A Liga dos Campeões da crise econômica
A crise econômica ainda deixa diversos estragos no dia a dia das pessoas e das empresas na Europa. O reflexo no futebol também foi sentido em diversos lugares, mas ainda assim, várias transações milionárias aconteceram, o que pode dar a impressão que as coisas melhoraram. Olhando com mais calma, se vê quem gastou o dinheiro foram times que pouco foram afetados pela escassez.
O que as 20 maiores contratações do mercado europeu mostra que o cenário é sim de crise, apesar dos valores inacreditáveis. Isso porque aqueles que mais gastaram possuem investimento estrangeiro de donos com dinheiro que não foi afetado pela crise. Além desses, apenas os clubes gigantes conseguiram contratar, usando seu alto poder de arrecadação e receitas altas.
O clube que aparece mais vezes na lista é o Paris Saint-Germain, com a benção do dinheiro da Qatar Investment Authority, que comprou o clube em 2011. Com isso, veio a promessa de um time que brigaria pelo título não só nacional, mas da Liga dos Campeões. E rios de dinheiro foram gastos. E ainda são. No total, foram mais de € 157 milhões gastos em transferências nesta temporada, algo que poucos clubes do mundo poderiam fazer mesmo em tempos de vacas gordas.
Outros três clubes aparecem na lista com duas contratações: Chelsea, Zenit e Manchester United. Os dois primeiros estão na mesma situação do PSG: times com donos muito ricos que gastam dinheiro e não se abalaram com a crise. Times que possuem um orçamento que é turbinado, por assim dizer, artificialmente.
Tanto que o Zenit foi o recordista na contratação de um jogador nesta janela. Pagou € 55 milhões para levar Hulk, do Porto, no fim da janela russa, surpreendendo a muitos. E não foi só o brasileiro. O belga Axel Witsel, do Benfica, chegou por € 40 milhões. Se Hulk é a transferência mais cara do mercado, Witsel é uma das mais. Em valor, está em terceiro, empatado com Hazard, Lucas Moura e Javi Martínez. O que mostra um poderia que poucos times podem se dar ao luxo de esbanjar.
O Manchester City se movimentou pouco na janela em comparação ao que fez em temporadas anteriores – até porque os reforços de anos anteriores continuam por lá -, mas não quer dizer que gastaram pouco. A 12ª contratação mais cara da temporada foi do clube, que pagou € 20,2 milhões ao Benfica por Javi García. Um jogador que chegará para compor elenco. Foram pouco mais de € 67 milhões em reforços.
O dinheiro do Abu Dhabi United Group mudou a história do time, que não só passou a ter muito mais dinheiro, como viu suas receitas aumentarem. Atualmente, é a 11ª maior receita do mundo, já à frente do Tottenham, Hamburg, Lyon, Olympique de Marseille e Schalke 04, Atlético de Madrid e Roma. Com o crescimento do time, os donos esperam aumentar as receitas, até para amenizar o déficit, algo que será importante para evitar uma punição pelo Fair Play Financeiro, em 2014.
O caso do Chelsea é parecido. Roman Abramovich, o dono do Chelsea, é o ex-acionista majoritário da Gazprom, curiosamente a empresa por trás do Zenit. Os Blues gastaram € 40 milhões para levar Hazard para Stamford Bridge e outros € 32 milhões para levar Oscar. Dois jogadores promissores, que custaram caro para vencer a concorrência. O que torna o poder do Chelsea maior é que além do dono com muito dinheiro, o Chelsea é a sexta maior receita do futebol mundial, com € 256 milhões. Assim, boa parte do dinheiro do time vem justamente daquilo que consegue arrecadar.
A questão da receita dos clubes passa a ser um fator ainda mais relevante quando se fala sobre as transferências que completam a lista das 20 maiores. O Manchester United, que tem duas contratações no top 20, é o terceiro clube que mais arrecada no mundo. São € 350 milhões, valor que só perder para Real Madrid (€ 438 milhões) e Barcelona (€ 398 milhões). Com isso, além das camisas pesadas e participações constantes como protagonistas em competições europeias, esses clubes tornam-se atraentes para os jogadores.
