Europa

As qualidades de Preud’homme só demoraram um pouco a mais para brilharem

Elasticidade. Posicionamento preciso. Calma. Liderança em relação à zaga. Experiência. Demorou para que o mundo visse tudo isso em Michel Preud’homme: afinal de contas, ele só apareceu destacadamente fora das fronteiras da sua Bélgica natal em 1990, titular absoluto que foi dos Diabos Vermelhos na Copa do Mundo daquele ano, já aos 31 anos de idade. Mas houve tempo para que ele marcasse época na carreira. E pudesse ser incensado na Bélgica e fora dela como um dos melhores goleiros de seu tempo, nesta quinta-feira em que completa 60 anos de idade.

A bem da verdade, se lhe faltou o reconhecimento mundial por muito tempo, na Bélgica Preud’homme sempre o teve. Sempre mesmo, desde muito novo: o nativo de Ougrée chegou ao Standard Liège aos 10 anos de idade. E fez todo o trajeto nas categorias de base dos Rouches, até chegar à reserva do time titular, em 1976, aos 17 anos. E quando chegou, já dava a impressão de que seria ele o sucessor de outro ícone belga das três traves, naquele clube e também na seleção: Christian Piot, goleiro titular da Bélgica na Copa de 1970 e na Euro 1972, que teve no Standard o único clube de sua carreira, entre 1966 e 1978. Em apenas um ano, Preud’homme já garantiu a atenção do técnico do Standard, Robert Waseige. Mesmo jovem, já mostrava todas as qualidades enumeradas no início deste texto – por exemplo, a elasticidade e o ótimo posicionamento compensavam plenamente a baixa estatura para um goleiro (1,83m). E na temporada 1977/78 do Campeonato Belga, foi antecipada a transição: Christian Piot passava a titularidade para Preud’homme no Standard.

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Já titular da seleção sub-21 da Bélgica, Preud’homme virou rapidamente um dos pilares do clube vermelho de Liège. Junto a outros colegas, belgas (o lateral Eric Gerets e o meio-campista Guy Vandersmissen) ou da vizinha Holanda (o zagueiro/meio-campista Arie Haan, o atacante Simon Tahamata), o goleiro completou 20 anos já parecendo um veterano, em importância. Embora tivesse um tremendo concorrente pela posição na Bélgica – Jean-Marie Pfaff, tão bom quanto ele, talvez ainda melhor -, Preud’homme já estreou nos Diabos Vermelhos em 2 de maio de 1979, num jogo contra a Áustria, pelas Eliminatórias da Euro 1980. Bom sinal: não tomou gols, no 0 a 0. E suas atuações no Standard garantiram um lugar na convocação para a Euro em que a Bélgica despontaria, como vice-campeã. Pfaff era o titular absoluto, e seu reserva imediato era Theo Custers, mas se sabia: Preud’homme era um nome a ser altamente considerado, entre a fartura de bons goleiros que a Bélgica tinha.

O destaque no bicampeonato belga (1981/82 e 1982/83) e no vice-campeonato da Recopa Europeia (1981/82) só pareciam confirmar que Preud’homme estaria pronto para ocupar o gol tão logo Pfaff deixasse a seleção da Bélgica, dentro de alguns anos. Porém, dois fatores perturbaram sua carreira. O primeiro, a ausência inesperada na Copa de 1982. Mesmo como uma das opções candidatas a convocação – até estava no álbum de figurinhas da Copa -, Preud’homme foi preterido como terceiro goleiro: o técnico Guy Thys preferiu levar Jacques “Jacky” Munaron, do Anderlecht como outro arqueiro, além de Pfaff e Custers. O segundo problema foi mais grave: seu envolvimento com um escândalo de suborno do Standard ao Waterschei, na última rodada do Campeonato Belga de 1981/82, quando os Rouches enfrentariam tal equipe e precisavam de um ponto para o título.

Como os outros envolvidos no caso, Preud’homme foi suspenso pela federação belga, por seis meses. Mas ao contrário dos demais, o goleiro ficou no Standard após o escândalo. Enquanto estava parado, viu um novato de pouco mais de 20 anos tomar seu lugar para não largar: Gilbert Bodart, eleito melhor arqueiro da Bélgica em 1985 e 1986, reserva de Pfaff na Copa de 1986. Sem mais espaço em Liège, ele teria de deixar o clube em que crescera no futebol. E em 1986, foi para o Mechelen, buscar uma oportunidade para seguir mostrando as qualidades que todos sabiam que ele ainda tinha, apesar dos pesares éticos. Preud’homme agarrou aquela oportunidade de reagir na carreira como nunca – ou como sempre, em seu caso. Já terminou a temporada 1986/87 como titular da seleção da Bélgica – afinal, sendo o sucessor de Pfaff -, eleito melhor jogador do país, com o título da Copa da Bélgica (primeiro troféu do Mechelen em 40 anos). E ficaria melhor: com o título da Recopa Europeia em 1987/88, Preud’homme mostrava de novo do que era capaz. Sua ousadia nas defesas foi fundamental, por exemplo, para ir buscar no ângulo a bola chutada pelo atacante John Bosman, do Ajax, no final da decisão da Recopa, garantindo o 1 a 0 que garantiu o título europeu ao Malinwa.

