Os motivos que explicam o sucesso do Bodo/Glimt, a maior zebra da atual Champions League
Da segunda divisão norueguesa às oitavas da Champions em menos de uma década, equipe desafia a lógica do futebol moderno
A Champions League vive de hierarquias, orçamentos gigantes e elencos estrelados. Mas, vez ou outra, a lógica é rasgada. E poucas vezes isso foi feito com tamanha contundência quanto pelo Bodo/Glimt na atual temporada.
O clube do Círculo Polar Ártico atropelou a Inter de Milão por 5 a 2 no placar agregado, eliminando o atual finalista do torneio e escrevendo um dos capítulos mais improváveis da história recente da competição.
Fundado em uma cidade de apenas 55 mil habitantes, a 16 horas de carro ao norte de Oslo, capital da Noruega, o Bodo/Glimt tornou-se o time mais boreal a disputar a Champions League — mas, em 2017, estava na segunda divisão norueguesa. Hoje, está entre os 16 melhores clubes da Europa.
A crescente histórica do Bodo/Glimt até a Champions League
O clube viveu escalada construída com método, convicção e uma identidade que desafia o futebol de elite. A façanha contra a Inter ganha ainda mais peso pelo contexto. Enquanto o gigante italiano vive a fase decisiva da temporada, o Bodo/Glimt está em “pré-temporada“.
A liga norueguesa paralisa suas atividades durante o rigoroso inverno e só retorna em março. Mesmo assim, nesse intervalo, os noruegueses bateram Manchester City, Atlético de Madrid e Inter, três campeões nacionais de ligas do primeiro escalão europeu.
No Aspmyra Stadion, seu estádio sintético para apenas 9 mil pessoas, construíram uma fortaleza. A vitória por 3 a 1 no jogo de ida deu a base para um segundo duelo histórico no San Siro, onde sobreviveram à pressão inicial e foram clínicos ao explorar os erros adversários. O 2 a 1 em Milão selou uma classificação que ecoa por toda a Europa.

O gramado sintético, que é polêmico por onde passa, não é apenas uma escolha para o clube: é necessidade. Por conta do frio extremo, o Bodo/Glimt não consegue manter a grama natural em bom estado durante o ano todo e precisa recorrer ao artificial. O capitão Patrick Berg explicou a situação:
“A maioria dos jogadores costumava jogar no sintético quando cresciam. Eu prefiro o natural, mas no nosso clima acima do Círculo Polar Ártico, é impossível manter o gramado natural bom durante o ano. Infelizmente, temos que jogar no sintético, é como as coisas são. Você se adapta ou pode reclamar. Para mim, não importa”, disse, em entrevista pós-jogo à “TNT Sports”.
Identidade, processo e pertencimento: os pilares do Bodo/Glimt
A espinha dorsal dessa trajetória é Kjetil Knutsen. Técnico desde 2018, ele resistiu a investidas de ligas mais ricas para permanecer no clube e consolidar um projeto esportivo raro no futebol moderno. Recentemente, renovou contrato até 2029, reforçando o compromisso com uma filosofia baseada em coletividade, desenvolvimento humano e estabilidade.
O ambiente interno é frequentemente citado como o maior trunfo do Bodo/Glimt. Não se trata apenas de intensidade tática ou disciplina coletiva, mas de um ecossistema construído em torno da confiança e da cooperação. Parte fundamental disso vem do trabalho de Bjorn Mannsverk, ex-piloto de caça e treinador mental, que introduziu práticas de meditação, controle emocional e foco no processo, não apenas no resultado.
Esse modelo moldou um elenco que privilegia pertencimento. O exemplo mais simbólico é Jens Petter Hauge, artilheiro do time na Champions. Depois de ser uma joia que “não explodiu” em passagens por Milan, Eintracht Frankfurt e Gent, o atacante retornou ao clube natal para reencontrar estabilidade, desempenho e prazer em jogar futebol. Não é um caso isolado: vários atletas enxergam no clube não apenas um trampolim, mas um destino esportivo legítimo.
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Da zebra ocasional ao fenômeno na Champions
O primeiro grande choque veio em 2021, quando o Bodo/Glimt aplicou 6 a 1 na Roma de José Mourinho, na Conference League. Ali, o futebol europeu começou a prestar atenção. Depois vieram campanhas sólidas na Europa League, culminando em uma histórica semifinal na temporada passada — eliminado apenas para o campeão Tottenham.
Na atual edição da Champions, o início foi instável. Sem vitórias nas seis primeiras rodadas, o time parecia fadado à eliminação precoce. Mas a virada contra o Manchester City, em casa, mudou completamente a narrativa. Na sequência, veio a vitória de virada em Madri, contra o Atlético, que garantiu a classificação aos play-offs.

Contra a Inter, a diferença de orçamento, elenco e tradição era abissal. Dentro de campo, porém, isso não se refletiu. Organização, intensidade, coragem e convicção no próprio modelo conduziram o Bodo/Glimt a uma das maiores zebras da história da Champions.
Agora, nas oitavas de final, o clube norueguês já não carrega apenas o peso da surpresa. Carrega, sobretudo, o símbolo de que ainda há espaço no futebol de elite para projetos autênticos, coletivos bem estruturados e histórias que escapam do roteiro previsível.
No sorteio da próxima sexta-feira (27), os norugueses aguardam um reencontro com o Manchester City ou um duelo diante do Sporting, de Portugal, pelas oitavas de final.



