La Liga 2026/27

Cancelamento de jogo do Barcelona nos EUA é mais uma vitória dos torcedores na Europa

Após repercussão negativa, LaLiga cede e desiste de fazer primeiro jogo da história do campeonato fora da Espanha

Mesmo que boa parte do futebol seja movido pelo dinheiro, por vezes a mobilização coletiva, seja de torcedores ou jogadores, se sobressai acima das cifras. Após uma péssima repercussão na Espanha e no mundo do futebol, o jogo de LaLiga entre Villarreal e Barcelona nos Estados Unidos não será mais realizado.

— Após conversas com o promotor do jogo em Miami, a liga espanhola comunicou sua decisão de cancelar a organização do evento devido à incerteza gerada em Espanha durante as últimas semanas. LALIGA lamenta profundamente que este projeto, que representou uma oportunidade histórico e incomparável para a internacionalização do futebol espanhol, não pode continuar avançar — comunicou a organização nesta terça-feira (21).

A partida seria realizada no Hard Rock Stadium, em 20 de dezembro, pela 17ª rodada do Campeonato Espanhol, e tiraria um mando de campo do Submarino Amarelo, impactando principalmente o acesso dos torcedores villarrealenses. Seria a primeira partida da história de LaLiga a ser jogada fora da Espanha.

Agora, porém, o mando volta ao La Ceramica, casa do Villarreal.

Torcida do Barcelona em jogo contra o Villarreal no La Ceramica
Torcida do Barcelona em jogo contra o Villarreal no La Ceramica (Foto: Imago)

Como aconteceu com a mobilização dos torcedores contra a Superliga em 2021, competição que seria a principal da Europa e fecharia as portas para os times menores, mas implodiu em 48 horas, o cancelamento da partida de LaLiga nos EUA é uma vitória dos fãs.

Se há quatro anos os protestos eram pelo mérito esportivo, dessa vez a mobilização serviu para não perder a conexão local do futebol — ainda que fosse só um jogo, quem garantiria que isso não se expandisse no futuro?

O Submarino Amarelo, mesmo que tenha sido a favor do jogo por questões financeiras, terá garantido que sua torcida tenha as 19 rodadas em casa do campeonato nacional, como sempre acontece e garante o equilíbrio pelo time atuar em seus domínios.

— Realizar um jogo oficial fora das nossas fronteiras significaria um passo decisivo na expansão global da nossa concorrência, reforçando a presença internacional dos clubes, o posicionamento dos jogadores e a marca do futebol espanhol num mercado estratégico como os Estados Unidos — lamentou LaLiga em comunicado.

— O Barcelona lamenta a oportunidade perdida de expandir a imagem da competição a um mercado estratégico, com capacidade de crescimento e geração de recursos em benefício de todos — escreveu o clube catalão após o anúncio.

Derrota pública para LaLiga e vitória dos jogadores

Especulada há alguns meses e oficializada no início de outubro, a partida nos Estados Unidos foi alvo de críticas desde o início.

Claro que o rival mortal do Barça, o Real Madrid, foi uma das principais vozes contra, protocolando até um pedido de suspensão do jogo no Conselho Superior de Esportes (CSD). Os jogadores dos Merengues também entraram nessa.

— Me parece uma adulteração claríssima da competição, que não faz com que todos os times da LaLiga compitam nas mesmas condições. Creio que é fundamental que sejamos justos — os próprios jogadores, os clubes ou mesmo a Liga —, será necessário defender algo justo, e não creio que isto o faça — opinou o capitão do Real, Daniel Carvajal.

— [A partida nos EUA] Adultera a competição… É fácil falar da NBA, da NFL [argumento usado por LaLiga para justificar o jogo]… eles têm 82 jogos, um playoff que não muda nada para eles. A LaLiga põe isto porque lhe apetece e adulterou a competição. Além disso, não cumpre o acordo dos jogadores — criticou o goleiro Thibaut Courtois.

A mobilização contrária, porém, também chegou nos jogadores envolvidos na partida. “Não gosto que vamos jogar lá e não concordo com isso. Não é justo para a competição. Agora jogamos um jogo fora de casa num terreno neutro. Não creio que isto seja bom para os jogadores”, argumentou Frenkie de Jong, do Barcelona.

— Os clubes vão receber por isso, mas não estou de acordo com que se jogue um jogo de liga em Miami. Entendo que outros clubes também não estejam de acordo — completou o meia holandês.

No último final de semana, como forma de protestos, os jogadores ficaram parados por 15 segundos após o pontapé inicial de partida. A Associação Espanhola de Jogadores de Futebol explicou que o protesto ocorreu pela “falta de transparência, diálogo e coerência” da liga com os atletas.

— O futebol deve sempre ser sobre os torcedores. Para mim, isso parece desrespeitoso — disse Unai Simon, do Athletic Bilbao.

Para tentar esconder ou manipular a mensagem, as transmissões oficiais dos jogos de LaLiga mostraram uma imagem aérea do estádio ou exibiam a frase “compromisso com a paz”.

— Mudar o motivo pelo qual estamos protestando é censura e manipulação, e isso é sério — atacou Courtois.

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Serie A italiana seguirá o mesmo caminho?

A decisão da liga espanhola em realizar um jogo nos Estados Unidos aconteceu após a Uefa permitir, no início deste mês, a realização de partidas das ligas nacionais no exterior.

A entidade máxima do futebol europeu aceitou a decisão “relutantemente”, “reiterando sua clara oposição à realização de partidas da liga nacional fora de seu país de origem”.

Na esteira de LaLiga, a Serie A anunciou que a partida entre Milan e Como, em fevereiro de 2026, será disputada em Perth, na Austrália. Como na Espanha, a decisão causa controversa e críticas na Itália.

O grupo de ultras do clube da Lombardia criticaram a mudança do local do jogo, enquanto atletas do gigante de Milão se posicionaram contra.

— É completamente louco. Há acordos financeiros para garantir visibilidade à liga, mas tudo isso foge do nosso controle. É loucura viajar tantos quilômetros para jogar uma partida entre dois times italianos na Austrália. Temos que nos adaptar, como sempre. Fala-se muito sobre calendários e saúde dos jogadores, mas tudo isso parece realmente absurdo — protestou Rabiot, dos Rossoneri, em entrevista ao jornal francês “Le Figaro”.

— Concordo com Rabiot. Todos pensam no aspecto financeiro. Não entendo por que estamos jogando uma partida do campeonato italiano fora de casa — reiterou Mike Maignan, que atua com o meio-campista no Milan e na seleção francesa.

Luigi De Siervo, CEO do Campeonato Italiano, no melhor estilo Javier Tebas, presidente de LaLiga e conhecido por suas polêmicas, decidiu atacar de volta os atletas e gerou ainda mais revolta.

— Os jogadores que ganham milhões devem respeitar o dinheiro que recebem e as decisões dos seus empregadores e clubes. Este tipo de comentário [de Rabiot] mostra falta de consciência sobre o esforço que a Serie A está fazendo para se modernizar e competir com outras ligas mais ricas — disse à emissora “Raí”.

— Não se trata de um capricho, e sim de um projeto estratégico. O futebol italiano precisa crescer fora da Itália se quiser sobreviver — justificou.

A declaração colocou ainda mais pressão na partida que será jogada na Austrália. Por enquanto, a decisão está mantida, mas quem sabe o cancelamento de LaLiga não sirva como um empurrão para Serie A tomar a mesma ação.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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