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Começava ali sua reação, às vésperas dos 30 anos: Preud’homme começou naquele 1988 uma sequência de quatro premiações como Goleiro do Ano na Bélgica, e novamente foi eleito melhor jogador do país em 1989. Número 1 inquestionável dos Diabos Vermelhos, mesmo com o retardo causado pela suspensão em sua carreira, o goleiro chegou enfim à sua primeira Copa, em 1990, já aos 31 anos. E se não impressionou na Itália como Walter Zenga ou Sergio Goycochea, Preud’homme também não fez feio: saiu com várias menções honrosas daquele Mundial, como um dos destaques de uma campanha belga que poderia ter ido além. Já veterano, continuou titular absoluto do Mechelen no começo da década de 1990, mesmo que não houvessem mais títulos – no máximo, duas finais de Copa da Bélgica.

Na seleção da Bélgica, mesmo tendo concorrentes respeitáveis em Gilbert Bodart, Filip de Wilde e Dany Verlinden, Preud’homme ainda era absoluto. Aos 35 anos, provou o porquê disso na Copa de 1994. Novamente, a Bélgica foi eliminada nas oitavas de final. Mas as atuações do arqueiro nos Estados Unidos ficariam marcadas para toda uma geração. A agilidade e a elasticidade o salvaram (e salvaram a Bélgica) em pelo menos uma atuação histórica, no 1 a 0 dos Diabos Vermelhos contra a Holanda, eterna rival geográfica e futebolística, na fase de grupos. Contra a Alemanha, nas oitavas, se levou três gols, Preud’homme evitou outros tantos. E ainda comoveu o mundo nos acréscimos daquela partida que abria as oitavas de final da Copa, ao ser um dos primeiros goleiros conhecidos a tentar ir para a área adversária e marcar o gol de empate. De quebra, sua esposa Ingrid ainda teve o doído telefonema pós-eliminação filmado como uma cena marcante de “Todos os corações do mundo”, filme oficial daquele Mundial. Como se já não tivesse passado por outras tantas, Preud’homme teria na Copa de 1994 o seu apogeu. Premiado com o primeiro “Prêmio Yashin” cedido pela Fifa ao melhor goleiro de uma Copa.

Badalado mundialmente, Preud’homme teve uma merecida experiência fora da Bélgica: logo após a Copa, deixou saudades no Mechelen e foi para o Benfica. Nos Encarnados, viveu momentos difíceis: o time só conquistou uma Taça de Portugal (1995/96). Ainda assim, sempre foi garantia de segurança no gol benfiquista. Na seleção, continuou sendo convocado, mas já via Bodart e De Wilde jogarem mais – e depois de uma derrota por 4 a 1 sofrida para a Espanha, na fracassada campanha belga nas Eliminatórias para a Euro 1996, Preud’homme anunciou que seu tempo passara nos Diabos Vermelhos, após 15 anos e 58 partidas. No Benfica, demoraria um pouco mais. Chegou até a ter alguns desacertos com a diretoria – num deles, em janeiro de 1999, chegou até a negociar com o Fluminense. Mas resolveu os problemas, e enfim encerrou a carreira em 1999 considerado um dos melhores goleiros a ter atuado em Portugal, um ídolo eterno das Águias.

Eterno a ponto de imediatamente virar diretor técnico do Benfica – tendo até indicado como sucessor de Jupp Heynckes, em 2000, um certo José Mourinho, que conhecera numa visita ao Barcelona, abrindo caminho para a primeira grande chance do técnico português. Mas o caminho de Preud’homme fora dos campos não estava em terras lusas. Estava na sua Bélgica natal – mais do que isso, no Standard Liège onde tivera a primeira chance. Para lá o ex-goleiro voltou, como técnico, em 2001. Chegou a se tornar diretor técnico, entre 2002 e 2006. Mas foi à beira do campo, como treinador, que Preud’homme cresceu de novo: em 2008, 25 anos após ser o goleiro titular na conquista do Campeonato Belga, ele era o técnico da equipe que quebrou o tabu e fez do Standard novamente o melhor do país, contando com Marouane Fellaini, Steven Defour, Axel Witsel e Milan Jovanovic.

Vieram outros bons trabalhos, no Gent (entre 2008 e 2010) e no Twente holandês (entre 2010 e 2011, ganhando uma Copa da Holanda). A hora de ganhar dinheiro, no Al Shabab saudita. Mais um trabalho ajudando um grande clube belga a encerrar um jejum – no caso, o Club Brugge, campeão da liga em 2015/16, após 11 anos. Finalmente, depois de quatro anos em Bruxelas, entre 2013 e 2017, Preud’homme voltou ao seu Standard. Lá, atualmente, domina tudo: não só é técnico, mas também acumula a diretoria técnica e uma vice-presidência do clube. E ainda serve de símbolo, na Bélgica e no mundo, do que é ser um grande goleiro. Só demorou um pouco para isso, mas ele conseguiu.

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