Copa do Mundo

Fifa dissolve força-tarefa contra o racismo na Copa de 2018 por já ter “cumprido sua missão”

O racismo está no centro do debate em relação à Copa do Mundo de 2018. Embora episódios do tipo sejam infelizmente registrados em diversas partes do mundo, eles acontecem de maneira intensa no futebol russo. Por isso mesmo, em 2013, a Fifa criou uma ‘força-tarefa’ para se debruçar sobre o tema e combater o racismo no país. Três anos depois, porém, a entidade internacional considera que o trabalho está feito. Nos últimos dias, a federação enviou cartas aos membros do grupo anunciando que a força-tarefa está dissolvida, já que “cumpriu completamente a sua missão temporária”. Um escárnio com um assunto seríssimo e que não deve ser erradicado assim do futebol dentro de alguns séculos.

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A postura da Fifa é contestada pelos membros da força-tarefa. Segundo Osasu Obayiuwana, jornalista e advogado que trabalhava com o grupo, a situação degringolou nos últimos meses. O chefe da missão era Jeffrey Webb, um dos cartolas presos por corrupção no Fifagate. A partir de 2015, quem assumiu a coordenação foi Constant Omari, presidente da federação congolesa. Desde então, não aconteceram mais reuniões e, segundo Obayiuwana, a chefia sequer respondia as suas mensagens.

“Eu gostaria de dizer que estou chocado com a decisão, mas, infelizmente, não estou. O problema do racismo no futebol continua a pegar fogo, é um tópico muito sério, que precisa de atenção contínua. Eu pessoalmente penso que ainda há muito trabalho sério para a força-tarefa fazer. A Copa do Mundo de 2018 na Rússia é apenas um dos assuntos. Mas é evidente que a administração da Fifa tem uma posição diferente quanto a isso”, declarou Obayiuwana, em entrevista à Associated Press.

A Fifa, em contrapartida, aponta que todas as recomendações dadas pela força-tarefa foram implementadas e os projetos seguem em frente. A entidade introduziu um sistema de monitoramento nas partidas, lançou um guia de ‘boas práticas’, montou um ‘time de estrelas’ para realizar a conscientização e criou um prêmio à diversidade. Por isso, deu-se por satisfeita.

Uma pesquisa recente sobre racismo no futebol russo apontou um aumento no número de manifestações preconceituosas nos estádios do país, com a maioria dos casos permanecendo impune. O estudo elencou 92 incidentes na temporada de 2014/15, seja através de cânticos discriminatórios ou outros tipos de manifestações. Nas duas temporadas anteriores, juntas, o número de registros não passou de 83. Enquanto a Fifa relega o assunto seríssimo ao segundo plano, quem sofre é o futebol, que poderia muito bem ser um espelho à sociedade diante de uma questão arraigada.

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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