O Manchester United fez a oitava contratação mais cara do mercado. Levou Robin van Persie, do Arsenal, por € 30,7 milhões. Além dele, contratou também Shinji Kagawa, a 19º transferência mais cara, por € 16 milhões. Ambas, é bom dizer, tiveram valores mais baixos do que o valor de mercado desses jogadores, já que estavam em último ano de contrato.
O Real Madrid, habitual comprador de jogadores por preços exorbitantes, trouxe apenas um jogador pagando caro: Luka Modric, a nona transferência mais cara, por € 30 milhões. O Barcelona, rival espanhol, contratou Alex Song por € 19 milhões, a 13ª transferência mais cara do mercado. Ambas contratações pontuais para os dois times, que são dois dos mais ricos do mundo pelas receitas que possuem.
O Bayern emplacou uma transferência que se iguala à terceira mais cara do mercado: Javi Martínez chegou por € 40 milhões, a cláusula de rescisão do volante no Athletic Bilbao. O Bayern Munique é o quarto clube com maior orçamento do mundo, com € 323 milhões, além de ser o clube mais forte da Alemanha, enquanto instituição. Ainda assim, foi uma transferência fora dos padrões alemães, tanto que é a maior da história da Bundesliga. Uma extravagância de um time que considerou a contratação fundamental.
O Arsenal está presente entre as maiores transferências com Santi Cazorla, 14ª maior transferência, custando € 19 milhões. O clube tem feito um investimento mais modesto que os rivais ingleses nas últimas temporadas, apesar de ser o segundo clube inglês que mais arrecada. É o quinto do mundo, com € 274 milhões em receitas, pouco mais que o Chelsea. Nesta temporada, gastou um total de € 46,7 milhões em contratações.
As 20 maiores transferências da temporada na Europa
1. Hulk, do Porto para o Zenit: € 55 milhões
2. Thiago Silva, do Milan para o PSG: € 42 milhões
3. Eden Hazard, do Lille para o Chelsea: € 40 milhões
4. Lucas Moura, do São Paulo para o PSG: € 40 milhões
5. Javi Martínez, do Athletic Bilbao para o Bayern Munique: € 40 milhões
6. Axel Witsel, do Benfica para o Zenit: € 40 milhões
7. Oscar, do Internacional para o Chelsea: € 32 milhões
8. Robin van Persie, do Arsenal para o Manchester United: € 30,7 milhões
9. Luka Modric, do Tottenham para o Real Madrid: € 30 milhões
10. Ezequiel Lavezzi, do Napoli para o PSG: € 26 milhões
11. Zlatan Ibrahimovic, do Milan para o PSG: € 21 milhões
12. Javi García, do Benfica para o Manchester City
13. Alex Song, do Arsenal para o Barcelona: € 19 milhões
14. Santi Cazorla, do Málaga para o Arsenal: € 19 milhões
15. Moussa Dembélé, do Fulham para o Tottenham: € 19 milhões
16. Joe Allen, do Swansea para o Liverpool: € 19 milhões
17. Lacina Traoré, do Kuban Krasnodar para o Anzhi: € 18 milhões
18. Marco Reus, do Borussia Mönchengladbach para o Borussia Dortmund: € 17,1 milhões
19. Shinji Kagawa, do Borussia Dortmund para o Manchester United: € 16 milhões
20. Gastón Ramírez, do Bologna para o Southampton: € 15,2 milhões
Italianos em contenção de gastos
Entre as 20 maiores transferências, nota-se que nenhum clube italiano aparece comprando, apenas vendendo. Se os clubes citados acima superaram a crise de alguma forma, os italianos sofreram com ela. A maior contratação entre clubes italianos foi a troca entre Milan e Internazionale. Antonio Cassano deixou o Milan para ir para a Inter, enquanto Giampaolo Pazzini fez o caminho inverso. O Milan ainda pagou € 7 milhões à Inter, o que, somado ao valor de mercado de Cassano, totaliza uma transferência de € 12,5 milhões.
