Europa

A final europeia entre Espanha e Suíça: Quando as duas seleções decidiram a Euro Sub-21 de 2011, que se reflete até hoje nos elencos

Thiago Alcântara marcou um golaço em Sommer na final de um torneio com muitos jogadores presentes na Euro 2020

Espanha e Suíça farão um duelo de velhos conhecidos na Euro 2020. Há dez anos, as duas seleções disputavam uma decisão continental na Dinamarca. A ocasião, entretanto, era bastante distinta da atual. Espanhóis e suíços brilhavam no Campeonato Europeu Sub-21, numa competição que também valeu vaga para os Jogos Olímpicos de 2012. Apesar da surpresa provocada pela Suíça naquela campanha, a Espanha provou sua força na categoria com a vitória por 2 a 0 na final. E são muitos personagens em comum daquela partida para esta sexta, especialmente entre os helvéticos.

A gênese desta seleção suíça está no Mundial Sub-17 de 2009. Aquela conquista notável dos suíços se reflete no trabalho realizado pela equipe nacional ao longo da última década. E são três jogadores daquele grupo que permanecem no elenco dos helvéticos: Granit Xhaka, Ricardo Rodríguez e Haris Seferovic – este, o grande destaque individual daquela competição. Curiosamente, a final quase guardou um embate com a Espanha. A Roja alcançou a semifinal, quando sucumbiria à Nigéria, derrotada pelos suíços na decisão. Aquele time espanhol também reunia três jogadores que hoje integram a seleção principal: Koke, Pablo Sarabia e Álvaro Morata. Isco, Sergi Roberto e Iker Muniaín eram outros notáveis na competição.

A própria Copa do Mundo de 2010 guardaria uma partida entre Espanha e Suíça. Os helvéticos trataram de surpreender os futuros campeões mundiais na abertura do Grupo H, com o gol de Gelson Fernandes derrubando a equipe de Vicente del Bosque. Mas seria mesmo nas categorias de base que a história do jogo desta sexta-feira acabaria se escrevendo. O Campeonato Europeu Sub-21 seria uma nova oportunidade para lapidar as próximas gerações, com os campeões juvenis pela Suíça dando logo um salto entre faixas etárias para contribuir também com a campanha continental.

O Campeonato Europeu Sub-21 costuma ser um bom termômetro para saber o que acontecerá nas competições adultas em breve. E aquela edição de 2011 guardaria algumas histórias interessantes. O Grupo A, o mesmo da Suíça, tinha uma surpreendente Islândia. Aquela aparição previu o que ocorreu na Euro 2016, e não por mera coincidência. A base quadrifinalista no torneio adulto já estava formada ali, com destaque a Gylfi Sigurdsson e Aron Gunnarsson. Já a anfitriã Dinamarca contava com uma equipe que aparece em peso na Euro 2020. Christian Eriksen, Nicolai Boilesen, Thomas Delaney e Daniel Wass eram alguns dos destaques. Apenas Belarus não floresceu como o esperado, mesmo ao alcançar as semifinais daquele certame.

Já o Grupo B, o da Espanha, viu um bom papel da República Tcheca. Apenas cinco dos 23 convocados não chegaram à seleção principal. Alguns deles permanecem, a exemplo de Tomás Vaclík, Tomás Pekhart e Ondrej Celustka. A Inglaterra veria muita gente ficar pelo caminho, mas tinha Jordan Henderson e Kyle Walker, além de outros badalados da época como Chris Smalling e Daniel Sturridge. Já a Ucrânia ainda reúne os destaques daquele grupo sub-21, com Andriy Yarmolenko e Taras Stepanenko se tornando vitais para que o país tivesse vida tão longa nesta Eurocopa.

A Espanha treinada por Luis Milla não abriu mão sequer de jogadores que tinham disputado a Copa do Mundo de 2010. Javi Martínez e Juan Mata eram os campeões mundiais que desciam um degrau para auxiliar o sub-23. Aquele time contava com muitos jogadores badalados, como Bojan e Diego Capel. Alguns deles escreveriam histórias de respeito, a exemplo de Dani Parejo e Ander Herrera. E, claro, alguns ainda vestem a camisa da Roja. David de Gea era o goleiro titular na ocasião e César Azpilicueta ficava como opção na lateral, enquanto Thiago Alcântara gastou a bola no torneio.

Já a Suíça misturou gerações. Entre os mais velhos dirigidos pelo técnico Pierluigi Tami estava o goleiro Yann Sommer. Na faixa dos 21 anos apareciam no ataque Admir Mehmedi e Mario Gavranovic. Xherdan Shaqiri vestia a camisa 10 às vésperas de completar 20 anos. E, logicamente, os helvéticos não abririam mão dos principais talentos campeões mundiais dois anos antes. Granit Xhaka era um deles, ao lado de Pajtim Kasami e Nassim Ben Khalifa – que não teriam vida longa na seleção adulta. Ao todo, os suíços reuniam 18 jogadores que chegaram à seleção principal, mas nem todos à local. Frank Feltscher (Venezuela), Daniel Pavlovic (Bósnia) e Amir Abrashi (Albânia) tomaram outros caminhos.

A Suíça sobrou no Grupo A, com nove pontos conquistados. Shaqiri definiu a vitória mais importante, o 1 a 0 sobre a Dinamarca na estreia, com uma bela jogada individual. Depois disso, os suíços ganharam da Islândia por 2 a 0 e anotaram 3 a 0 sobre Belarus – com dois gols de Mehmedi na ocasião. Interessantemente, com os três concorrentes somando três pontos, os belarussos ficaram com a segunda vaga graças ao saldo de gols nos confrontos diretos. Naquela ocasião, três pontos na fase de grupos não foram suficientes à classificação dos dinamarqueses.

