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Bosman: “Fiz algo bom, dei direito às pessoas. Mas nunca recebi nada que me prometeram”

Jean-Marc Bosman nunca defendeu a seleção belga. Não chegou a um grande clube europeu e muito menos disputou a Lei Bosman, ninguém fica mais preso a seu clube ao final do contrato, assim como os limites para membros da comunidade europeia desapareceram. Ainda que, 20 anos depois de sua vitória nos tribunais, Bosman viva de maneira simples, criando seus dois filhos longe das benesses de um craque.

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Na próxima terça-feira, a promulgação da Lei Bosman completa 20 anos. O belga iniciara sua briga com o Liège em 1990, diante da impossibilidade de romper o vínculo com seu clube. Sem qualquer direito a resolver seu destino, ele se via como um escravo. Porém, a luta de Bosman ganhou novas proporções com o passar dos anos, à medida que não conseguia assinar com outros times. Refugiado na Ilha de Reunião, jogando por equipes minúsculas, o meio-campista também buscou o reconhecimento dos atletas como trabalhadores comuns, livres para transitar entre os clubes da União Europeia. Venceu.

Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Bosman relembrou o caso. Analisou o passado e falou sobre a sua vida atual. “Eu era mantido em meu clube como se fosse um cativeiro. Estava no final de meu contrato com o Liège. Eles me ofereceram um novo, com valor quatro vezes menor que o anterior. E, para me vender ao Dunkerque, eles exigiam quatro vezes o preço pelo qual tinham me comprado. Em outras palavras, eles pensavam que eu tinha me tornado quatro vezes melhor se quisessem me vender e quatro vezes pior se eu preferisse continuar. Eu não aceitei esse procedimento, que eu considerei completamente ilegal. Estava suspenso pela federação belga porque eu não queria assinar. Mas, se eu não assinasse, ainda não pertencia ao Liège, e eu não aceitava isso. Perdi uma oportunidade de ganhar muito dinheiro em outro clube”, declarou.

Segundo Bosman, a partir de certo momento, seu interesse já não estava mais na própria carreira, mas nas consequências que traria ao futebol. “A mensagem dada pela Uefa e pela Fifa para todos os clubes era de que não me contratassem porque eu tinha tomado medidas legais contra eles, assim como contra a federação belga e o Liège. Neste ponto, percebi que minha carreira iria acabar. Então eu decidi tomar medidas contra as clausulas de nacionalidade. Meu raciocínio era de que eu, como um cidadão europeu, estava livre para me transferir livremente, como qualquer trabalhador”, complementou.

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Longe de fazer fortuna, Bosman passou por sérias dificuldades financeiras. Embora tenha recebido uma ajuda mensal do sidicato de atletas e a indenização pelo caso, fez investimentos ruins com o dinheiro, e teve que vender uma de suas duas casas e seu carro. Além disso, deprimido e alcoólatra, chegou a ser condenado à prisão em 2011, por agredir a namorada – pena que cumpriu com trabalhos comunitários.. Mas acima de todas as questões pessoais, fala com certo desapego àquilo que proporcionou ao futebol.

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“Eu acho que fiz algo bom. Eu dei direito às pessoas. Agora, eu penso que pode haver uma nova geração de jogadores que não percebem quanta sorte eles têm, podendo deixar um clube e se juntar a outro, mesmo que seja quinto ou o sexto estrangeiro do elenco. Eu penso que alguns jogadores ganharam uma ótima vida – boa para eles. Eu poderia dizer que a Premier League é bela por causa de Jean-Marc Bosman. Agora já virei a página sobre tudo o que aconteceu. Porque tive várias promessas no passado, mas nunca recebi nada disso”, declara. “Eu tenho orgulho da lei, porque as pessoas continuarão falando sobre isso nos próximos anos, talvez mesmo depois que eu partir, em 20 ou 30 anos. Talvez eles pensem que deveriam ao menos me agradecer, nada mais”.

O único aborrecimento evidente de Bosman, contudo, é diante da maneira como o futebol europeu se organizou em torno do poderio financeiro. “O resultado é que agora os 25 clubes mais ricos pagam quantias astronômicas pelas transferências e os menores não podem se dar ao luxo de gastar tanto. Assim, esses 25 se distanciam cada vez mais do resto, aprofundando o abismo entre grandes e pequenos. Esse não era o objetivo da lei. Foi causado por aquilo que a Uefa e os clubes fizeram depois”, disse. Consequências muito além de sua luta, mas que acabaram moldadas por ela.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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