A segunda maior transferência, a maior em dinheiro, foi Paulo Dybala, argentino que deixou o Instituto para se transferir para o Palermo por € 11,9 milhões. Depois, Mattia Destro, que deixou o Genoa para se transferir para a Roma por € 11,5 milhões. Foram contratações modestas perto da tradição do futebol italiano, historicamente uma das ligas mais fortes da Europa.
Mesmo os três grandes clubes do país, Juventus, Internazionale e Milan, sofreram com a crise. Isso mesmo com todos eles tendo donos que injetam dinheiro, mas em moldes bem diferentes de PSG, Manchester City e Chelsea. Os donos são locais, que vivem a crise na pele. E nem possuem tantos recursos financeiros como os citados.
Mesmo nas grandes ligas, pequenos sofrem
Se as maiores movimentações do mercado de transferências foram dos grandes clubes europeus ou de clubes muito ricos, como ficaram os clubes que não fazem parte de nenhum dos dois grupos?
Na Espanha, os clubes da Premera División gastaram um total de € 142 milhões em transferências. Se tirarmos os dois gigantes, Real Madrid e Barcelona, que possuem muito mais poder financeiro que os demais, o valor cai para € 73,5 milhões. Menos do que o Chelsea gastou na temporada.
As transferências foram modestas. A maior, tirando Barcelona e Real Madrid, foi a de Sergio Canales, ppor € 7,5 milhões. O meia estava emprestado pelo Real Madrid ao Valencia, que exerceu a opção de compra. No mais, Aly Cissokho foi contratado também pelo Valencia junto ao Lyon por € 6 milhões.
Na França a situação é melhor do que em Portugal ou na Grécia, mas os clubes ainda sofrem muito. O Paris Saint-Germain é um ponto fora da curva. No total, foram gastos € 254,97 milhões em transferências. Só o PSG foi responsável por € 156,91 milhões, 61% do total. Significa que os outros clubes gastaram € 98 milhões, aproximadamente. A liga francesa, assim como a portuguesa, normalmente recebe mais dinheiro do que gasta. O PSG fez a balança pender para o lado da gastança.
Os portugueses também sentem os efeitos da crise. Os clubes da liga normalmente mais recebem dinheiro do que o gastam, mas desta vez, mesmo os clubes maiores foram modestos. No total, foram € 45,7 milhões gastos pelos clubes da primeira divisão. Os três maiores clubes do país (e mais ricos) foram responsáveis por € 45,2 milhões, ou 99% do montante. Nem o Braga, que disputa a Liga dos Campeões, teve dinheiro para contratar. Os jogadores que chegaram não custaram nada aos cofres do clube.
No olho do furacão
A Grécia, centro da crise, viu a sua liga perder força para contratar. Os clubes gregos que disputam a Super League, primeira divisão grega, gastaram um total de € 5,9 milhões. Só para ter uma dimensão do tamanho da crise, na temporada 2008/09, o gasto total dos times da liga foi na casa de € 60 milhões.
Apenas o Olympiacos gastou uma quantia significativa, com € 5,3 milhões. É único clube com dinheiro no país, graças a Evangelos Marinakis, empresário da área de transportes, que aplica dinheiro no clube. Em 2010/11, o valor gasto pelo Olympiacos representou 70% do total da liga. Em 2011/12, 82%. Nesta temporada, 96%. É um ponto fora da curva no futebol grego, que explica por que o time levou 14 das últimas 16 edições do Campeonato Grego.
Se tirarmos o Olympiacos da conta, o total gasto pelos demais clubes chega a ínfimos € 565,6 mil. Isso mesmo: não chega a um milhão sequer. O valor total de gastos dos times da liga grega, mesmo incluindo o Olympiacos, é menor do que o total gasto pela Serie B italiana, a segunda divisão espanhola, a segunda divisão alemã ou que o Campeonato Argentino.
A crise está muito presente na Europa, em diversos níveis e de várias formas. O dinheiro ainda circula, seja por meio dos milionários de fora do continente, seja porque os clubes mais ricos ainda consigam amenizar os efeitos de alguma forma. Veremos os efeitos da crise nessa temporada – e provavelmente também nas próximas.



