Espanha

Kevin-Prince Boateng: “Deveríamos lutar com mais força contra o racismo”

Kevin-Prince Boateng achou que conseguiria. Completou uma linda jogada coletiva do Las Palmas com um voleio, na derrota para o Villarreal, por 2 a 1, no último mês de outubro, e achou que finalmente seria convidado para a festa de gala da Fifa. Por algum motivo, ele acredita que este evento de alguma maneira chancelaria sua carreira, confirmaria que ele esteve entre os melhores. Mesmo que fosse apenas por um gol, em uma partida, em uma temporada. Concorde ou não, opinião é com ele, como mostra esta longe e excelente entrevista ao Guardian.

Afinal, foi por não abaixar a cabeça que Boateng teve a oportunidade dar um discurso nas Nações Unidas contra o racismo, depois de ter abandonado o gramado de um amistoso contra o Pro Patria, pois estava sendo alvo de insultos racistas. Virou o primeiro embaixador da força-tarefa da Fifa contra o racismo para a Copa de 2018 e simplesmente não consegue entender porque a entidade encerrou o projeto dizendo que “a missão estava cumprida”. Ele mesmo cita: outro dia, Balotelli foi vítima de racismo contra o Bastia, na França. O racismo ainda é um problema.

Boateng não segura nada dentro de si. Fala sobre como errou quando estava no Tottenham, indo para a balada seis vezes por semana, e como tenta passar conselhos aos jovens do Las Palmas, para que eles não cometam os mesmos erros. Deslumbra-se com a passagem pelo Milan, quando conquistou seu único título importante – o Campeonato Italiano – e com o dia em que conheceu Nelson Mandela, durante a Copa do Mundo de 2010.

Leia abaixo os melhores trechos traduzidos ou confira a matéria completa do Guardian, em inglês.

Discursar na ONU

“Ela (Navi Pillay, alta comissionaria da ONU para os Direitos Humanos) encostou na minha perna, por baixo da mesa: ‘Não se preocupe, você se sairá bem’. ‘Não, não vou’. Eu via 60 câmeras, luzes vermelhas, gravando. ‘Meu Deus do Céu’. No começo, eu gaguejei, ‘urrgh’, e depois peguei embalo. Quando terminei, todo mundo se levantou e aplaudiu. Disseram que ninguém nunca recebeu isso. Foi muito emocionante. Foi muito emocionante, mas eu não posso dizer que foi apenas bonito. Pessoalmente, foi incrível ter a chance de dizer o que eu sentia, o que eu havia visto, minhas experiências de vida. Mas eu estava lá por algo muito, muito negativo. Foi difícil ir e falar”.

O fim da força-tarefa da Fifa contra o racismo na Copa de 2018

Para eles, talvez o trabalho tenha terminado, mas este trabalho não pode terminar. Nós vimos o Balotelli contra o Bastia. Ele é um amigo próximo; ele disse que é incrível. Ele não sabe o que fazer. ‘O que posso fazer? Colocar algo no Instagram, no Twitter?’. Não há mais nada a fazer. Ele não pode lutar contra o racismo sozinho. Deveríamos lutar com mais força. Não podemos dizer que o trabalho terminou. Joseph Blatter e a Fifa queriam mudar alguma coisa. Pep Guardiola, Rio Ferdinand, Ronaldo, todo mundo se envolveu; todos me apoiaram. Precisávamos fazer alguma coisa. O racismo vai além do futebol, mas o futebol lhe dá a plataforma. Mas, aí, fecham a força-tarefa por não sei qual razão. Tudo que eu sei foi o que eu li um dia e fiquei chocado. ‘Nós alcançamos o que queríamos alcançar’. Eu não sei o que era isso, mas nós definitivamente não lutamos contra o racismo do que jeito que eu pensava.

Nós tínhamos muitas ideias, mas não mudamos nada. Apenas dizer não ao racismo em um comercial não funciona: é legal, mas você só vê durante a Champions League. E, agora, eles me tiram. Talvez porque estou no Las Palmas e não estou jogando a Champions League, mas esta é uma mensagem sobre racismo, não sobre Champions League. Claro que você usa os grandes jogadores, como Ibrahimovic, Neymar, Messi, Ronaldo, porque eles dão visibilidade, mas o que eles fizeram contra o racismo? É engraçado. O único jogador a dar um discurso na ONU e eles me tiram.

