Europa

À beira do heptacampeonato grego, o Olympiacos está conseguindo viver uma crise brava

O Olympiacos nada de braçada no Campeonato Grego há duas décadas. Desde 1996/97, não faturou a liga nacional em duas oportunidades – o que significa que, não fossem os lampejos do Panathinaikos em 2004 e 2010, os alvirrubros poderiam ter conquistado 20 taças consecutivas da Super League. A crise econômica da Grécia ajudou a acentuar a diferença, diante da força econômica do clube de Pireu, um dos raros a desfrutar de um mecenas: Evangelos Marinakis, milionário que fez fortuna com o ramo da navegação, embora tenha uma gestão controversa, associada a alguns escândalos. Independentemente das polêmicas, o heptacampeonato em 2016/17 parece apenas questão de tempo, com o time acumulando seis pontos de vantagem a cinco rodadas do fim. Mas o que aparentemente deveria ser calmaria, na verdade, guarda uma grave crise.

Quando se vence tanto, a exigência pelo sucesso é ainda maior. E mesmo as taças enfileiradas não atenuam o mês caótico que o Olympiacos atravessou entre 19 de fevereiro e 19 de março. Neste intervalo, sofreu quatro derrotas em cinco compromissos pelo Campeonato Grego – três delas consecutivas, o que não acontecia desde maio de 1996. Mas longe de ser uma questão “simples” assim. Porque três dos tropeços foram justamente contra os três maiores rivais dos alvirrubros. Primeiro, foram superados pelo AEK Atenas. Duas semanas depois, o algoz foi o PAOK. Já neste domingo, engoliram a seco no dérbi contra o Panathinaikos, em revés que não acontecia desde março de 2014. E o 1 a 0 no placar, gol de Marcus Berg, foi bem mentiroso. O goleiro Stefanos Kapino evitou o massacre. A esta altura do campeonato, o clube de Pireu acumula 16 pontos a menos do que em relação à temporada passada.

Como não bastasse, o Olympiacos ainda fracassou contra outros “rivais”, no confronto com o Besiktas pelas oitavas de final da Liga Europa. Grécia e Turquia carregam um ranço histórico que vai muito além do futebol, incluindo uma guerra no início do século passado. Não à toa, os torcedores visitantes foram proibidos pela Uefa tanto em Istambul quanto em Pireu, para evitar brigas. De casa, viram a humilhação de seus jogadores na Vodafone Arena, com a derrota por 4 a 1 para os turcos, na qual os muitos erros foram decisivos. Nas arquibancadas, houve até mesmo uma provocação dos anfitriões, com música grega tocada nos auto-falantes quando a goleada já estava consumada.

No meio do turbilhão, uma torcida revoltada, que recebeu seus jogadores sob vaias antes do dérbi contra o Panathinaikos e que tornou a cobrança pelos resultados uma constante. Enquanto isso, o Olympiacos se mostra um tanto quanto perdido. O treinador na última temporada havia sido o português Marco Silva, que pediu para sair após o título, alegando motivos pessoas. O clube contratou o espanhol Víctor Sánchez, que não durou mais do que dois jogos oficiais, com a eliminação nas preliminares da Liga dos Campeões para o Hapoel Beer-Sheva. Sem fazer a pré-temporada, Paulo Bento chegou. E, sem impressionar, não resistiu à derrota para o PAOK, deixando o interino Vasilis Vouzas se queimar contra Besiktas e Panathinaikos.

Pelas notícias na imprensa grega, o Olympiacos ainda corre atrás de um novo treinador para a atual temporada. Resta saber quem vai querer assumir a “armadilha”. Obviamente, há a chance de um título fácil em apenas um mês. E a tabela dos alvirrubros não prevê grandes obstáculos, com quatro dos últimos cinco adversários ocupando a metade inferior da tabela. O problema se concentra mesmo no ambiente turbulento. Ao menos,  o novo comandante terá um escudo claro: a própria diretoria. Os dirigentes vêm sendo responsabilizados pela queda meteórica, especialmente pelas vendas de Luka Milivojevic e Brown Ideye (que permanece como artilheiro do time, somando 15 gols) em janeiro. Terão que se mexer para agradar uma torcida cujo o nível de exigência é altíssimo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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