Champions League

Com mais um gol decisivo, Marquinhos incorpora o espírito de um PSG que deseja o topo

Marquinhos por vezes passa despercebido num ambiente como o do Paris Saint-Germain. O brasileiro não é o jogador mais midiático, especialmente ao lado de Neymar. O comportamento mais discreto também se repete dentro de campo, embora isso não o prive de ser uma liderança aos parisienses. O camisa 5 é um jogador inteligente como poucos e com uma leitura de jogo excepcional. Tais virtudes o tornam um defensor de primeira linha, sobretudo por não ser o mais imponente fisicamente. E a fase final da Champions serve para colocar em evidencia um Marquinhos decisivo, em chamas, cheio de energia. Pela segunda partida consecutiva, ele balança as redes, também com uma grande atuação nos 3 a 0 sobre o RB Leipzig.

Não que Marquinhos tenha ido mal contra a Atalanta. Mas, para quem precisava segurar as pontas como cabeça de área, o rendimento principalmente na saída de jogo deixou a desejar. O PSG se defendeu muito bem nas quartas de final, com o camisa 5 ganhando as disputas pelo alto e bloqueando os espaços da Dea. De qualquer maneira, seu serviço ficava incompleto diante dos problemas no meio-campo parisiense. A garantia de protagonismo ao brasileiro veio nos minutos finais, quando aproveitou a bola na área de Neymar para emendar às redes e iniciar a reviravolta do PSG rumo às semifinais.

Desta vez, notou-se um Marquinhos mais imponente na cabeça de área. Contra um RB Leipzig repleto de dificuldades, o volante seguiu excelente na proteção, especialmente para caçar os adversários e desarmá-los. Quebrava o jogo dos alemães com sua pressão, se antecipando às ações. E apareceu no ataque de novo, anotando mais um gol fundamental ao PSG, em cabeçada que abriu o caminho à vitória tranquila e ajudou os companheiros a ditarem o ritmo desde cedo. Outra vez, teve estrela, mas não só isso. O desempenho do meio-campista nesta transição ofensiva foi melhor.

A subida de produção de Marquinhos tem a ver não apenas com ele, mas com o sistema ao seu redor. A presença de Leandro Paredes ao seu lado foi essencial e o argentino contribuiu bastante neste início dos ataques, voltando para organizar e puxando a marcação do RB Leipzig. Por mais que Idrissa Gana Gueye viesse de bons momentos com o clube, não foi o que se necessitava diante da Atalanta. Com características diferentes, o argentino fez a trinca central funcionar melhor, ao lado de Marquinhos e Ander Herrera. Mais à frente, Kevin Mbappé dava mais agressividade ao lado de Neymar e Ángel Di María se encarregava da criação. O conjunto cresceu, inclusive o próprio Neymar, ainda que tenha faltado o seu gol.

Marquinhos totalizou 60 passes na partida, a maioria para organizar o meio-campo, mas também alguns bons lançamentos. Foi o líder de desarmes da equipe, com quatro no total, e o melhor em bolas ganhas pelo alto. Ajudou a neutralizar o RB Leipzig ao longo da partida e facilitou uma noite naturalmente sossegada ao PSG. O gol entra na conta de um papel de destaque que reivindica, também por pontualmente fazer a diferença em suas subidas ao ataque. São dois gols que pesam demais à ambição dos parisienses em conquistar a Europa.

Aos 26 anos, Marquinhos soma sete temporadas com o Paris Saint-Germain. O defensor contabiliza 282 partidas pelo clube, com 25 gols. Às vezes não parece receber o respaldo que merece, como já se notou na seleção brasileira, mas seu valor no Parc des Princes é incontestável. A própria liderança ressalta isso, sucessor natural de Thiago Silva com a braçadeira de capitão. Porém, talvez por essa falta de mídia ou mesmo pelas seguidas frustrações do PSG nas fases mais agudas da Champions, ficava a impressão de faltar algo.

Dois gols desta magnitude no torneio continental, com o clube a um passo de seu maior feito, transformam essa percepção. Marquinhos comandou o PSG tecnicamente e também mentalmente, considerando sua postura firme dentro de campo e o alto nível de concentração. É um jogador acima da média por seus fundamentos e por seu entendimento do jogo. Torna-se maior com tanta atitude, que o premia da melhor maneira: com os holofotes pelo sucesso. E as comemorações explosivas apresentam o espírito exato que os parisienses precisam ter se querem mesmo a inédita taça.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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