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Lavezzi não inveja Messi e deseja apenas caminhar pela multidão

Por Hudson Martins*

Se Ezequiel Lavezzi – rápido e solidário atacante do Paris Saint Germain – decidisse caminhar cidade adentro, provavelmente estaria em maus lençóis. Desprovido dos privilégios dos comuns, seria reconhecido e importunado a todo instante, talvez incapaz de avançar míseros centímetros. Em recente entrevista ao quinzenal Marca Plus, Lavezzi falou sobre suas origens, sobre o que há de melhor e pior no futebol, sobre sua vontade sazonal de abandonar a profissão. Quando perguntado se gostaria de ser Lionel Messi, ainda que por alguns dias, foi tácito:

‘Não. (…) [Messi] Está condicionado a não poder errar, porque sabe que todo o mundo está olhando. Creio que ocorre com todos os jogadores, mas com ele na maior escala possível. (…) A verdade é que não gostaria de estar em uma situação assim porque, pessoalmente, me agrada passar despercebido.’

Aqui, são rapidamente ativados nossos primeiros botõezinhos de julgamento. Neste caso – em que há uma diferença latente entre as partes envolvidas, sendo uma delas absolutamente genial – corremos o risco de pecar pela injustiça e incompreensão. Como se aqui houvesse um conflito, como se houvesse conflitos armados em cada esquina ou aba do navegador. Ao contrário do que possa parecer, Lavezzi não destilou uma breve dose de recalque sobre seu amigo de longa data. Na verdade, fez uma reflexão valiosa sobre algumas das manias destes tempos.

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Atletas de altíssimo rendimento são admirados por todos nós. Quando saltam mais alto, correm mais rápido e demonstram sua força, eles concretizam uma das mais importantes missões que há: a transcendência, o impulso de constante superação que carregamos conosco, às vezes em silêncio. Lionel Messi é idolatrado – todos aqueles cânticos, todas as palavras e imagens e produtos que relembram seu brilhantismo – porque vai além dos meros mortais. Assim, denuncia a existência de uma dimensão essencialmente religiosa do esporte. Criamos rituais elaborados para aclamar nossos ídolos e venerar seus grandes feitos, alimentamos um profundo desejo de ser como eles. Quem não gostaria de ser como um deus? E olhamos aquelas pessoas com a mesma profundidade com que miramos os deuses, ainda que os atletas estejam bem ali. Eles podem ser vistos e tocados. Eles se machucam, falam palavrões. São acometidos pela fraqueza, acusam o golpe.

Eles não são deuses, de fato.

Eles têm seus medos, muitas vezes varridos para debaixo do tapete. Mas, inebriados nas nossas adorações, temos uma ligeira tendência para ignorar a face destrutiva do sucesso, como se ela simplesmente não existisse. Como se fosse um peso leve, facilmente transportável. Como se fosse confortável ter de viver e jogar em um campo de dimensões mínimas, com a liberdade cerceada, sem que se possa sair – é contra as regras. Ainda que seja uma espécie de role model da bola, Messi teve a vida tomada de assalto, suas mais singelas ações privatizadas ou levadas ao domínio público sem que sua opinião fosse necessariamente consultada. Falamos dele como se falássemos de um amigo que mora na esquina, como se trocássemos confidências e fôssemos cúmplices das traquinagens um do outro. É o que fazemos com os ídolos: criamos uma cumplicidade bamba, unilateral. Que, de tão grande, torna-se um pouco cega.

Repare que são caprichos do desejo. E desejo pressupõe ausência, é sinônimo de falta. Alguns de nós desejam a glória e a admiração que pertencem à quase sagrada imagem de Lionel Messi. Ele, por sua vez, certamente já desejou instantes sucessivos de quietude e anonimato. De poder apenas andar pela multidão, invisível, os passos leves e a expressão serena, como nós fazemos todos os dias. Há outros, como Lavezzi, que manejam cuidadosamente os ônus da carreira, que não querem para si estes holofotes todos. E eles estão no seu direito, ora. Sabem que, mesmo longe dos Messis e Cristianos, tudo pode ficar bem. É possível superar-se e transcender-se por outras vias. O que se configura em um ato de coragem, de rompimento com as competições malucas que há por aí.

Destacar-se da multidão é excitante. Mas não é dever. Deveria não sê-lo.

Porque, mesmo para nossos sonhos messiânicos, há que se ter alguma reserva.

*Hudson Martins tem 25 anos, é graduado Bacharel em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora e cursou Ciências do Esporte na Unicamp e faz um período de mobilidade acadêmica na Universidade do Porto, em Portugal.

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