Champions League

A final da Champions que nunca aconteceu: os timaços de Bayern e Benfica perdidos nos anos 80

Durante a década de 1960, o Benfica inegavelmente se colocou como uma das grandes potências da Europa. O time estrelado por Eusébio foi bicampeão da Copa dos Campeões e ainda chegou a três decisões. Já nos anos 1970, o Bayern de Beckenbauer e Gerd Müller dominou o continente por três anos consecutivos. Esquadrões históricos, e sempre lembrados para resgatar o passado da Champions. No entanto, benfiquistas e bávaros também contaram com outros grandes times que se perderam no tempo. Forças europeias, não tão brilhantes quanto as anteriores, mas que tinham potencial para voltar ao topo da competição. Acabaram pelo meio do caminho, apesar das grandes campanhas no final da década de 1980.

Entre 1986/87 e 1989/90, Benfica e Bayern chegaram a três das quatro decisões da Copa dos Campeões, mas não ergueram a taça uma vez sequer. Os portugueses foram derrotados em 1988 para o PSV e em 1990 para o Milan, enquanto os alemães caíram para a glória do Porto na final de 1987. Em 1989/90, inclusive, ficaram a um gol de disputarem a decisão em Viena. Contudo, o tento de Stefano Borgonovo na prorrogação em Munique classificou o esquadrão de Arrigo Sacchi para o bicampeonato continental.

Durante o final da década de 1980, o Bayern contava com um de seus times mais celebrados na Alemanha, mas que não possui o devido reconhecimento além das fronteiras. Os bávaros conquistaram o seu segundo tricampeonato na Bundesliga, feito que só seria repetido nos anos 2000. Além disso, entre 1985 e 1990, o clube levantou a Salva de Prata cinco vezes em seis oportunidades. O início do ciclo vitorioso começou com o lendário Udo Lattek, que deixou o comando técnico para o não menos mítico Jupp Heynckes a partir de junho de 1987. Já em campo, passaram ícones do calibre de Lothar Matthäus, Jean-Marie Pfaff, Klaus Augenthaler, Andreas Brehme, Stefan Reuter, Olaf Thon e Stefan Effenberg – muitos formando a base da Alemanha Ocidental campeã do mundo em 1990.

Na Champions, porém, aquele Bayern sucumbiu nos momentos decisivos. Em cinco participações entre 1986 e 1991, chegou sempre entre os oito melhores – enquanto, em sua única ausência, foi semifinalista da Copa da Uefa de 1989. Ao longo daqueles anos, terminou eliminado por outros gigantes: em 1986 e 1987, foram duas quedas consecutivas nas quartas de final, para o Anderlecht (base da seleção belga) e para o Real Madrid da Quinta del Buitre. Em 1990, depois de superar o PSV de Romário, veio a já mencionada derrocada para o Milan de Van Basten, Gullit, Rijkaard, Baresi, Maldini e grande elenco. Já em 1991, o algoz também nas semifinais acabou sendo o Estrela Vermelha, dono da taça com uma verdadeira seleção iugoslava.

A temporada mais madura do Bayern naquele período aconteceu em 1986/87. A campanha era irretocável. Primeiro, eliminou o futuro campão PSV, antes de derrubar o Austria Viena nas oitavas. Nas quartas, apagou seu trauma diante do Anderlecht, com direito a goleada por 5 a 0 em Munique. E fez o mesmo com o Real Madrid, enfiando 4 a 1 na ida das semifinais, dentro do Olympiastadion. Só que a decisão terminou amarga aos torcedores bávaros que viajaram até Viena. O time de Udo Lattek vencia até os 32 do segundo tempo, quando Madjer e Juary buscaram a virada por 2 a 1, que deu o primeiro título europeu ao Porto.

Justamente por ter um concorrente tão forte dentro do país, o Benfica não conseguiu ser dominante em Portugal durante a segunda metade da década de 1980. Foram dois títulos dos encarnados na liga, em 1987 e 1989. Todavia, o elenco era fortalecido por contratações internacionais ao longo do período, como Mozer, Ricardo Gomes, Aldair, Valdo, Mats Magnusson e Jonas Thern. E ainda contou com ídolos locais, a exemplo de Shéu, Rui Águas e António Veloso. Como sinal de qualidade, os lisboetas chegaram à decisão nas duas vezes em que disputaram a Champions naqueles anos.

Em resposta ao Porto, a campanha até a final de 1988 deixou pelo caminho equipes qualificadas, como o Anderlecht e o Steaua Bucareste – campeão continental dois anos antes e já com Hagi no elenco. Na decisão contra o PSV de Guus Hiddink, entretanto, o empate sem gols em Stuttgart acabou fatal aos portugueses, treinados por Toni. Nos pênaltis, Veloso desperdiçou a cobrança que deixou a taça com os adversários. Já em 1990, a equipe de Sven-Goran Eriksson teve um desempenho igualmente notável. Derrubou o Dnipro, campeão soviético, nas quartas; e bateu o ascendente Olympique de Marseille nas semifinais – com Papin, Francescoli, Deschamps, Mozer e Tigana entre os craques do lado francês. Ainda assim, faltava força nos lusitanos para peitar o grande Milan. A zaga liderada por Aldair e Ricardo Gomes conseguiu segurar Gullit e Van Basten, mas viu Rijkaard garantir a vitória por 1 a 0.

Aqueles anos acabaram simbólicos para resgatar a mística da “maldição de Béla Guttmann” – quando, após deixar o clube, o treinador afirmou que o Benfica passaria 100 anos sem reconquistar a Europa. Depois de 1990, os encarnados jamais voltaram a disputar uma semifinal de Champions. Enquanto isso, o Bayern de Munique se reergueu em 2001 e em 2013, apesar das várias frustrações ao longo dos últimos 25 anos. Nesta terça, alemães e portugueses iniciam os embates na busca por mais uma campanha marcante. Aquela que não aconteceu nos anos 1980 por um triz.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo