Espanha
Tendência

Fàbregas encerra uma carreira de grandes momentos e uma inegável qualidade técnica

Aos 36 anos, Fàbregas disputou a última temporada no Como, do qual é acionista, e iniciará agora sua trajetória como técnico na base do clube italiano

Cesc Fàbregas está numa prateleira alta entre os principais jogadores da Espanha neste século. O meio-campista não chegou a ser um protagonista na geração que conquistou duas Eurocopas e uma Copa do Mundo, mas era figura onipresente nos sucessos do time de Vicente del Bosque. Com sua capacidade técnica e a visão de jogo privilegiada, superou as 100 partidas com a camisa da Roja. Enquanto isso, experimentou sucessos em diferentes clubes de peso. Estourou muito cedo no Arsenal, ergueu taças no Barcelona, virou um ícone do Chelsea. Durante os últimos anos, Fàbregas perdeu os holofotes ao seu redor, mas ainda assim ofereceu lampejos ao Monaco. Já na última temporada, o veterano disputou a Serie B italiana com o Como. Era o último ato antes do adeus. Neste sábado, aos 36 anos, o meio-campista coloca ponto final na carreira profissional.

Durante os últimos anos, Fàbregas não conseguiu desempenhar mais em alto nível. Os problemas de lesão aos poucos minaram seu espaço, desde os tempos de Chelsea. Não seria a figura mais ativa no Monaco e a passagem recente pelo Como indicava o fim de sua história nas principais competições. Chegou com dois anos de contrato, mas só cumpriu um, no clube do qual também se tornou um dos acionistas. E o time italiano marcará sua transição. Durante os últimos tempos, o espanhol vinha se dedicando à formação como treinador. Sua aposentadoria como jogador também dá início à trajetória na beira do campo, como técnico da base do próprio Como.

Os agradecimentos de Fàbregas em suas redes sociais

Fàbregas é apresentado pelo Como (Foto: Divulgação)

“Depois de 21 temporadas jogando como profissional, é hora de pendurar as chuteiras. Nunca me esquecerei dos meus primeiros dias no Arenys, no Mataró, no Barça, no Arsenal, na volta ao Barça, no Chelsea, no Monaco e no Como. Ergui a Copa do Mundo e duas Eurocopas, ganhei tudo na Inglaterra e na Espanha, e quase todos os troféus europeus. Foi uma viagem impossível de esquecer”.

“A todos os que me ajudaram, meus companheiros, treinadores, diretores, presidentes, donos, torcedores e meu empresário, um obrigado de coração. Aos oponentes, obrigado por me tornarem mais forte. E a toda a minha família, desde meus pais e minha irmã até minha mulher e meus filhos, obrigado pelos conselhos, ajuda e orientação neste longo e incrível caminho. Eu vivi experiências que nunca imaginei, nem em um milhão de anos, que viveria. Aprendi três idiomas e posso dizer que isso me deixou mais compassivo e sábio. Valeu muito a pena por todas as grandes lembranças e amigos que fiz no caminho”.

“Mas nem tudo é tristeza, agora também começa um novo desafio. Eu me sinto feliz que vou cruzar a linha branca e começarei a treinar o time B e os juniores do Como 1907, um clube e um projeto que me animam muitíssimo. Este clube maravilhoso conquistou meu coração desde o primeiro minuto e veio a mim no momento perfeito da minha carreira. Darei tudo o que estiver ao meu alcance. Assim, depois de 20 anos incríveis cheios de sacrifício, dedicação e alegria, só me resta agradecer e dizer adeus a este maravilhoso esporte como jogador. Desfrutei cada minuto em campo”.

Um talento muito precoce

Nascido na Catalunha, Fàbregas formou-se no futebol através do Barcelona. O meio-campista começou a frequentar as arquibancadas do Camp Nou ainda na infância. Já dentro de campo, depois de passar por Arenys e Mataró, o prodígio ingressou em La Masia a partir dos dez anos. Fàbregas era parte da badalada “geração de 87” do Barça, que ainda contava com Gerard Piqué e Lionel Messi. Fã de Pep Guardiola, o meio-campista era visto como o futuro dos barcelonistas. Não demorou a impressionar nas competições de base por sua qualidade técnica e mesmo pela chegada ao ataque.

Entretanto, os rumos de Fàbregas no início da carreira seriam outros. O meio-campista se valorizou demais no Mundial Sub-17 de 2003. Perdeu a final para o Brasil, mas terminou como artilheiro e melhor jogador do torneio. Logo depois, o prodígio aceitou uma proposta do Arsenal e se juntou às categorias de base do clube, quando tinha 16 anos. Fàbregas pôde acompanhar de perto nomes como Patrick Vieira e Gilberto Silva, fundamentais à consagração dos Invincibles em 2003/04. Naquela mesma temporada, Arsène Wenger chegou a aproveitar o espanhol na Copa da Liga. Todavia, sua afirmação no time principal aconteceu mesmo em 2004/05. As lesões entre os titulares abriram espaço ao garoto de 17 anos e ele logo justificou a chance com grandes atuações. Terminou premiado com seu primeiro contrato profissional e com o título da FA Cup de 2004/05.