Problemas no Tottenham
Kevin-Prince Boateng, no Tottenham (Foto: Getty Images)
Kevin-Prince Boateng, no Tottenham (Foto: Getty Images)

“Eu parecia velho. Eu saía todas as noites até as seis horas da manhã. Eu estava com uns 95 quilos, inchado de tanto beber e de comer mal. Eu disse: ‘Este não pode ser eu. Eu não quero ser esse cara. Eu tenho algo dentro de mim: sou um jogador de futebol’. Eu liguei para meus amigos, dois amigos de verdade, e eles vieram. Juntos, nós limpamos minha geladeira e a casa. Naquele dia, eu disse: ‘chega’. Eu não bebi, eu não sai, eu comecei a cozinhar. Eu queria comer comida saudável. De um dia para o outro. Se eu fizesse isso devagar, talvez eu não conseguisse fazer. Eu precisava de um racha. Martin Jol (técnico do Tottenham naquela época) disse que não me queria mais depois de um mês. Então, virou eu contra o mundo. Sabe quando você desliga? Este era eu. ‘Você não me quer? Vou aproveitar a vida’. Eu percebo agora o quão ruim isso foi: seis dias por semana saindo, bebendo, por quase um ano.

Mas eu só tinha 20 anos. Você não pensa que as coisas estão dando errado. Você vê o dinheiro entrando. ‘Ok, eu posso me divertir em outro lugar’. Garotas, baladas, amigos… amigos falsos. Eu estava gastando altas quantias: baladas, roupas, carros. É verdade que comprei três carros em um dia. Porque você tenta comprar a felicidade. Eu não podia jogar futebol, então comprei uma Lamborghini. Wow, você fica feliz por uma semana. Depois disso, você nem a usa. Quem dirige por Loughton (ao nordeste de Londres) em uma Lamborghini? Eu ainda tenho a foto: três carros, uma grande casa, e eu parado ali como se fosse o 50 cent. Eu vejo isso algumas vezes e digo: ‘Olha como você era estúpido’. Mas foi o que fez quem eu sou agora e posso olhar para trás e ver isso. Eu aprendi. Eu cresci.

No time, todo mundo pensa em si mesmo; no fim das contas, ninguém se importa com o que você está sentindo, por que está triste ou não está treinando bem. Eu acordei uma manhã, olhei no espelho e pensei: ‘Não, este não sou eu. Não quero ser isso. Sou um jogador de futebol’.

O segredo de Klopp

Eu percebi imeditamente. Ele é o melhor técnico do mundo. Ele sabe quando forçar e quando confortar. Ele sabe quando você precisa de uma bebida, quando precisa de água. Ele tem… ele tem tudo. Pergunte aos jogadores e eles dirão: ‘Ele é o melhor, eu morreria por ele’. Ele sabe exatamente o que cada jogador precisa e lhes dá tempo. Havia jogadores no Dortmund que jogaram cinco minutos em seis meses, mas estavam felizes: felizes por treinar, felizes no trabalho, porque ele fazia você se sentir importante. Não necessariamente como um jogador – talvez ele não precise de você -, mas como pessoa. É por isso que ele tem tanto sucesso em qualquer lugar. E Liverpool é perfeito; apenas veja a sua apresentação, ‘O Normal’: as pessoas lá adoram isso.

Quando conheceu Mandela

Havia três pessoas que eu sempre quis conhecer: Michael Jackson, Muhammad Ali e Nelson Mandela. Eu conheci apenas uma delas, e é difícil descrever. É apenas alegria. Mandela foi preso por 27 anos apenas porque tentou defender seus direitos, e ele se senta sem nenhuma raiva dentro dele. Ele deveria estar bravo com o mundo inteiro, mas não estava. Está calmo, sentado na sua cadeira dizendo ‘olá’ para todo mundo. Ele faz com que você fique calmo. Ele brilhava. Era como um filme, um anjo sentado ali. Por sorte, foi ele quem quebrou o gelo, porque você só fica parado ali. Era a Copa do Mundo, as pessoas estavam me chamando de ‘David Black-ham’, ficando loucas. Eu era uma estrela. Entramos na sala: ‘Olá…olá…olá’. Ele apertou minha mão, me puxou para ele e disse: ‘Minha filha quer casar com você’. Eu disse: ‘Desculpe, já tenho namorada’. Ele disse: “Não, não, mas eu tenho outras, mais bonitas’. Todos estavam rindo. A pena foi não poder ter tirado fotos porque o flash machucava os olhos dele, então só tenho uma.

