Brasil e Turquia efervescem e, juntos, incomodam a Fifa

A Fifa tem vivido pesadelos por conta da escolha das sedes de suas competições. No Brasil, a Copa do Mundo de 2014 não foi o estopim, mas é um dos pontos mais criticados pelas manifestações que se espalham pelo país. Já a Turquia, onde a população também fervilha nas últimas semanas, não tem tantos motivos para protestar contra o Mundial Sub-20. Porém, é difícil imaginar que a revolta não respingará no torneio que começa nesta sexta-feira.
O discurso de Joseph Blatter minimiza a questão. Como de praxe, o presidente da Fifa trocou elogios com o mandatário local, o criticado primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. “Erdogan disse que a Turquia está muito feliz em receber as 23 seleções. O objetivo deles é ser um excelente anfitrião. Acreditamos que o país tem tudo o que precisa”, declarou Blatter, enfatizando mais a intenção de Istambul em sediar as Olimpíadas de 2020 do que os protestos que tomam conta da cidade.
Obviamente, Blatter não ignorou a instabilidade política no país. Mas minimizou seus efeitos: “A Fifa esteve em contato com autoridades políticas, especialmente com as forças de segurança. As garantias estão sendo dadas e tenho certeza de que nada acontecerá. É uma boa oportunidade de mostrar que o futebol pode manter as pessoas juntas. Precisamos permanecer aqui e estou certo que as autoridades turcas estão cientes disso”.
Apesar da truculência das forças de segurança turcas, os protestos têm sido pacíficos em sua maioria. O que não evitou que as autoridades reforçassem a segurança, mesmo sabendo que o torneio não deve ser alvo potencial dos manifestantes. Toda precaução é pouca para manter o controle popular e agradar as entidades internacionais.
Sobre a questão de gastos públicos, nem há muito que pontuar. A realização de um Mundial Sub-20 não demanda grandes obras e os próprios estádios não precisaram passar por modificações significativas para entrar no “padrão Fifa”. De qualquer forma, o torneio se insere no contexto de Istambul, palco das principais partidas e cuja estrutura urbana desencadeou a insatisfação popular.
Com as atenções voltadas à Turquia por um motivo a mais, não seria surpreendente se o entorno dos estádios fossem aproveitados como vitrines para as reivindicações. E, diante da força excessiva utilizada pela polícia, uma repressão ainda mais pesada poderá ser feita tomando o Mundial Sub-20 como pretexto.
Se no Brasil já são muitas as denúncias de abuso de força para inibir as manifestações nas sedes da Copa das Confederações, na Turquia não deverá ser diferente se os protestos tomarem estes rumos. Tudo é possível para evitar o debate democrático contra o poder estabelecido no país e, principalmente, para manter a impressão de mil maravilhas nos torneios da Fifa.