A ascensão de Fàbregas, no entanto, se combinou com o enfraquecimento do Arsenal naqueles anos. O meio-campista se tornou protagonista dos Gunners, com sua evidente capacidade na armação, mas sem liderar a equipe a grandes títulos. O maior lamento aconteceu em 2005/06. Fàbregas foi um dos melhores jogadores da Champions League naquela temporada, mas viu o título escapar na final perdida diante do Barcelona. Seu consolo ficou para a presença na Copa do Mundo de 2006, sua primeira competição internacional com a seleção da Espanha. O garoto de 19 anos começou como reserva, mas ganhou a posição na equipe titular de Luis Aragonés ao longo do torneio.

Rumo ao topo do mundo com a Espanha

Fàbregas comemora um dos seus dois gols contra o Tottenham (Foto: AP)

Arsène Wenger parecia disposto a montar o Arsenal ao redor de Cesc Fàbregas, em meio ao processo de renovação do clube. O meio-campista também indicava confiar no projeto, ao recusar uma proposta do Real Madrid. Porém, outras apostas dos Gunners não apresentavam a mesma qualidade do espanhol. Não importava muito o grande número de assistências e a presença constante em campo, quando o restante do time não compensava. O reconhecimento viria em forma de prêmios individuais, ao menos. Chegou a ser eleito o melhor jogador do Arsenal em 2006/07. Já em 2007/08, deu 20 assistências pela Premier League e foi escolhido para o time ideal da competição, enquanto recebeu o prêmio de melhor jovem em atividade no campeonato.

A oportunidade para Fàbregas se firmar como campeão aconteceu pela Espanha, na Euro 2008. Fàbregas era reserva na equipe de Luis Aragonés, mas saiu do banco para converter o pênalti decisivo nas quartas contra a Itália e deu duas assistências nas semifinais contra a Rússia. Diante da lesão de David Villa, começou no 11 inicial na decisão contra a Alemanha e pôde erguer a taça. Com o moral elevado, acabou escolhido como capitão do Arsenal aos 21 anos. Era uma estrela da Premier League e viveu outra temporada fantástica em 2009/10, com 15 gols e 15 assistências. Pela segunda vez na carreira, foi eleito para o time ideal do Campeonato Inglês.

Fàbregas continuava também como uma figura importante na seleção da Espanha, mesmo com a chegada de Vicente del Bosque ao comando. O meio-campista acabava como uma peça na rotação da Roja, diante da trinca formada por Sergio Busquets, Xabi Alonso e Xavi no time titular. Entretanto, mesmo como reserva, Fàbregas seria um personagem central na conquista da Copa do Mundo de 2010. O camisa 10 foi utilizado em pouco mais de 100 minutos no Mundial da África do Sul, saindo do banco em quatro partidas e sem entrar nas outras três. Em compensação, abriu o caminho à vitória na final contra a Holanda. Fàbregas substituiu Xabi Alonso aos 42 do segundo tempo e, na prorrogação, deu o passe para Andrés Iniesta marcar o gol do título no Soccer City.

Uma volta agridoce ao Barcelona

Cesc Fàbregas, do Barcelona (AP Photo/Manu Fernandez)

Enquanto se eternizava com a seleção da Espanha, Fàbregas convivia com o marasmo do Arsenal. Os Gunners tiveram uma proposta para vender o capitão para o Barcelona em 2010/11, mas não aceitaram o negócio. Seria outra temporada decepcionante no norte de Londres, com uma sequência de fracassos da equipe na reta final de diferentes competições. A vontade de Fàbregas em se unir de novo ao Barça preponderou em 2011/12, quando o clube pagou €29 milhões por sua contratação. Poderia se reencontrar com antigos companheiros de La Masia e teria a chance de ser treinado pelo ídolo Pep Guardiola. Fàbregas se despediu do Arsenal como uma figura importante, mas sem taças que o respaldassem na história do clube.

De início, Fàbregas era visto como o herdeiro de Xavi em meio à transição que se prometia no meio-campo do Barcelona. Entretanto, o meia se juntou ao time num momento em que o trabalho de Guardiola perdia forças. Aquela temporada de 2011/12 ficou marcada pelo vice em La Liga e pela queda nas semifinais da Champions. De novo, a seleção da Espanha serviu para levantar o ânimo do camisa 10. Del Bosque improvisou Fàbregas como falso 9 (num papel que também fez no Barça) e o jovem de 23 anos conquistou a Eurocopa pela segunda vez em sua carreira, em 2012. Não seria uma campanha brilhante de Fàbregas, mas foi bem sobretudo na decisão contra a Itália, com assistência ao primeiro gol de David Silva.