O sonho no Milan

Eu fui sai para uma festa. Na manhã seguinte, ele (empresário) me liga às oito da manhã. Eu ainda estava cansado. Ele disse: ‘Entre no carro, temos uma reunião’. ‘Onde?’ ‘Milão’. Ele disse: ‘Você treinou, certo?’ Eu respondi: ‘Claro’, mas era mentira. Eu não estava treinando. Eu estava de férias. ‘Perfeito, porque eu lhes disse que você é um animal’. Todos estavam ali. Eu assinei um dia depois de Ibrahimovic. Robinho também assinou. Havia Seedorf, Pirlo, Ambrosini, Gattuso, Ronaldinho, Thiago Silva, Jankulovski. No meu primeiro dia, eu estava apenas fazendo exames e vi os nomes. ‘Isso é um sonho, uma piada’. Eu liguei para meu irmão mais velho: ‘Estou sentado ao lado do Pirlo’. ‘Tire uma foto, tire uma foto’. ‘Eu tenho o antigo armário do David Beckham!’. E ele: ‘Você está mentindo’. Eu disse: ‘Vou mandar uma foto’.

Você acha que Ibrahimovic é arrogante e um cara completamente não legal, mas ele é o oposto: rindo o tempo inteiro, fazendo piadas. No gramado, ele é muito sério, muito profissional. Mas fora dele, o cara mais engraçado do mundo. Sua personalidade pública é fachada porque ele não quer falar com você (imprensa). Então, ele faz aquela cara para você nem fazer uma pergunta.

Pensou que iria para a festa de gala da Fifa

Seria o melhor dia da minha vida depois do nascimento dos meus filhos. Eu sempre disse que queria ir, mesmo que fosse por um prêmio de fair play por ter admitido que não era um pênalti. Eu sentia que se eu fosse até lá, eu consegui. Eu sou um dos melhores, mesmo que fosse por algo estúpido, ou por um gol em um ano. Eu achei que fossem me ligar porque eu recebi tantas mensagens e tuítes. Alguém me explicou que não é o melhor gol coletivo, é o melhor gol individual. Mas futebol é um esporte de equipe. Ao contrário, eu jogaria tênis. Eu vi todas as mensagens e fiquei animado. Até disse para a minha mulher: ‘Nós vamos para Zurique’. Ela me perguntou uma semana depois: ‘O que aconteceu com Zurique?. Eu disse: ‘Ah, esquece, eu vou ter que fazer outro gol’.

 

Ajudar os jovens

“Nós (jogadores) não estudamos muito, não somos os melhores em matemática ou sei lá o quê, porque amamos futebol. Se você tem 18 anos e não sabe nada, agora, aos 18 anos, você ganha 5 milhões por ano. Você compra o mundo. É exatamente o que você pensa: ‘Eu. Posso. Comprar. O. Mundo’. Eu compro amigos, garotas, carros, compro tudo, compro amor, compro felicidade. É isso que você pensa. Quando você tem 18 anos, você não se importa com o que seus pais falam, então você precisa de alguém dando conselhos. Eu não tive isso. Muitos jogadores não têm.

Há jogadores jovens aqui (no Las Palmas) com muito talento. Pode ser difícil viver aqui (Ilhas Canárias): um lugar lindo, maravilhoso clima, você treina duas horas por dia e pode ir para a praia. Ficar concentrado nesta ilha é difícil, mas eu tenho experiência, então eu ajudo, eu aconselho. Se eles ouvem ou não, depende deles, mas pelo menos eu posso dizer que eu tentei.

Não quero que eles desperdicem seu talento. Eu dei exemplos de coisas que eu fiz errado. Eu cometi erros na minha vida. Estou ok agora, mas eu não quero que eles façam as mesmas coisas estúpidas que deixam uma marca para sempre: ‘bad boy’, ‘bêbado’, ‘gosta de festas’. Alguns jornais ainda têm essa imagem de mim. Que seja. Vamos combinar: eu falei na ONU. Me diga outro jogador que fez isso.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo