Europa

Ano das Águias

E as Águias Negras voltaram a reinar absolutas nos céus turcos nesta temporada 2008/9. No final de uma temporada emocionante, o troféu da Süper Lig acabou ficando nas mãos do Besiktas. Aliás, com a conquista da Copa da Turquia, também, os Kara Kartallar conquistam um rara conquista dupla na história recente do futebol turco.

Conquistas duplas indicam que o clube foi bem superior aos demais, e por isso levam não apenas a liga, como também a taça. Foi assim no última vez que um time venceu duas competições no mesmo ano em território turco, quando o Galatasaray, em estado de graça, coroou a sua superioridade na década final do século passado sobre os rivais vencendo tudo o que podia.

Mas… Foi para tudo isso? Talvez não tenha sido. O Besiktas não se mostrou tão superior aos seus adversários assim. Pelo contrário. Pelo começo hesitante, provocado graças a estranha troca de treinador logo no início do campeonato, o clube de Dolmabahçe não parecia ser capaz de quebrar um incomodo tabu de seis temporadas sem título.

Porém, seus rivais Fenerbahçe e Galatasaray, mesmo com investimentos milionários, estiveram longe de ser competitivos numa temporada que ambos vão querer esquecer, e permitiram que a hegemonia que ambos mantinham sobre o Oriente Próximo fosse quebrada nesta temporada. E o Sivasspor, que brigou heroicamente pelo título até a última rodada, repetindo a ótima campanha da temporada passada, não conseguiu evitar a lembrança de que ainda era um clube pequeno do interior turco, ao perder pontos importantes nas últimas rodadas.

A troca de comando do Besiktas, com a saída do Ertugrul Saglam logo no começo da temporada -depois da sexta rodada-, foi conturbada, mas acabou sendo um dos fatores decisivos para a conquista alvinegra. Oficialmente, o pedido de demissão veio do próprio técnico, que não aguentou a pressão da torcida e da diretoria. Porém Sagalm vinha sendo pressionado a tomar esta decisão, já que ninguém havia engolido a derrota humilhante por 8 a 0 para o Liverpool na disputa da fase de grupos da Champions League e só havia sobrevivido pelo seu histórico de jogador bem sucedido do clube de Istambul.

Com a saída de Saglam, foi contratado o veterano Mustafa Denizli. Com 59 anos de idade, Denizli é um dos principais treinadores da história do país. Foi, por exemplo, sob o comando dele que a seleção turca chegou às quartas-de-finais da Euro, na surpreendente campanha da edição do ano 2000, e também foi quem comandou o Galatasaray na primeira vez que um clube turco fez uma campanha expressiva no cenário europeu -na Copa dos Campeões de 1989/90, quando chegou às semifinais.

Denizli deu ao elenco de Dolmabahçe uma tranquilidade que não existia anteriormente. Muito por culpa de seu Presidente Yildrim Demiroen, que tem um temperamento intempestivo. Por causa de seu estilo polêmico e falastrão, o que nem sempre é bom para o ambiente de um clube pressionado pela seca de seis anos sem títulos da liga, que começavam a incomodar os seus torcedores. Para um clube pressionado, nada pior do que a conjunção diretoria intempestiva e técnico inexperiente. Desastre na certa. Experiente, Denizli conseguiu manter o foco apesar dos fatores já citados, o que permitiu que os jogadores se concentrassem com mais tranquilidade.

Além disso, a intervenção de Denizli no mercado de inverno, contratando duas peças chave para reforçar o meio de campo alvinegro também acabou se mostrando muito importante. Os meias Yusuf Simsek, veterano turco contratado junto ao Bursaspor, e Fabian Ernst, alemão vindo do Schalke 04-ALE, deram ao meio de campo do Besiktas a fluência e a experiência necessárias para que o time ganhasse o diferencial necessário para a conquista do título.

Tudo isso fez com que as Águias Negras crescessem no final da temporada. E, depois de uma campanha apenas mediana na primeira metade da liga -quando fechou o turno apenas na sexta colocação-, o clube deslanchou no returno. Foram 40 pontos em 17 jogos -com 12 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota, para o Fenerbahçe, em casa. Com esse desempenho sólido, superou os seus adversários e acabou com a fila, que já durava seis anos.

Com esta conquista, Denizli conquista algumas marcas pessoais. Além de ter sido o treinador que conseguiu interromper a dominação bi-polar de Fenerbahçe e Galatasaray -que têm dominado a cena turca nas últimas temporadas-, Denizli se torna o primeiro técnico turco a conquistar um título do país pelo Besiktas. É uma marca curiosa para um clube com 106 anos de história, que conquistou o título em 13 oportunidades. Além disso, ele é o primeiro técnico a conquistar o título turco pelos três grandes times de Istambul -Fener, Gala e agora Besiktas. Com o prestígio em alta, teve o seu contrato renovado para a próxima temporada. Assim, Denizli terá a chance de tentar se igualar a Fatih Terim e ao lendário Ahmet Ozyazici como o técnico que mais vezes conquistou o título da Süper Lig -além de repetir o feito do lendário treinador inglês Gordon Milne, último treinador a conquistar mais de um título consecutivo pelas Águias Negras (temporadas 1989/90, 1990/1 e 1991/2).

