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Rapinoe explica protesto contra violência policial: “Não posso suportar este tipo de opressão”

Se você acompanha ou está por dentro do que acontece na NFL, certamente já viu ou soube que Colin Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers, costuma se ajoelhar durante a execução do hino nacional que antecede os jogos. A atitude foi adotada pelo jogador após mais uma série de episódios violentos envolvendo a polícia americana e cidadãos negros que terminou em mortes. Com o intuito de condenar a brutalidade e o abuso de poder policial em seu país, Kaepernick fez do simples gesto de ficar de joelhos diante de um dos símbolos oficiais dos Estados Unidos enquanto nação mais do que um protesto: um ato de resistência. E assim começou a fazer também Megan Rapinoe, meia da seleção americana feminina.

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“Eu escolhi me ajoelhar porque no tempo que eu gastei para escrever isto aqui, muitos americanos perderam suas vidas para a violência sem sentido”, desabafa a jogadora em um artigo escrito para a The Players Tribune, um espaço que dá voz aos atletas. “Eu escolhi me ajoelhar porque não muito longe do hotel em que me hospedei em Columbus, Ohio, na noite antes da partida da seleção contra a Tailândia, um menino de 13 anos chamado Tyre King foi morto a tiros por um policial”, continua. “Eu escolhi me ajoelhar porque eu simplesmente não posso suportar o tipo de opressão que este país permite que aconteça contra seu próprio povo. Eu escolhi me ajoelhar porque, nas palavras de Emma Lazarus, ‘até que todos nós sejamos livres, nenhum de nós é livre'”.

Embora muitos jogadores da liga de futebol americano tenham apoiado a manifestação de Kaepernick, e alguns acompanhado sua atitude, Rapinoe foi a primeira e é a única atleta no futebol a demonstrar sensibilidade com a causa ajoelhando-se antes dos confrontos da seleção. Bem como o quarterback do 4ers, a meio-campista vem recebendo críticas, que fizeram com que ela se pronunciasse, por meio do artigo, para esclarecer todas as questões por trás do gesto corriqueiro. E, de certa forma, pressupor que não abrirá mão de reprovar atitudes de submissão do Estado a respeito da violência que uma instituição ligada a ele proporciona em função de desaprovações de agentes públicos e da própria mídia.

A maioria das condenações ao ato foram em direção à atleta em nome de um suposto nacionalismo, o que Rapinoe explica em seu desabafo que é um dos motes do ato, mas não com o sentido que a criticam. “Eu entendo se você acha que eu estou desrespeitando a bandeira dos Estados Unidos ao me ajoelhar, mas se estou fazendo isso é por causa do meu enorme respeito à bandeira e à promessa que ela representa que eu escolhi demonstrar isso desta forma. Quando eu fico de joelhos, eu estou encarando a bandeira com meu corpo inteiro, olhando diretamente para o coração do símbolo de liberdade mais importante de nossa nação — porque eu acredito que isso é minha responsabilidade, assim como é a sua, de assegurar que a liberdade é concedida a todos em nosso país”, escreve a jogadora.

Ser declaradamente lésbica e sentir na pele todos os dias o preconceito que circula de forma latente, mas fatal, é uma das razões que levam a americana a tomar frente na questão da violência racial. Algo que foge de sua vivência, porém não da realidade na qual está inserida. Segundo levantamentos do Mapping Police Violence, site que compila dados colaborativos sobre a impetuosidade policial nos Estados Unidos, pelo menos 230 negros foram mortos, só neste ano, por quem, na teoria, deveria garantir a segurança civil. Estatística esta que remete a outra, a qual aponta que negros têm até três vezes mais chances de ser mortos por policiais do que brancos e alarma para um problema que, realmente, deve ser discutido de forma séria por todos.

O que Rapinoe, com isso, está tentando fazer é atrair o olhar do país inteiro e do resto do mundo para o problema da tensão racial e da crueldade com a qual os agentes de segurança agem. “Não posso ficar de braços cruzados enquanto há pessoas neste país que tiveram e têm que lidar com esse tipo de dor de cabeça. Sei que não há uma maneira certa de ser protestar. Também sei que nada que eu faça tirará a dor das famílias que perderam um ente por conta disso. Mas eu sinto em meu coração que é certo que eu continue me ajoelhando durante a execução do hino nacional. E eu farei o farei, como também farei qualquer coisa que eu puder para ser parte da solução”.

Se a atitude de Rapinoe, uma das maiores craques do futebol mundial, servir para chamar a atenção ao que acontece no país e levantar a discussão, já terá valido a pena. A jogadora sabe que ela tem holofotes sobre ela por ser uma grande atleta do seu esporte e uma atitude dela ajuda a dar visibilidade para uma questão que ela considera importante. E é difícil discordar.

Foto de Nathalia Perez

Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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