La Liga

Cancelamento de jogo do Barcelona nos EUA é mais uma vitória dos torcedores na Europa

Após repercussão negativa, LaLiga cede e desiste de fazer primeiro jogo da história do campeonato fora da Espanha

Mesmo que boa parte do futebol seja movido pelo dinheiro, por vezes a mobilização coletiva, seja de torcedores ou jogadores, se sobressai acima das cifras. Após uma péssima repercussão na Espanha e no mundo do futebol, o jogo de LaLiga entre Villarreal e Barcelona nos Estados Unidos não será mais realizado.

— Após conversas com o promotor do jogo em Miami, a liga espanhola comunicou sua decisão de cancelar a organização do evento devido à incerteza gerada em Espanha durante as últimas semanas. LALIGA lamenta profundamente que este projeto, que representou uma oportunidade histórico e incomparável para a internacionalização do futebol espanhol, não pode continuar avançar — comunicou a organização nesta terça-feira (21).

A partida seria realizada no Hard Rock Stadium, em 20 de dezembro, pela 17ª rodada do Campeonato Espanhol, e tiraria um mando de campo do Submarino Amarelo, impactando principalmente o acesso dos torcedores villarrealenses. Seria a primeira partida da história de LaLiga a ser jogada fora da Espanha.

Agora, porém, o mando volta ao La Ceramica, casa do Villarreal.

Torcida do Barcelona em jogo contra o Villarreal no La Ceramica
Torcida do Barcelona em jogo contra o Villarreal no La Ceramica (Foto: Imago)

Como aconteceu com a mobilização dos torcedores contra a Superliga em 2021, competição que seria a principal da Europa e fecharia as portas para os times menores, mas implodiu em 48 horas, o cancelamento da partida de LaLiga nos EUA é uma vitória dos fãs.

Se há quatro anos os protestos eram pelo mérito esportivo, dessa vez a mobilização serviu para não perder a conexão local do futebol — ainda que fosse só um jogo, quem garantiria que isso não se expandisse no futuro?

O Submarino Amarelo, mesmo que tenha sido a favor do jogo por questões financeiras, terá garantido que sua torcida tenha as 19 rodadas em casa do campeonato nacional, como sempre acontece e garante o equilíbrio pelo time atuar em seus domínios.

— Realizar um jogo oficial fora das nossas fronteiras significaria um passo decisivo na expansão global da nossa concorrência, reforçando a presença internacional dos clubes, o posicionamento dos jogadores e a marca do futebol espanhol num mercado estratégico como os Estados Unidos — lamentou LaLiga em comunicado.

— O Barcelona lamenta a oportunidade perdida de expandir a imagem da competição a um mercado estratégico, com capacidade de crescimento e geração de recursos em benefício de todos — escreveu o clube catalão após o anúncio.

Derrota pública para LaLiga e vitória dos jogadores

Especulada há alguns meses e oficializada no início de outubro, a partida nos Estados Unidos foi alvo de críticas desde o início.

Claro que o rival mortal do Barça, o Real Madrid, foi uma das principais vozes contra, protocolando até um pedido de suspensão do jogo no Conselho Superior de Esportes (CSD). Os jogadores dos Merengues também entraram nessa.

Me parece uma adulteração claríssima da competição, que não faz com que todos os times da LaLiga compitam nas mesmas condições. Creio que é fundamental que sejamos justos — os próprios jogadores, os clubes ou mesmo a Liga —, será necessário defender algo justo, e não creio que isto o faça — opinou o capitão do Real, Daniel Carvajal.

— [A partida nos EUA] Adultera a competição… É fácil falar da NBA, da NFL [argumento usado por LaLiga para justificar o jogo]… eles têm 82 jogos, um playoff que não muda nada para eles. A LaLiga põe isto porque lhe apetece e adulterou a competição. Além disso, não cumpre o acordo dos jogadores — criticou o goleiro Thibaut Courtois.

A mobilização contrária, porém, também chegou nos jogadores envolvidos na partida. “Não gosto que vamos jogar lá e não concordo com isso. Não é justo para a competição. Agora jogamos um jogo fora de casa num terreno neutro. Não creio que isto seja bom para os jogadores”, argumentou Frenkie de Jong, do Barcelona.

— Os clubes vão receber por isso, mas não estou de acordo com que se jogue um jogo de liga em Miami. Entendo que outros clubes também não estejam de acordo — completou o meia holandês.

No último final de semana, como forma de protestos, os jogadores ficaram parados por 15 segundos após o pontapé inicial de partida. A Associação Espanhola de Jogadores de Futebol explicou que o protesto ocorreu pela “falta de transparência, diálogo e coerência” da liga com os atletas.

— O futebol deve sempre ser sobre os torcedores. Para mim, isso parece desrespeitoso — disse Unai Simon, do Athletic Bilbao.

Para tentar esconder ou manipular a mensagem, as transmissões oficiais dos jogos de LaLiga mostraram uma imagem aérea do estádio ou exibiam a frase “compromisso com a paz”.

Mudar o motivo pelo qual estamos protestando é censura e manipulação, e isso é sério — atacou Courtois.

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Serie A italiana seguirá o mesmo caminho?

A decisão da liga espanhola em realizar um jogo nos Estados Unidos aconteceu após a Uefa permitir, no início deste mês, a realização de partidas das ligas nacionais no exterior.

A entidade máxima do futebol europeu aceitou a decisão “relutantemente”, “reiterando sua clara oposição à realização de partidas da liga nacional fora de seu país de origem”.

Na esteira de LaLiga, a Serie A anunciou que a partida entre Milan e Como, em fevereiro de 2026, será disputada em Perth, na Austrália. Como na Espanha, a decisão causa controversa e críticas na Itália.

O grupo de ultras do clube da Lombardia criticaram a mudança do local do jogo, enquanto atletas do gigante de Milão se posicionaram contra.

É completamente louco. Há acordos financeiros para garantir visibilidade à liga, mas tudo isso foge do nosso controle. É loucura viajar tantos quilômetros para jogar uma partida entre dois times italianos na Austrália. Temos que nos adaptar, como sempre. Fala-se muito sobre calendários e saúde dos jogadores, mas tudo isso parece realmente absurdo — protestou Rabiot, dos Rossoneri, em entrevista ao jornal francês “Le Figaro”.

— Concordo com Rabiot. Todos pensam no aspecto financeiro. Não entendo por que estamos jogando uma partida do campeonato italiano fora de casa — reiterou Mike Maignan, que atua com o meio-campista no Milan e na seleção francesa.

Luigi De Siervo, CEO do Campeonato Italiano, no melhor estilo Javier Tebas, presidente de LaLiga e conhecido por suas polêmicas, decidiu atacar de volta os atletas e gerou ainda mais revolta.

— Os jogadores que ganham milhões devem respeitar o dinheiro que recebem e as decisões dos seus empregadores e clubes. Este tipo de comentário [de Rabiot] mostra falta de consciência sobre o esforço que a Serie A está fazendo para se modernizar e competir com outras ligas mais ricas — disse à emissora “Raí”.

— Não se trata de um capricho, e sim de um projeto estratégico. O futebol italiano precisa crescer fora da Itália se quiser sobreviver — justificou.

A declaração colocou ainda mais pressão na partida que será jogada na Austrália. Por enquanto, a decisão está mantida, mas quem sabe o cancelamento de LaLiga não sirva como um empurrão para Serie A tomar a mesma ação.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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