Temporada também de…

Quem também merece crédito por ter empreendido uma campanha heróica foi o Sivasspor. Os Yigidolar (os Bravos), mais uma vez, fizeram grande campanha e estiveram entre os líderes até o final do campeonato. Verdade que faltou pouco para entrar no pequeno rol de campeões da Süper Lig. Mas o seus seguidores, na Anatólia Central, não poderiam estar mais orgulhosos do feito de seu time, que conquistou a desejada vaga para a próxima edição da Champions League, superando gigantes como Trabzonspor, Fenerbahçe e Galatasaray.

Sob o comando competente de Bulent Uygun, os Yigidolar sempre estiveram entre os líderes da competição. Porém, nas últimas rodadas, o Sivasspor sentiu um pouco da falta de nome e de tradição de seu jovem clube, e não conseguiu se manter no topo da tabela até o final da temporada. Foi mais ou menos uma repetição da temporada anterior, que também viu os Yigidolar brigando por vaga para a Champions Legue até o final da temporada, mas acabando com uma vaga para a (agora extinta) Copa Intertoto, já que ficou com o quarto lugar da Süper Lig. Nesta temporada, a história se repetiu. A briga era pelo título, e nas últiams rodadas o campeonato parecia próximo. Porém, acabaram superados pelo Besiktas e ficaram sem o título.

De toda a forma, foi uma grande campanha do clube, que teve como principais nomes o zagueiro Yasin Çaymak e a dupla de ataque Mehmet Yildiz e Pini Balili. Yildiz foi o destaque em campo, já que fez 14 gols na temporada, sendo um artilheiros do campeonato. Fora de campo, chamou a atenção a história do israelense Balili, que, devido aos desentendimentos oficiais entre os governos de Turquia e Israel -que levou a uma espécie de sentimento anti-israelense entre os turcos-, acabou se tornando alvo de ofensas dos torcedores adversários. Felizmente, nada de mais grave acabou acontecendo com o jogador. Mas foi uma história que marcou a temporada.

Resta saber quais serão os planos dos Yigidolar para a próxima temporada. A princípio, nada muda, tanto que a aposta em suas estrelas segue -e seus destaques deverão seguir em Sivas para a próxima temporada. Afinal, os alvirrubros estão classificados para a terceira fase eliminatória da Champions League, e tem chances de participar da fase de grupos da UCL. Mas será que conseguirá? E, se conseguir, não corre o risco de se enrolar em território nacional, onde tem se destacado até o momento? São as interrogações para este pequeno time que tem se destacado em território nacional.

O destaque negativo da temporada fica com os dois gigantes, Fenerbahçe e Galatasaray, que tiveram campanhas pífias neste ano. Com o investimento que foi feito, o resultado final dos dois times de Istambul ficou longe do ideal. Ainda mais para o Fener, cujos investimentos milionários resultaram em muitos poucos resultados práticos no decorrer da temporada.

Um quarto e um quinto lugares na Süper Lig, respectivamente, está longe de ser o resultado sonhado para clubes acostumados a vencer títulos. Se considerarmos que é a primeira vez na história que nem Gala nem Fener ficam entre os três primeiros na história da liga, vemos quão decepcionante foi o resultado final da liga para os dois clubes.

Para a temporada seguinte, muita coisa irá mudar nos dois clubes. No Fenerbahçe, a era Luis Aragonés acabou no final da temporada. E, de esperança para muitos de seus torcedores, ávidos por ver uma repetição da campanha empreendida pela seleção espanhola na Euro, Aragonés se tornou uma grande decepção. Nos Canários, a volta do alemão Cristopher Daum é tratada com esperança pelos seus fanáticos torcedores, que esperam a volta do futebol competitivo que marcou a era Daum, que levou os auri-azuis ao bi-campeonato da Süper Lig nas temporadas 2003/4 e 2004/5.

O Galatasaray, mais uma vez, aposta em uma grife estrangeira. Agora, o nome será o do holandês Frank Rijkaard, que aparece de forma surpreendente no tradicional clube turco. Espera-se que o holandês não sofra as pressões que seus antecessores receberam em momentos complicados da temporada. Pouca coisa se salvou no lado auri-vermelho da capital. Pode-se dizer que o bom desempenho dos novos contratados -Harry Kewell e Milan Baros, que acabou como artilheiro da liga- pode ser colocado no lado bom de uma temporada decepcionante.

Lá em baixo, quem se juntou a Hacettepe e Kocaelispor foi o Denizlispor, que segue para a Lig A depois de seis temporadas seguidas na Süper Lig. Os Horozlar (galos) foram derrotados nas últimas duas rodadas e acabaram superados por Konyaspor, Ankaragucu e Antalyaspor, que venceram pelo menos um de seus dois últimos encontros. O Denizlispor foi rebaixado pela sua incompetência fora de casa. Com apenas oito pontos somados fora de Denizli em toda a competição, com 13 derrotas em 17 partidas, os galos tiveram o segundo pior desemepnho da liga neste quesito. Por isso, acabaram rebaixados com justiça para a Lig A.

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Equipe Trivela

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