Já no Grupo B, a Espanha cumpriu sua missão com a liderança. Empatou com a Inglaterra por 1 a 1 na estreia, mas derrotou República Tcheca e Ucrânia. A surpresa da chave ficaria para os tchecos, que desbancaram os ingleses pela segunda colocação. A Tchéquia chegou com a vantagem do empate no confronto direto da última rodada, já que havia vencido a Ucrânia, enquanto os Three Lions só empataram. No jogo decisivo, a vaga ia ficando com a Inglaterra até os 44 do segundo tempo, quando a República Tcheca buscou uma emocionante virada por 2 a 1. Pekhart cravou a estaca nos britânicos aos 49. Com isso, a Suíça encararia os tchecos na semifinal e a Espanha mediria forças com Belarus.

A Espanha sofreu bem mais que a encomenda contra Belarus. Os azarões venciam até os 44 do segundo tempo, quando Adrián empatou. Somente na prorrogação é que a Roja se aliviou com o triunfo por 3 a 1. Já a Suíça também dependeu do tempo extra para derrotar a República Tcheca. O triunfo por 1 a 0 só foi comemorado aos nove minutos da segunda etapa da prorrogação, com Mehmedi se tornando o herói. Os dois vencedores, além de se classificarem à final, também se confirmaram nas Olimpíadas de 2012. A terceira vaga ficou com os belarussos, que derrotaram os tchecos na decisão do terceiro lugar.

A final em Aarhus contou com bom público, assistida por 16 mil nas arquibancadas. E o favoritismo era da Espanha. Se a linha defensiva à frente de David de Gea não chamava tanta atenção, com destaque ao já aposentado Álvaro Domínguez, o meio-campo concentrava enorme talento. Javi Martínez era a base da trinca ao lado de Thiago e Ander Herrera. Mais à frente, Mata e Muniain abriam nas pontas, enquanto Adrián era o homem de referência. A Suíça tinha Sommer como capitão no gol, sem sofrer um gol sequer até a final, com uma defesa onde Timm Klose era o principal jogador. Por lá, o melhor também ficava no meio, especialmente com Xhaka se combinando com Fabian Frei. Shaqiri era o ponta direita, com Mehmedi no comando do ataque.

No fim das contas, a vitória da Espanha por 2 a 0 refletiu a expectativa daquela geração. Os ibéricos fizeram uma partida mais completa e abriram o placar aos 41 minutos. Didac Vilà cruzou e Ander Herrera entrou na área para definir de cabeça. O grande craque em campo foi Thiago Alcântara. O meio-campista distribuiu uma coleção de passes e acabaria anotando um gol antológico no fim do segundo tempo, para definir o placar. Em uma cobrança de falta na intermediária, quase na linha central, Thiago arriscou a batida direta e encobriu Sommer. Pintura que definiu a superioridade dos ibéricos.

A seleção do campeonato concentraria boa parte dos jogadores da Espanha. Thiago Alcântara e David de Gea estavam nela. Entre os escolhidos da Suíça também apareciam Yann Sommer, Xherdan Shaqiri e Admir Mehmedi. Dos 23 melhores atletas daquela competição votados pela Uefa, nada menos que 10 disputam a Euro 2020, todos de seleções ainda presentes nas quartas de final – incluindo também Vaclík, Celustka, Boilesen, Eriksen e Kyle Walker.

Aquela equipe da Espanha ainda atuava nos clubes locais. Azpilicueta, Victor Ruiz e Didac Vilà eram as exceções no exterior. A maioria absoluta buscaria novos destinos em breve, inclusive De Gea e Thiago Alcântara, fazendo carreira no Manchester United e no Bayern de Munique. Boa parte do elenco da Suíça também tentaria seu sucesso no exterior. Sommer, Shaqiri e Xhaka ainda eram companheiros no Basel, enquanto Mehmedi defendia o Zürich. O único helvético desta Euro 2020 num clube estrangeiro na época era Gavranovic, defendendo o Schalke 04. E a Bundesliga, de fato, seria o destino da maioria deles – com Sommer e Xhaka ainda se tornando companheiros no Borussia Mönchengladbach.

A Espanha seguiu colecionando campanhas importantes no Europeu Sub-21 ao longo da última década. O time campeão em 2013 também contava com De Gea e Thiago, além de integrar Koke e Álvaro Morata entre os titulares. A Roja seria vice em 2017, num time que renderia Marcos Llorente e José Gayà à equipe atual. E levaria o troféu de novo em 2019, num elenco no qual desabrocharam Dani Olmo, Mikel Oyarzabal e Fabián Ruiz. O trabalho dos ibéricos na categoria está entre os mais qualificados, ao lado da Alemanha, e o sub-21 se torna um degrau importantíssimo à seleção adulta. Foi assim, inclusive, que Julen Lopetegui tinha se promovido como técnico do time principal na caminhada rumo à Copa de 2018.

A Suíça, por outro lado, não viu florescer uma geração sub-21 tão boa. A seleção só voltou à fase final do Europeu Sub-21 em 2021, depois de uma boa campanha nas Eliminatórias em que se igualou a uma forte França. Porém, os helvéticos não passaram da fase de grupos, realizada na Data Fifa de março. Aquela equipe ainda cedeu o lateral Jordan Lotomba para a Euro 2020. Mesmo as seleções sub-20 e sub-19 não fariam grande papel nos torneios internacionais. A sub-17 também não voltou ao Mundial, no máximo caindo na fase de grupos do Campeonato Europeu da categoria. E a seleção olímpica decepcionaria em Londres 2012, com apenas um empate na primeira fase. O maior reflexo daquela geração vem agora.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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