La Liga

Bryan Zaragoza, o ponta à moda antiga de ascensão meteórica na seleção espanhola

Driblador e muito veloz, Bryan Zaragoza arrebentou em suas primeiras aparições na elite do Campeonato Espanhol e já ganhou a primeira chance na seleção

A detecção dos futuros craques no futebol parece cada vez mais precoce. Há uma porção de meninos que ganham fama no YouTube através de seus lances mágicos. Não demoram a ser levados para clubes de peso, onde receberão uma formação adequada – mesmo que isso não garanta necessariamente a profissionalização. O futebol, de qualquer maneira, sempre tem espaço a contos de fadas. Aqueles talentos arrebatadores que estouram “do nada”. E, na Espanha, o momento é de fascínio por Bryan Zaragoza. O ponta de 22 anos é uma das sensações de La Liga com a camisa do Granada e arrebentou o Barcelona no último final de semana. A escalada rápida já providencia as primeiras chances do jovem com a seleção, convocado para esta Data Fifa.

Não dá para dizer que Zaragoza é um completo desconhecido. Porém, tudo aconteceu muito rápido. Sua trajetória passa longe dessa badalação precoce de tantos adolescentes. O atacante permaneceu até os 17 anos em pequenos clubes de Málaga, onde nasceu, até se transferir para a base do Granada em 2019. Militou no segundo quadro dos andaluzes e também passou um período emprestado ao pequeno Poli Ejido, da quarta divisão do Campeonato Espanhol. Sua eclosão no Granada aconteceu na temporada passada, quando teve papel importante no acesso. Mas nada comparado ao barulho que faz agora na primeira divisão.

O talento moldado nas ruas

Bryan Zaragoza não é o tipo de jogador que parece projetado ao “futebol moderno”, que pede tanta intensidade e comprometimento tático. O andaluz é baixinho, com apenas 1,64m, e o empenho na marcação nunca foi o seu forte. Talvez por isso não conseguiu emplacar nas categorias de base de um clube maior. Entretanto, teve a sorte de encontrar treinadores que compreenderam seu talento. Em vez de limitá-lo, permitiram que exibisse toda a inventividade com a bola nos pés. Habilidade não falta ao jovem e é exatamente isso que provoca encantamento em sua ascensão por La Liga.

O futebol apresentado por Bryan Zaragoza é aquele jogado nas ruas. O próprio atacante analisa como isso auxiliou a lapidar sua destreza com a bola colada no pé. “Desde pequeno, joguei futebol nas ruas. Saía do treino e depois ia jogar na rua. Isso ajudou a melhorar meu drible. Esse é meu ponto forte”, declarou o ponta, em sua primeira coletiva como jogador da seleção. Suas referências, aliás, são exímios dribladores: “Meu ídolo de infância é Messi. Também gostava de ver os vídeos de Ronaldinho Gaúcho, sendo sincero. Também me espelhei às vezes em Neymar, em Vinícius Júnior…”.

A formação de Zaragoza começou em 2009, quando tinha oito anos e se juntou ao Tiro Pichón, uma escolinha de futebol em Málaga. Logo dava para perceber que aquele menino mirrado tinha uma habilidade fora do comum. E assim se provava a cada partida, quando escapava das pancadas para fazer maravilhas. Costurava os adversários com enorme facilidade.

“Assim que o vi, percebi que era diferente, que havia algo fora do normal. Era um jogador de futebol de rua. Logo se notava que era um desses meninos que inventam a jogada, que sabem escapar do que for. Há pouco futebol de rua hoje, o que existe são robôs. Mas Bryan não era assim”, comentou Pepe Zamora, seu treinador no Tiro Pichón, ao Marca. “Ele era muito pequeno e jogava com os meninos maiores. Não é que o pegavam, mas no terceiro drible começavam as ameaças. A ele não importava. Nunca se assustava, seguia no seu estilo. Somos uma equipe de periferia, são as leis da periferia. E ele as conhecia”.

Bryan Zaragoza ainda passou por outro clube de Málaga durante a adolescência, o Conejito Málaga. Foi um breve período, no qual chamou atenção dos clubes de elite da Espanha. Porém, ficou uma lacuna de nunca ter defendido o próprio Málaga Club de Fútbol, o principal time da cidade. E não foi por falta de conhecimento dos boquerones. O Conejito tinha uma parceria com o Málaga e a fama do garoto corria, mas os alvicelestes nunca concederam uma oportunidade.

“Nós temos um contrato de colaboração com o Málaga e precisamos informar quando alguém quer levar um jogador nosso. Assim fizemos. Quando Bryan estava aqui, vieram por ele representantes de equipes como o Betis, o Valladolid e o Granada. O Málaga nos disse que qualquer clube poderia levá-lo, não sei se por sua estatura… O Málaga não o quis”, afirma Miguel González, presidente do Conejito, à Cope.

O amadurecimento no futebol

O Granada se deu bem quando levou Bryan Zaragoza em 2019, aos 17 anos. Poderia até ser uma chegada tardia à elite do futebol, mas isso auxiliou o ponta a não perder as suas características. Por outro lado, os Nazaríes auxiliaram em sua profissionalização, num novo ambiente. E o emprestaram para ganhar rodagem entre adultos logo cedo: passou a temporada 2020/21 no Poli Ejido, outro clube pequeno da Andaluzia, que militava na quarta divisão.

“O Granada fez um grande movimento ao tirá-lo do seu entorno para que amadurecesse e visse a realidade do futebol. Taticamente ele sofria, falei com outros treinadores que ele teve. Não fui importante na sua carreira, eu o tirava no segundo tempo. Mas é que ele tinha um dom, algo que se vê pouco no mundo, a facilidade e a ousadia para driblar defesas. O que custava era se envolver no jogo coletivo. Você não vai exigir a Messi princípios defensivos, mas a alguém como ele ou Iñaki Williams você pode pedir que cumpra o mínimo”, conta Tito García Sanjuán, treinador de Zaragoza no Poli Ejido, ao Marca.

“Bryan é totalmente um jogador da rua, do bairro. Ele me lembra o jogador da favela, o brasileiro, aquele que joga com os amigos, os de outras épocas. Bryan, no um contra um, é Top 3 da Espanha. Ele aprimorou isso na rua. É um garoto de família humilde, muito extrovertido”, complementa García Sanjuán. “Nós, treinadores, estamos matando esse tipo de jogador. Tudo agora está mais robotizado. Onde está a criatividade?”

O antigo treinador elogia a maneira como Bryan Zaragoza evoluiu. Tornou-se ainda mais ousado e melhorou em outros aspectos de seu jogo, como a tomada de decisão. Além disso, era um jogador que ouvia bastante seu comandante, quando este contava histórias de outros talentos que passaram por suas mãos – como Pau López, Gerard Moreno e Brais Méndez. Facilitava também a personalidade do ponta, muito querido pelos companheiros e conhecido por suas entrevistas inusitadas.

Quem corrobora a visão sobre a capacidade de Zaragoza é Fran Alcoy, outro treinador do atacante nos tempos de Poli Ejido: “Me chamou atenção encontrar um ponta clássico que tinha desaparecido do futebol – um Garrincha, um Gento. Você não sabe por onde Bryan vai sair. Vai com tudo e, de repente, muda de ritmo. Era muito desequilibrante. Faltava entender o jogo sem a bola, mas com a bola era um talento nato. É o jogador que hoje não se vê, um driblador de rua, que encara, arrisca, busca. Esse um contra um não tem preço. É o jogador que rompe o esquema de qualquer equipe”.

A chegada à elite

Bryan Zaragoza voltou ao Granada em 2021/22, mas ainda defendeu o Recreativo Granada, a filial do clube que figura na quarta divisão. Seu salto para o time principal aconteceu apenas em 2022/23, aos 21 anos. Podia ser relativamente tarde para estrear num nível mais condizente ao seu talento, a segunda divisão, mas o novato mostrou que estava pronto ao desafio. Seria um diferencial no acesso dos Nazaríes, em especial pelo impacto na reta final da campanha. Embora tenha anotado apenas cinco gols pela segundona, os últimos três tentos vieram nas três rodadas finais, dando impulso ao time rumo à elite.

E se o impacto de Zaragoza na segunda divisão o tornava candidato a revelação do Granada em La Liga, este início na primeira divisão sai muito melhor do que a encomenda. São cinco gols e uma assistência em nove partidas, com algumas atuações maravilhosas. O camisa 26 teve papel importante na vitória sobre o Mallorca e no empate com o Betis. Mas nada comparado ao barulho que fez nos 2 a 2 contra o Barcelona. Primeiro, anotou um gol com 17 segundos de bola rolando. Depois, ampliou o placar com direito a um drible desconcertante em Jules Koundé, em que não se cansou de entortar o francês. Ficava evidente sua habilidade e também a enorme velocidade para destruir defesas.

A convocação para a seleção espanhola veio logo depois, com o corte de Yeremy Pino. Mais do que merecida. Não ter passado pelas equipes de base da Espanha não foi empecilho para que saltasse direto ao nível principal, num começo tão meteórico. “Luis de la Fuente pediu para que eu seja atrevido e parta para cima das defesas. Quer que eu faça o mesmo que no Granada. Na primeira vez que falei com o treinador, ele me disse que eu vim porque eu o conquistei. Trabalho todos os dias para estar preparado. Minha ascensão foi muito rápida, mas estou preparado para tudo. Meu objetivo é aprender a cada dia e melhorar. Quero subir ainda mais alto”, comentou Zaragoza, na coletiva de imprensa.

O Granada começa a parecer até pequeno para o ponta esquerda. Bryan Zaragoza tem contrato com os Nazaríes até 2027, com uma cláusula de rescisão avaliada em €14 milhões. É um valor relativamente baixo, diante do nível de desempenho nesta largada de La Liga. E a arrancada com a seleção pode aumentar ainda mais sua valorização. Numa Espanha que tantas vezes ficou marcada por um futebol burocrático, ter esse tipo de habilidade é essencial. Vai ser interessante o estrago que Zaragoza poderá fazer ao lado de outros novatos que ascendem, como Nico Williams e Lamine Yamal.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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