La Liga

A saída de Messi do Barcelona indica também uma vitória de bastidores da Superliga Europeia

Florentino Pérez teria influenciado a decisão do Barça e um jantar entre dirigentes no sábado reforçou os laços da Superliga

Em 14 de julho, o acordo de La Liga com o fundo de investimentos CVC já estava alinhado. Tanto é que Javier Tebas e Joan Laporta se encontraram para celebrar. A injeção financeira nos clubes espanhóis contribuiria essencialmente com a principal proposta eleitoral do presidente do Barcelona em seu retorno ao poder: a renovação de Lionel Messi. Neste momento, tudo parecia mais do que certo para a permanência do camisa 10 no Camp Nou. Entretanto, a mudança de direção nessa história teve influência direta de Florentino Pérez. E a Superliga Europeia falaria mais alto na decisão de dispensar a lenda barcelonista.

A informação é discutida por Salvador Sostres, em coluna no jornal ABC. Depois desse encontro entre Tebas e Laporta, Florentino Pérez teria entrado em contato com Ferran Reverter, CEO do Barcelona. O dirigente foi o escolhido por Laporta para reconduzir a reconstrução financeira dos blaugranas, diante do caos legado por Josep Maria Bartomeu na gestão anterior. Nesta conversa, Florentino apontou a Reverter como o acordo com o CVC beneficiaria apenas a curto prazo e tiraria a autonomia dos clubes maiores em seus planos de Superliga. Convenceu que a saída de Messi poderia ser recompensada depois, num processo que os merengues já atravessam, sem contar mais com Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos.

Tal contexto na despedida de Messi do Barcelona foi reforçado neste sábado, por um jantar às vésperas da disputa do Troféu Joan Gamper, entre Barcelona e Juventus. Reuniram-se Laporta, Florentino e também Andrea Agnelli – os três dirigentes que ainda insistem com a Superliga. A entrevista coletiva de Laporta, horas antes, já tinha deixado clara a cisão com La Liga por conta do CVC e das exigências do Fair Play Financeiro local. O encontro dos cartolas celebrava a vitória recente nos tribunais contra a Uefa e também a reviravolta diante das intenções de Tebas. Por mais que Messi não estampe mais o pôster do Superclássico, a visão neste momento é mais ampla.

Ainda segundo o ABC, os três clubes pretendem insistir na Superliga para que saia do papel na temporada 2022/23. Neste momento, se escancara a cisão com as ligas nacionais, algo que não foi admitido no lançamento da malfadada ideia meses atrás. Também parece ser muito mais a intenção de forçar o projeto com clubes que não percam o bonde do que necessariamente contar com os signatários iniciais. As equipes da Premier League, por exemplo, talvez não arrisquem a jogada pela segunda vez consecutiva.

Com a saída de Messi, assim como a de Cristiano Ronaldo três anos atrás, Barcelona e Real Madrid apostam que seus escudos são maiores que os craques responsáveis por elevarem as agremiações a níveis tão altos – não apenas esportivos, mas também comerciais. Confiam que uma nova estrutura como a da Superliga os ajudará a encontrar um novo Messi e um novo Cristiano Ronaldo – quando tal nível de desempenho se sugere um tanto quanto difícil para outro atleta dando sopa no mercado atual.

O Barça ainda precisará botar ordem na casa sem o camisa 10 e deverá passar os próximos meses acertando suas finanças. O Real não vive a maior bonança, mas indica condições melhores para movimentos mais contundentes – quem sabe para acertar a vinda de Kylian Mbappé, diante da iminente mudança do argentino para Paris. Certo é que os dois clubes vivenciam um momento de reconstrução, distantes do ápice vivido até meados da última década, que impulsionou suas receitas, mas também inflacionou a bolha financeira do futebol e agravou seus problemas em meio à crise ocasionada pela pandemia. Esportivamente, tal reconstrução não é simples, como os próprios merengues experimentam desde que perderam CR7.

A saída de Messi ocasiona uma variedade de golpes duros – sobre o craque, sobre o barcelonismo, sobre as perspectivas de La Liga em ainda ser chamada de “liga das estrelas”. Mas, no tabuleiro da Superliga, parece um movimento favorável à intenção dos três clubes que não desistem da empreitada. O Barcelona se enfraquece esportivamente, institucionalmente e também comercialmente, pensando naquilo que a imagem do camisa 10 representava. Mas faz isso sob a perspectiva de ainda poder contar com a Superliga dentro de algum tempo, sem mais o compromisso longo que o CVC exigia.

Querendo ou não, para fazer o suntuoso acordo pretendido, La Liga precisa de seus dois clubes mais fortes. Conforme as regras internas, o poder de voto de Barcelona e Real Madrid não é suficiente para impedir o acerto, mas a pressão de bastidores diz outra coisa. O caminho a Tebas agora é buscar apoio político dentro da Espanha, para mostrar como o CVC pode dar garantias que ainda não existem com a Superliga. Mas, numa disputa em que cada parte pretende defender seus próprios interesses, o apelo coletivista de La Liga não comove o individualismo de Barcelona e Real Madrid. Eles sabem que podem mais sozinhos do que os outros juntos e, ao que tudo indica, é o que ainda buscam. Nem que uma das maiores histórias do futebol, a de Messi, fique pelo caminho.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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