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Entre tantos problemas, Luis Enrique terá que se resolver no Barça pelo caminho mais difícil

Os resultados podem até não ser tão ruins. Mas são para um clube que gastou milhões em contratações, que vê o seu maior rival viver um sucesso estrondoso e que rende muito abaixo de seu passado recente. Ainda que haja muita especulação nos noticiários, a crise no Barcelona se abre aos poucos. Se a situação nos bastidores do Camp Nou já não estava tranquila, desde a crise política iniciada com Sandro Rosell, os problemas internos se alastram pela equipe. A saída de Andoni Zubizarreta da direção esportiva, depois de várias apostas que não vingaram, foi um grande sinal. A maior questão, no entanto, se concentra na proclamada queda de braço entre Luis Enrique e Lionel Messi – que não foi confirmada e nem desmentida nas recentes coletivas dos membros do clube. Uma situação delicada para os blaugranas.

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Por mais que não repita os números impressionantes de outros tempos, Messi segue um craque . Anotar 58 gols em um ano e ainda fazer o resto do time jogar em sua órbita não é para qualquer um. E, diante da crise coletiva que o Barcelona sofre, o camisa 10 continua salvando a equipe em muitos momentos. Nesta temporada, sobretudo, as principais atuações dos catalães dependeram demais do brilhantismo do argentino e de Neymar, que vem desequilibrando como nunca pelos culés. Por isso mesmo, a possível oferta do Chelsea faz os blaugranas temerem tanto. Que chegue um caminhão de dinheiro, é praticamente impossível suplantar Messi, ainda mais com o embargo no mercado de transferências – e, até porque, o único que se sugere mesmo um substituto à altura do argentino é Neymar.

Assim, o que parece o caminho mais curto para a felicidade do Barcelona é a felicidade de Messi. E, se Luis Enrique não se acertar as faladas rusgas com o atacante, terá que ir pelo caminho que parece mais difícil neste momento: encaixar o jogo coletivo da equipe. O Barcelona conquista seus resultados mais pela qualidade individual do que pela produção como time. Mesmo a invencibilidade da defesa no início da temporada dependeu mais da boa forma de Claudio Bravo do que da solidez de um sistema defensivo muito suscetível às falhas. A única grande partida aconteceu contra o Paris Saint-Germain, no segundo duelo pela Champions. Apenas um alento em tantos jogos frustrantes do Barça e vitórias fáceis contra adversários mais fracos.

Preocupação, especialmente, porque muitos dos talentos blaugranas estão muito abaixo do que costumam render normalmente. Messi e Neymar a parte, a maioria do time vive de lampejos. A baixa técnica de Piqué e Xavi, que não vem de hoje, parece afetar também Iniesta. Ou mesmo Luis Suárez, que chegou prometendo muito, está longe de ser o artilheiro dos tempos de Liverpool, embora se esforce para ser um atacante mais participativo na criação. Vive à sombra de um time que possui muitíssimo potencial ofensivo, mas não agride de maneira suficiente, e que continua muito vulnerável na defesa, principalmente ao jogo aéreo e aos contra-ataques adversários. Além dos protagonistas, entre os poucos que se salvam estão Bravo, Busquets, Mascherano e Jordi Alba.

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O entrave coletivo do Barcelona, aliás, não vem de hoje. Desde a saída de Pep Guardiola e as questões de saúde de Tito Vilanova, o time enfrentou problemas para reafirmar o seu estilo. Tata Martino tentou realizar uma mudança no padrão de jogo que, apesar de algumas esperanças, não deu certo. O problema é que Luis Enrique parece distante de ser a pessoa mais indicada para isso. Como treinador, o antigo meia não se provou mais do que mediano. Fracassou na Roma e teve resultados não mais que razoáveis no Celta. Voltou ao Camp Nou para resgatar o que aprendeu com Cruyff e compartilhou com Guardiola, mas não tem a visão tática e a capacidade de comando para tanto.

Enquanto isso, o Barcelona tenta contornar a crise esportiva com manobras nos bastidores. O próprio presidente Josep Maria Bartomeu admitiu isso ao antecipar as eleições do clube. Na verdade, apenas uma maneira de desviar o foco daqueles que são os problemas realmente urgentes no Camp Nou. Passar pelo Elche na Copa do Rei não é a questão, assim como é difícil de imaginar que neste turbilhão a equipe consiga ter fôlego para acompanhar o Real Madrid no topo do Campeonato Espanhol, por mais que a desvantagem para os merengues seja de apenas um ponto. O foco dos catalães deveria se concentrar mesmo nos duelos contra o Manchester City, pela Champions League. Se não passar, aí sim o fracasso estará escancarado. E, até lá, as manobras (às escuras, e não às claras, como nesta mudança nas eleições) terão que acontecer entre a satisfação de Messi e o encaixe do time.

Hora de baixar a bola – principalmente no sentido figurado, em um clube de tantos egos inflados. Nem que para isso seja preciso mudar. Se não pode buscar jogadores que resolvam em campo, quem fica mesmo com o pescoço em risco é Luis Enrique.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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