da equipe, aos 22. Depois de um escanteio, Danilo desviou a bola e Vlahovic escapou por trás da defesa. O centroavante tentou duas vezes, mas parou em Odysseas Vlachodimos. Moïse Kean concluiu na sobra, quase em cima da linha. O lance demandaria longa revisão do VAR, e foi confirmado. Só que o apito logo entrou em ação do outro lado, para marcar um pênalti a favor do Benfica aos 27. Cuadrado desviou a bola com a mão e o árbitro flagrou. João Mário cobrou no alto e recobrou a vantagem para os encarnados.
Mais uma vez, a Juventus tinha a necessidade de sair ao jogo. Tentava reduzir o prejuízo e buscava Vlahovic, que não pegou bem na bola quando teve uma brecha aos 34. O Benfica, do outro lado, encontrava mais espaços para contra-atacar. Era o que os encarnados queriam, para anotar o terceiro num avanço em velocidade aos 35. Numa abertura com João Mário, Rafa Silva se projetou para o primeiro pau e recebeu o cruzamento rasteiro. A pintura teria requintes de crueldade, com o desvio de letra dado por Rafa. Era um show dos lisboetas, que nem precisavam martelar tanto para serem fatais. A Velha Senhora sentiu a pancada e, apesar de algumas bolas alçadas, viu os portugueses administrarem a vantagem na reta final da primeira etapa.
Sem que Kean tenha oferecido muito no primeiro tempo, o ataque ganhou a entrada de Arkadiusz Milik na volta do intervalo. A Juventus, porém, sequer sentiu a mudança. Aos cinco minutos, o Benfica anotou o quarto gol. Leonardo Bonucci saiu jogando errado, Alejandro Grimaldo interceptou no meio e Rafa Silva recebeu o passe em profundidade. O craque da noite de novo abusou da categoria, com um leve toque por cobertura diante de Wojciech Szczesny. O estrago estava feito. E não ajudaria quando Vlahovic errou um domínio quando entrava desimpedido na área. O moral dos bianconeri estava baixíssimo. Alex Sandro e Fabio Miretti mudavam o esquema do time, para a saída dos vaiados Bonucci e Cuadrado.
Antes que a Juventus entendesse as mudanças, a equipe ficou a um triz de tomar o quinto. Gonçalo Ramos teve duas chances. O atacante parou numa defesa difícil de Szczesny, em bobeada da defesa, antes de cabecear sozinho ao lado da trave após escanteio. A Velha Senhora parecia morta. Só o Benfica jogava no ataque, sem precisar nem mandar o time inteiro para frente. Mesmo assim, as chegadas eram todas dos lisboetas. Faltava até vontade nos bianconeri. Sequer Vlahovic e Kostic continuariam em campo, suplantados pelos garotos Matías Soulè e Samuel Illing Júnior aos 25. Seriam eles a dar um novo gás aos italianos.
Rafa Silva poderia ter completado sua tripleta aos 30, em mais uma jogadaça do Benfica. A trama saiu fácil pela direita, com vários toques de primeira, para João Mário arrancar e cruzar. Rafa recebeu e bateu de primeira, mas mandou por cima em ótimas condições. Foi só então que a Juventus voltou a descontar, aos 32. O novato Illing Júnior mostrou serviço. Bagunçou pela esquerda e cruzou para a definição firme de Milik dentro da área. Por mais que parecesse tarde para a reação, a Velha Senhora voltou ao jogo. E fez o inimaginável aos 34, quando encostou no placar graças ao terceiro. Em mais um lance de Illing Júnior pela esquerda, Vlachodimos não afastou o cruzamento. Soulè terminou bloqueado na área, mas McKennie estava presente para mandar para dentro.
Gilberto entrou para acertar a marcação do Benfica pela direita, mas não teve muito sucesso na missão. Os encarnados pareciam assustados, diante da pressão da Juventus nas bolas paradas. E mais uma vez Rafa Silva desperdiçou o lance que poderia render o quinto, aos 41. O meia disparou sozinho no contragolpe e, de frente com Szczesny, carimbou a trave. Logo deixou o campo, ao lado de Gonçalo Ramos, com as entradas de Petar Musa e David Neres. Na reta final, a Juve rondava. Soulè pegou torto quando apareceu sozinho aos 43, antes que Federico Gatti cabeceasse com perigo após escanteio, em lance anulado por uma falta. Quando pintou outro contragolpe e a chance de ratificar o resultado, David Neres foi mal na conclusão. Seria mesmo no limite para os benfiquistas, que seguraram na unha o triunfo. Apesar dos riscos, mereceram.
O Benfica se classifica ao lado do PSG no Grupo H. As duas equipes irão decidir a liderança, ambas com 11 pontos. A Juventus, por sua vez, no máximo vai para a Liga Europa. Tem os mesmos três pontos que o Maccabi Haifa e sequer pode se dar ao luxo de bobear contra os israelenses. A falta de futebol dos juventinos é evidente e somente os garotos ofereceram uma lufada frescor, no que pareceu mais um golpe de sorte de Massimiliano Allegri. Será surpreendente se o treinador sobreviver à atual crise.