Como o Brasil foi destronado pela França na revelação e desenvolvimento de talentos
Formação de joias na França teve crescimento exponencial nas últimas décadas, enquanto Brasil revisita a estrutura das suas bases
O Brasil se popularizou ao longo de décadas como possivelmente o principal exportador de talentos no futebol. Virou comum ver jovens serem vendidos antes mesmo dos 18 anos, além dos grandes nomes do país fazendo a maior parte da carreira na Europa.
É justo dizer que o Brasil foi ultrapassado nesse quesito. O mercado francês explodiu nos últimos anos: na Premier League, considerado o melhor campeonato do mundo, por exemplo, a Ligue 1 foi a que mais vendeu jogadores desde 2014/15. Nos últimos 10 anos, a França obteve 3,9 bilhões de euros em venda de jogadores.
Para falar sobre os problemas da formação no futebol brasileiro, o jornal “O Globo”, ainda em 2014, destacava: “Os meninos aprovados têm que driblar uma tropa de adversários, que inclui a falta de estrutura dos clubes, métodos ultrapassados de treinamento, pressão da família e a voracidade de agentes e empresários”.
Mesmo com a evolução dos profissionais e a gradual melhoria na estrutura de alguns clubes — não do todo –, é notória como a formação em outros centros europeus têm sido mais organizada e com processos claros e humanizados.
Quais os ‘erros’ na formação de atletas do Brasil?
Mesmo com muitos atletas talentosos surgindo todos os anos em diferentes centros do Brasil, ainda há o argumento de que o futebol de base do país é defasado. E há diferentes reflexões para isso.
Existe a ideia inicial de que, na verdade, muitos talentos simplesmente não têm sido vistos. Há propostas que tentam sanar esse tipo de problema, como a E-Scout, que promove uma análise de diferentes campeonatos de base em uma plataforma disponível para clubes, agentes e scouts, e o Footbao, um aplicativo para os próprios jovens atleta subirem seus vídeos e serem notados.

Outro argumento é de uma má formação cultural, principalmente no que diz respeito à cobrança por resultados. O futebol de base é competição, claro, mas antes de tudo é formador. É, possivelmente, a única parte das carreiras de treinadores e jogadores em que deveria ser possível errar sem grande sentimento de culpa. Justamente porque nessa fase que as correções são mais acentuadas.
A formação defasada também surge em menos atenção no aspecto antropológico. Mesmo com grande investimento recente em análise, os jovens ainda não recebem todo o apoio que precisam para além do técnico.
Em entrevista ao canal “Sports Market Makers”, Gabriel Bussinger, coordenador técnico do Vasco e professor da CBF Academy, argumenta a favor da popularização de setores de análise de desenvolvimento. Isso seria um passo além da análise de desenvolvimento.
“A maioria dos clubes tem o setor de análise de desempenho na base. Esse analista vai analisar puramente o jogo, ele não avalia o jogador. Ele ajuda o treinador a criar estratégia para vencer o adversário, mas ele não avalia o desenvolvimento dos seus jogadores”, explicou.
Para Gabriel, departamentos de análise de desenvolvimento, que já existem em poucos clubes brasileiros, serviriam para olhar detalhadamente ao jogador. Mais do que se ele precisa melhorar a finalização, haveria também uma preocupação com, por exemplo, o aprendizado de um novo idioma, melhora física e criação de “soft skills” como comunicação.
“Isso não depende da vitória no jogo de quarta e sábado, depende só do olhar para o atleta”, completou. Uma categoria de base que tenha uma visão mais ampla do jogador para além de um produto já existe em outros países, por exemplo.
A famosa frase de Thierry Henry sobre Ronaldo Fenômeno, que “era muito bom porque jogava futebol o dia inteiro, enquanto eu precisava estar na escola”, é um exemplo disso. A formação no futebol alemão, por exemplo, também ficou famosa na época do 7 a 1, quando o futebol brasileiro voltou a debater sobre sua defasagem.
Efeito dominó? 🧐 João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras, em uma discussão interessante sobre como as categorias de base acabam afetando o futebol brasileiro e fazendo com que os clubes busquem talentos no Uruguai e na Argentina.
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— Trivela (@trivela) November 13, 2024
A Alemanha é renomada por produzir talentos através de bases estruturadas e com regras integradas pela Bundesliga combinadas com escolas de futebol especializadas. Os principais programas do país se concentram no desenvolvimento intensivo e holístico, combinando treinamento técnico com escolaridade para preparar mais do que atletas, mas também cidadãos.
Isso entra em debate principalmente na dificuldade de atletas brasileiros se adaptarem a um novo país quando deixam o Brasileirão ainda jovens — um argumento reforçado por diferentes cargos no meio.
O Brasil em comparação com outros mercados
Segundo levantamento do “CIES Football Observatory”, feito no ano passado, quatro clubes brasileiros aparecem entre as 20 melhores bases do mundo. É um bom número, apesar de todos fora do top-10.
São Paulo (12º), Corinthians (14º), Flamengo (15º) e Palmeiras (18º) estão no ranking, liderado pelo Benfica. Mas em comparação com os hermanos, três clubes argentinos (River Plath, Boca Juniors e Vélez) estão entre os dez primeiros.
O estudo leva em consideração o número de jogadores formados, o nível dos clubes em que eles atuaram na temporada anterior os minutos jogados no período. Isso é uma forma de dizer que, mesmo com brasileiros formando muito, a qualidade que esses atletas atingem e as oportunidades que eles recebem ainda não colocam a formação brasileira de volta no topo.

O mesmo observatório, também em 2025, revelou que a França lidera com folga a lista de países que mais movimentaram dinheiro com transferências na última década: 3,9 bilhões de euros. O Brasil é o segundo, com 2,6 bilhões, não muito longe de Espanha (2,2 bilhões) e Portugal (1,9 bilhão).
O futebol francês também ganhou força na Premier League, seja com joias da liga fazendo transferências gigantes, mas foi além: com os jogadores que passaram a se desenvolver na Ligue 1 antes de explodirem.
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Um ‘castelo’ que revolucionou a base francesa
Se os franceses destronaram oficialmente o Brasil em termos de formação de atletas, muito se dá por conta de um castelo. É no Institut National du Football de Clairefontaine que joias como Thierry Henry e Kylian Mbappé foram aprimoradas.
O instituto foi criado pelo então presidente da Federação Francesa de Futebol, Fernand Sartre, e inaugurado em 1988, dez anos antes do primeiro título da Copa do Mundo do país. Depois disso, foram mais três finais, em 2006, 2018 e 2022, e inúmeros talentos revelados.
O processo de seleção é rigoroso. Apenas jovens entre 13 e 15 anos, com cidadania francesa e oriundos de regiões específicas do país, têm acesso às avaliações que definem quem poderá integrar o programa. Não basta talento: é preciso demonstrar maturidade, capacidade de aprendizado e perfil psicológico compatível com as exigências do centro.
Os atletas vivem em regime semi-interno durante a semana, treinam diariamente e retornam aos seus clubes nos fins de semana. A rotina intensa é acompanhada de perto por uma equipe multidisciplinar que engloba treinadores, psicólogos, pedagogos, nutricionistas e médicos. O futebol é o eixo central, mas a formação humana é parte essencial do projeto.

No campo, tudo segue uma lógica pedagógica bem definida. As primeiras etapas priorizam o domínio técnico, o controle de bola e a tomada de decisão. Só depois disso os jogadores são expostos a estruturas táticas mais complexas e a campos de dimensões oficiais. A progressão é cuidadosamente monitorada para evitar sobrecarga física e mental.
A filosofia é clara: desenvolver inteligência de jogo antes de força, compreensão tática antes de automatismos, criatividade antes da padronização. Não por acaso, todas as categorias treinam prioritariamente no 4-3-3, formação considerada pela FFF a mais didática para estimular leitura espacial, amplitude e ocupação racional dos espaços.
Fora das quatro linhas, os jovens passam por avaliações constantes que medem desde parâmetros físicos e médicos até aspectos psicológicos e emocionais. Testes cognitivos, questionários de personalidade esportiva e acompanhamento educacional fazem parte da rotina. O objetivo é formar atletas capazes de lidar com pressão, frustração, expectativas e exposição, elementos inevitáveis no futebol de alto rendimento.
Toda a filosofia de Clairefontaine vai de encontro com o que, de forma abrangente, ainda não há na base brasileira: uma estrutura multidisciplinar que ainda que veja com seriedade as diversas nuances do jogo, forma mais do que apenas um atleta.
A CBF, no entanto, tem corrido atrás do prejuízo. Em fevereiro deste ano, a entidade criou um grupo de trabalho para propor melhorias na base nacional, que contará com participação de especialistas em formação esportiva e educação, além consultores técnicos independentes e representantes de clubes e a própria federação.
A ideia da entidade é avaliar o formato das competições de base e poderá reorganizar normas, faixas etárias das categorias e calendário. A integração do futebol com a educação, como em diversos centros europeus, também é um ponto de atenção da CBF para tentar resgatar a fama do Brasil de bom formador.
“Queremos construir um ambiente mais seguro, organizado e eficiente, capaz de preparar nossas crianças e adolescentes para uma trajetória sólida no esporte e, acima de tudo, para uma vida melhor. O Brasil sempre foi reconhecido por revelar talentos. Agora, queremos ser reconhecidos também pela qualidade do nosso processo de formação”, prometeu Samir Xaud, presidente da CBF na ocasião.




