Europa

Celtic realiza sonho de torcedor sem-teto e o recebe no CT para bater uma bola

Dentre as válvulas de escape que encontramos para lidar mais facilmente com momentos temporários difíceis ou problemas persistentes, o futebol parece ser um dos mais recorrentes. São várias as histórias de pacientes crônicos que apresentam melhoras em seu quadro por causa da relação com o esporte ou de pessoas que superaram barreiras externas que lhes foram impostas graças a um time. No caso de Derek Waller, escocês de 42 anos, o Celtic é parte integral de sua recuperação do vício em drogas e do período em que viveu nas ruas. Em grande parte, pela interação que o clube promoveu entre o torcedor e alguns de seus jogadores, no centro de treinamento de Lennoxtown, nesta terça-feira.

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O encontro entre Waller e o elenco, além do bate-bola com Anthony Stokes e Efe Ambrose, foi organizado pela SPFL, a liga escocesa, o Celtic e a Shelter, instituição de caridade que há um ano deu a Waller um flat temporário para que deixasse a rua. Em entrevista ao jornal Daily Record, o torcedor não escondeu a emoção: “Isso vai além dos meus sonhos mais loucos, e não tenho vergonha de dizer que chorei quando meu assistente social disse que eu estaria no mesmo campo que esses caras. É como ganhar na loteria. Ter a chance de jogar futebol ao lado de jogadores do calibre deles foi incrível. Foi um sentimento muito irreal, mas fantástico”.

O dia dos sonhos de Waller foi apenas o clímax de sua relação com o Celtic, mas a paixão pelo clube sempre permeou sua vida difícil e foi algo a que o torcedor recorria diante das dificuldades. O escocês fugiu de casa com apenas 15 anos, por causa da instabilidade de seu lar. Em entrevista ao Daily Record, Waller explicou que viver embaixo da ponte era uma opção melhor do que a experiência traumática que tinha. Eventualmente, sua avó o resgatou da situação em que estava, mas a morte dela, quando o então garoto tinha apenas 19 anos, levou Waller a um novo problema: as drogas. “Ela representava a única segurança que eu já tive. Sua morte me afetou muito”, recorda o torcedor.

Apesar de ter herdado de sua avó o flat que dividiam, o vício em drogas e álcool afetou de maneira pesada sua vida. Ao longo dos anos, foi acumulando dívidas atrás de dívidas até ser forçado a viver em um albergue de sem-tetos. “Foi terrível. Eu estava sempre cercado de pessoas usando drogas e álcool, então a tentação estava sempre na minha frente. As pessoas iam e vinham a qualquer hora da noite e não havia privacidade. Era uma maneira triste de se viver”, conta.

Foi então que a Shelter entrou em cena. Há cerca de um ano, a instituição lhe ajudou a encontrar uma acomodação temporária em um flat, onde Waller vive desde então. Quando a entidade perguntou ao assistente social Ian Kevan se ele conhecia algum fanático pelo Celtic, o trabalhador logo lembrou de Derek, com quem se conectou através do futebol. O profissional tentava ajudar Waller a resolver os problemas emocionais resultantes da infância tramática e encontrou no esporte a conexão entre os dois: “Costumávamos falar sobre seu amor pelo Celtic, ele era louco pelo time”.

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“Estou muito orgulhoso do clube. Eles não apenas me deram um dia do qual jamais esquecerei, mas também ajudaram uma instituição que me ajudou a superar um momento difícil. Passei de sem-teto e desesperançoso a alguém ansioso pelo futuro. Não dá para agradecer à Shelter, à SPFL e ao Celtic o suficiente”, comentou Waller, após o encontro.

Com uma boa estrutura por trás e com um dia dos sonhos na memória, Derek Waller ganha ânimo novo a partir de agora. Seu amor pelo clube, se é que era possível, se agigantou ainda mais. Se no passado os Hoops foram o que mantiveram o torcedor vivo, agora são o combustível para a busca por uma vida nova.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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