Champions LeagueInglaterra

A primeira vez que Chelsea e City disputaram uma final foi em ocasião muito menos glamorosa do que a Champions League

Longe de seus melhores momentos, eles fizeram a decisão da primeira Full Member's Cup, competição extinta que foi criada para compensar o banimento da Inglaterra de competições europeias

Chelsea e Manchester City farão apenas a terceira final de sua história na Champions League – sem contar duas Supercopas da Inglaterra. A segunda está fresca na memória. Valeu o título da Copa da Liga Inglesa em 2018/19, quando Kepa Arrizabalaga se recusou a ser substituído, para o desespero de Maurizio Sarri. A primeira aconteceu em 1986 e digamos que ela foi muito menos glamorosa do que o jogo deste sábado no Estádio de Dragão. Decidiu uma competição que pouca gente se lembra que existiu, menos gente ainda se interessou por ela na época, e em um momento em que os dois clubes brincavam de elevador entre a primeira e a segunda divisão da Inglaterra.

Ainda assim, a grande decisão da primeira Full Member’s Cup foi emocionante, teve nove gols, um bom público e um fato histórico: o primeiro hat-trick em Wembley desde o de Geoff Hurst em 1966 – o que deu à Inglaterra seu único título mundial.

Acho que precisamos começar com o que era essa tal de Full Member’s Cup. Após os clubes ingleses serem banidos do futebol europeu, como punição pela Tragédia de Heysel, em 1985, quando torcedores do Liverpool causaram a morte de 39 fãs da Juventus, o comitê administrativo da Football League decidiu criar uma nova competição para ocupar aquele espaço do calendário e gerar um pouco mais de renda, compensando parte do que havia sido perdido com a ausência de futebol continental.

Ken Bates, dono do Chelsea, foi o pai da ideia, que, de cara, não parece tão absurda, certo? No entanto, a Inglaterra já tinha duas copas, e uma delas, a da Liga Inglesa, já era muitas vezes ignorada pelos principais clubes, ou pelo menos deixada em segundo plano. Um outro problema é que aquele não era um bom momento para tentar vender ao público que era necessário haver mais futebol.

O jogo, frequentemente atacado pelo governo de Margaret Thatcher, estava em seu ponto mais baixo na Inglaterra. Heysel foi a culminação de anos de hooliganismo e as estruturas caíam aos pedaços. O estádio do Bradford havia pegado fogo, meses antes, matando 56 pessoas, e um desastre ainda maior estava no horizonte, em Hillsborough.

Também foi impossível convencer os maiores clubes do país de que aquela competição seria uma compensação razoável pelo futebol europeu que haviam perdido. A primeira edição contou com apenas cinco participantes da elite: Chelsea, Coventry City, Manchester City, Oxford United e West Brom. Manchester United, Liverpool, Tottenham e Arsenal não participaram de nenhuma das sete que foram realizadas. O Everton pulou a primeira, mas depois entrou na dança.

Abre parênteses: em 1985/86, os seis clubes ingleses que teriam participado de competições europeias (Everton, Norwich, Manchester United, Liverpool, Tottenham, Southampton) se reuniram para realizar a ScreenSport Super Cup, batizada com o nome de um canal de televisão pequeno que mais tarde se transformaria no Eurosport. Foi um fracasso ainda maior. O Liverpool disputou a primeira semifinal contra o Norwich em fevereiro e a segunda apenas em maio porque foi quando encontrou um espacinho na agenda. Nem um dérbi de Merseyside na decisão gerou muita atenção, com apenas 20 mil pessoas em Anfield. Talvez porque tenha sido disputado em setembro, já no começo da temporada seguinte. Teve apenas uma edição. Fecha parênteses.

E Full Member’s Cup era um nome horrível. Fazia referência ao fato de que a participação seria restrita aos times da primeira e segunda divisão, que eram membros plenos da Football League. Não melhorou muito quando ganhou naming rights. Foi a Simod Cup em um período e morreu como a incrível Zenith Data Systems Cup. “Deus do céu”, riu Howard Kendall, que levou o Everton à final de 1991, segundo a revista Four Four Two. “Não soa muito bem? Não é exatamente a Champions League, é?”.

Não. Não era. A presença do público foi… fraca. Apenas uma edição chegou a ultrapassar 10 mil pessoas de média nas arquibancadas. As outra ficaram mais próximas de 8 mil, com jogos que não chegaram sequer aos quatro dígitos. Por outro lado, uma visita de domingo a Wembley para um joguinho de futebol valendo taça era irresistível. Toda torcida inglesa sonhava com esse momento e, quando chegava a hora, não importava tanto que o que estava em jogo era a Zenith Data Systems Cup em vez da Copa da Inglaterra.

Teve até uma vez, em 1990, quando o Chelsea conquistou o bicampeonato sobre o Middlesbrough, que o público da final da Full Member’s Cup foi maior que o da Copa da Liga Inglesa, disputada entre Nottingham Forest e Oldham: 76 mil x 74 mil. E claro que tudo é uma questão de perspectiva. Para clubes como Reading e Crystal Palace, os títulos que conquistaram são valorizados porque são os seus únicos mais ou menos de primeira divisão.

Não era exatamente o caso de Chelsea e Manchester City, embora ambos não estivessem em posição de serem esnobes nos anos oitenta. Após terem atingido o auge de suas forças entre as décadas de sessenta e setenta, estavam na pindaíba. Com as finanças comprometidas por uma reforma em Stamford Bridge, o Chelsea havia sido rebaixado duas vezes desde a sua era de ouro com Tommy Docherty e Dave Sexton. Havia acabado de voltar e até tinha um time relativamente forte em 1985/86, quando chegou a brigar pelo título inglês, mas terminou apenas em sexto lugar. Cairia novamente em 1987/88, pela última vez.

O City caiu em 1983, subiu em 1985, caiu em 1987 e subiu novamente em 1989, em um ano simbólico para este confronto. Conquistou o acesso ao lado do Chelsea. Foi segundo lugar, atrás dos londrinos, que nunca mais seriam rebaixados. Os Citizens seriam. Bastante. Várias vezes. Inclusive até a terceira divisão em 1998.

Bom, antes de falar do jogo, mais um detalhezinho: a final de 1985/86 foi disputada em um domingo, depois dos dois participantes terem realizado partidas pelo Campeonato Inglês no sábado, e a do Manchester City havia sido contra o Manchester United, fora de casa. “Old Trafford no sábado e Wembley no domingo. Foi um fim de semana daqueles para a gente”, afirmou o ponta do City, Paul Simpson, que entrou no decorrer das duas partidas, em entrevista à BBC.

Pelo menos fez sol no domingo, e 67 mil pessoas foram a Wembley, embora haja relatos de torcedores pulando os muros e as catracas. Estima-se que entre 2 mil e 10 mill pessoas entraram clandestinamente no estádio, em apenas mais um exemplo da fragilidade estrutural e falta de controle que contribuíram para muitas grandes tragédias e outras quase tragédias naquela década.

A partida pelo menos foi muito divertida. Logo aos oito minutos, Steve Kinsey abriu o placar para o Manchester City. O Chelsea virou ainda antes do intervalo, com gols de David Speedie e Colin Lee. Quando Speedie marcou mais duas vezes no começo do segundo tempo, completando o primeiro hat-trick em Wembley desde Hurst contra a Alemanha, parecia que seria uma vitória tranquila do melhor time. Para garantir, Lee fez o seu segundo naquela tarde, com uma batida cruzada de fora da área.

Mas não foi tranquilo, não. Entre os 40 e os 44 minutos da etapa final, o Manchester City marcou três vezes e diminuiu para 5 a 4. Simpson entrou botando fogo no jogo e fez a jogada pela esquerda para a cabeçada de Mark Lillis. Depois, sassaricou novamente pela ponta e cruzou para o gol contra de Douglas Rougvie. O City atacava com tudo, e o Chelsea parecia desnorteado. Andy May invadiu a área com muita facilidade, tabelando com Neil McNab, e foi derrubado.

Lillis cobrou o pênalti, mas o milagre ainda ficou a um gol de distância. No fim das contas, foi o Chelsea quem se tornou o primeiro campeão da Full Member’s Cup – abandonada de vez em 1992 com a criação da Premier League.

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo