La Liga

A história de sacrifício dos pais de Iñaki Williams torna seu recorde em La Liga ainda mais louvável

Iñaki Williams contou os detalhes de como seus pais chegaram à Espanha, numa ótima entrevista

Na última semana, Iñaki Williams estabeleceu um recorde impressionante em La Liga: tornou-se o primeiro atleta na história da competição a emendar 203 rodadas consecutivas em campo, sem se ausentar de uma partida sequer. São mais de cinco anos, desde abril de 2016, como uma figura onipresente nos jogos do Athletic Bilbao. A marca incrível representa a importância do atacante aos Leones, sua disciplina e também sua enorme capacidade física. Tal prova de resistência, porém, se torna pequena quando se conhece a história de seus pais. Maria e Félix deixaram Gana, atravessaram o deserto do Saara a pé e ainda escalaram o muro ao redor de Melilla, cidade autônoma espanhola no norte da África. Foram presos, mas conseguiram asilo político no País Basco. Isso tudo com a mãe de Iñaki já grávida do primogênito.

Maria e Félix rasgaram seus documentos ganeses, acolhidos como se fossem refugiados de guerra da Libéria. Ganharam uma residência do estado basco, foram acolhidos por obras sociais da Igreja Católica na região e trabalharam duro para dar boas condições aos filhos. Félix trabalhou como pastor, faxineiro e pedreiro, antes de se mudar a Londres em busca de melhores oportunidades. Maria chegava a acumular três empregos para garantir o sustento. Com os pais fora de casa, Iñaki também assumiu responsabilidades cedo, especialmente para cuidar do irmão Nico, oito anos mais novo.

Quando Iñaki Williams chegou à equipe principal do Athletic Bilbao, não apenas se tornou um prodígio por seu talento ou um nome representativo como o primeiro negro a marcar um gol pelo clube. Ele também pôde trazer seu pai de volta da Inglaterra e garantir condições melhores à família. Mas só mesmo depois de um tempo, quando estava estabelecido no elenco dos Leones, é que Maria contou todos os detalhes do sacrifício ao lado do marido para chegar a Bilbao e oferecer melhores condições à família. Até então, Iñaki não sabia a história completa.

Nesta semana, Iñaki Williams deu uma longa entrevista ao jornal The Guardian. Falou sobre a história de seus pais, o impacto que isso tem em sua vida, a consciência que o motiva dentro de campo. Também conversou sobre outros tantos assuntos, como o racismo no futebol, a recusa para defender a seleção ganesa, a ascensão do irmão Nico no time principal do Athletic. E mostrou, principalmente, como seu recorde em La Liga se torna maior por toda a caminhada que o levou a ter uma oportunidade no futebol. Abaixo, traduzimos as aspas:

Iñaki Williams, do Athletic Bilbao (Foto: Athletic Club)

Como soube da história

“Você assistia ao noticiário e via barcos chegando da África, pessoas escalando a cerca em Melilla e eu percebi que realmente não sabia como chegamos à Espanha. É algo que sempre perguntei, mas minha mãe evitava falar porque eu era apenas uma criança. E talvez ela tenha pensado que, se me contasse quando comecei no Athletic com 18 anos, aquilo seria um peso sobre minhas costas”.

“Um dia estávamos em casa, em Bilbao, vendo televisão quando algo apareceu – não me lembro exatamente o que – e perguntei a ela de novo. Minha mãe desligou a TV e disse: ‘Ok, chegou o momento em que vou te contar. Sente-se, acho que você está pronto para ouvir agora a minha história e do seu pai’. Quando ela me disse eu fiquei gelado. Ouvir aquilo me deixou impressionado. É como um filme, e meus pais viveram aquilo”.

“Eu sabia que minha vida era diferente dos meus amigos e podia imaginar o que aconteceu, mas quando você ouve os detalhes… Detalhes como: eu não sabia que eles tinham cruzado o deserto a pé. Eu sabia que meu pai tinha problemas com as solas dos pés, mas não sabia que era porque andou descalço na areia do Saara a 40, 50 graus”.

“Ouvir a história dos meus pais me fez querer lutar ainda mais duro para recompensar tudo o que eles sacrificaram por nós. Nunca poderia retribuir, eles arriscaram as próprias vidas, mas a vida que tento dar a eles é a que eles sonharam nos dar. E, de alguma forma, podemos dizer que conseguimos”

Os perigos que Maria e Félix correram

“Eles partiram num caminhão, daqueles com a traseira aberta, 40 pessoas abarrotadas, então andaram por dias. Pessoas caíram, foram deixadas no caminho, foram enterradas. É perigoso: há ladrões esperando, estupros, sofrimento. Alguns são enganados. Traficantes são pagos e depois dizem que a jornada terminava ali. Jogavam você para fora e deixavam você sem água, sem comida. Crianças, idosos, mulheres. Pessoas que vão sem saber o que vem pela frente, se vão conseguir. Minha mãe disse: ‘Se eu soubesse, teria ficado’. Ela estava grávida, mas não sabia”.

“Eles chegaram a Melilla, escalaram a cerca e a guarda civil os deteve. Eles não tinham documentos e vieram como imigrantes, então seriam mandados de volta. Quando eles foram presos, um advogado da Caritas que falava inglês disse: ‘A única coisa que vocês podem tentar é dizer a eles que vieram de um país em guerra’. Eles rasgaram seus documentos ganeses e disseram que eram da Libéria, para pedir asilo político. Graças a ele, chegamos a Bilbao”.

Iñaki Williams beija a taça da Supercopa (Foto: Divulgação / Athletic Bilbao)

A chance de defender o Athletic

“Meus amigos e eu conversamos sobre isso: é incrível. Tudo acontece por uma razão. Se eu não tivesse nascido em Bilbao, nunca poderia jogar pelo Athletic. Meus pais cruzaram o deserto e foram levados para o País Basco. Não parece acaso. Eu tinha comida, algo para vestir e, em comparação com muitas pessoas, era rico. A história dos meus pais me dizia isso”.

“Eu e meus companheiros sonhávamos em fazer parte do Athletic. Eu vivi esse sonho. Tantas pessoas dariam qualquer coisa para estar onde estamos. O Athletic é uma união, uma família. Juntos, somos fortes. Estar aqui, representar o que represento, é incrível. Para poder dizer aos meus pais que conseguimos, depois de tudo o que eles fizeram por nós, representar esse clube, vestir essa camisa e ver que as pessoas se sentem orgulhosas por eu ser parte da história do Athletic”.

“Sabia que jogar pelo Athletic resolveria muitas coisas. Não foi apenas a estreia em si, foi o que isso trouxe. Significou trazer meu pai de volta de Londres, reunir a família depois de 10 anos, meu irmão mais novo ter a figura paterna, estabilidade, a família que tanto queríamos. Eu sonhava em ser jogador de futebol, mas também em reunir minha família”.

O irmão Nico

“Tenho uma história que comecei a escrever há sete anos, Nico tem que escrever a sua própria. Estamos vivendo isso juntos, tenho orgulho dele, ele está indo muito bem, progredindo rápido, mas ainda tem muito a provar e muito trabalho para frente. Vamos deixá-lo ser, deixá-lo crescer, deixá-lo ganhar o que vier. E, bem, se alguém tiver que tirar meu recorde, que seja meu irmão”.

Iñaki Williams, do Athletic Bilbao (Foto: Imago / One Football)

A luta contra o racismo

“As pessoas se identificam com minha história, se identificam com o sacrifício. Minha chegada abriu mentes. O Athletic me tem feito muito bem e espero ter feito o bem para o Athletic. Os jogadores de futebol em geral não falam abertamente, mas isso é bom para a sociedade. Se você tem poder para atingir as pessoas, você deve falar. O racismo é uma mancha, uma doença a ser erradicada. Não falar de discriminação permite que ela exista, ser permissivo deixa que ela continue”

“A sociedade está mudando: está mais aberta, há mais imigração, mais diversidade. Quando cheguei, via poucas crianças negras; agora há mais nas categorias de base. Diversidade, movimento: você traz isso e veremos na seleção. Inglaterra e França têm muitos jogadores negros. Adama Traoré está na Espanha agora, está mudando. Vamos nos acostumar a ver mais rostos diferentes na mesma seleção”.

A chance de defender Gana

“Sou grato ao local onde cresci e onde me tornei quem sou. Gana tentou me convencer, mas nasci na Espanha, em Bilbao. Nunca esquecerei minhas raízes familiares, mas me sinto basco e não consigo enganar ninguém. Ficaria confortável em Gana, tenho certeza, mas eu não deveria estar lá… E minha mãe sabe como as pessoas vivem o futebol lá: é algo grande, e ela ficaria preocupada comigo”.

“Quando minha mãe está com raiva, ela xinga a gente em ganês, mas falamos em espanhol. Quando meus pais vieram, falávamos inglês, mas perdemos isso. Eu posso conversar em inglês, mas não sou fluente agora. Quando meus avós ligam, falo com eles em Twi. Admiro e amo Gana, a cultura, a comida, a tradição. Meus pais são de Accra e eu realmente gosto de ir para lá. Mas não nasci ou cresci lá, minha cultura está aqui, e para alguns jogadores a convocação significaria mais. Não acho que seria certo tomar o lugar de alguém que realmente merece a convocação e se sente 100% Gana”.

O recorde de 203 rodadas consecutivas

“Os médicos e fisioterapeutas dizem que é incrível, que é impossível que exista um caso como este novamente, especialmente jogando partidas em alta intensidade a cada três dias. Agradeço aos meus pais pelos genes: não sei o que é, mas há algo dentro de mim. Estaria mentindo se dissesse que não joguei com dores, já joguei com infiltrações em momentos em que o técnico e o time precisam de você. E eu tive duas temporadas entrando nas últimas rodadas com quatro amarelos. Mas eu não reclamava muito e nem chutava ninguém”.

“Foi só na semana passada que isso ficou na minha cabeça, quando jogaria três partidas em sete dias para quebrar o recorde: em casa, fora, em casa. Você está tão perto, há um risco e você pensa que algo pode acontecer. Até então, você não pensa nisso. O destino está escrito”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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