Com a saída de Pep Guardiola, o Barcelona atravessou um momento de transição. Fàbregas teve sua melhor temporada em 2012/13, quando ofereceu 11 gols e 12 assistências na conquista de La Liga. Contudo, a Champions se tornou uma lacuna em sua carreira. Nas três temporadas do meio-campista no Camp Nou, o Barça ficou sem a Orelhuda – uma taça faturada na temporada imediatamente anterior e também na imediatamente posterior. O nível apresentado pelo catalão com a camisa dos blaugranas foi muito bom, com 42 gols e 50 assistências em 151 partidas. Só que ele não conseguiu fazer parte dos principais momentos do clube na década.

O melhor momento foi com o Chelsea

Fàbregas começou voando no Chelsea (AP Photo/Sang Tan)

Fàbregas decidiu retornar à Inglaterra em junho de 2014, às vésperas de mais uma Copa do Mundo – na qual o meio-campista mal atuou no fracasso da Espanha. O Chelsea pagou €33 milhões pelo meio-campista, numa volta a Londres vista como controversa. Fàbregas, afinal, não apenas cortava o cordão umbilical com o Barcelona de novo. O astro acabava escolhendo outro time da capital, em detrimento ao Arsenal. Os Gunners tinham a prioridade no negócio, mas Arsène Wenger decidiu não exercer. Muito mais convincente foi José Mourinho, que participou diretamente das tratativas. A promessa do técnico era a de fazer o meio-campista campeão. Cumpriu.

A temporada 2014/15 é a melhor da carreira de Fàbregas por clubes. O meio-campista foi instrumental para fazer o time de José Mourinho campeão da Premier League. Seus lançamentos valiam ouro e ele encerrou a campanha com 19 assistências, apenas uma a menos que sua melhor marca pessoal. Enfim, chegava ao sucesso como protagonista de uma grande taça. Uma pena que o momento não tenha durado tanto. Mourinho foi demitido logo na temporada seguinte e Fàbregas ficou abaixo de seu melhor em 2015/16. Perdeu espaço na seleção da Espanha também. A Euro 2016 marcou sua despedida da Roja, sem muito destaque na campanha que se encerrou nas oitavas de final. Foram 110 partidas, com 15 gols.

Fàbregas nunca foi o jogador mais intenso fisicamente e, aos 29 anos, sua queda de desempenho começava a transparecer. O meio-campista perdeu espaço como titular do Chelsea a partir da chegada de Antonio Conte. Isso não significa, porém, que não tenha contribuído à conquista da Premier League em 2016/17. Saindo muitas vezes do banco e também jogando mais adiantado como meia, Fàbregas ofereceu cinco gols e 12 assistências aos Blues. Desequilibrou especialmente na reta final do campeonato. Ratificava o Chelsea como o clube onde teve as maiores glórias.

O ocaso da carreira

Cesc Fàbregas, do Monaco ( VALERY HACHE/AFP via Getty Images/OneFootball)

Durante a temporada 2017/18, Fàbregas ganhou até mais espaço com Conte e conquistou a Copa da Inglaterra. Entretanto, o Chelsea atravessava de novo uma entressafra. E o fim da passagem do meio-campista por Stamford Bridge aconteceu em 2018/19, a partir da chegada de Maurizio Sarri. O treinador nunca fez questão de esconder como o meio-campista estava fora de seus planos, sobretudo com a contratação de Jorginho. O veterano se transformou numa peça negociável. Seu próximo destino era o Monaco, num negócio de €9 milhões firmado em janeiro de 2019.

Logo em seus primeiros meses no Monaco, Fàbregas se tornou bastante importante para resgatar o time dos riscos de rebaixamento na Ligue 1. Seria uma liderança no elenco de Niko Kovac. Nem sempre foi titular absoluto, mas sua história o colocava como uma óbvia referência dentro do grupo jovem dos monegascos. Teve bom papel também nas duas temporadas seguintes, com destaque a uma atuação de gala contra o PSG em novembro de 2020. Auxiliou os alvirrubros a se classificarem de novo para a Champions em 2020/21. Entretanto, os problemas físicos mal permitiram que atuasse em 2021/22.

A última mudança de Fàbregas aconteceu em 2022/23, rumo ao Como. Assinou por duas temporadas com o clube da Serie B, convencido a fazer parte de um projeto maior nos bastidores. Até porque, em campo, não conseguiu auxiliar muito. Foram 17 partidas pela segundona italiana em 2022/23, com duas assistências e nenhum gol. Seu time terminou no meio da tabela. Aos 36 anos, o veterano avaliou que era melhor pendurar as chuteiras. Mas sem perder de vista um novo objetivo em sua caminhada, com o início imediato da trajetória como treinador.

A carreira de Fàbregas não é tão simples de se classificar. O meio-campista não possui uma identificação tão forte com um mesmo clube, mas não se nega que jogou demais na Premier League e também teve seus momentos no Barcelona. Pela seleção da Espanha, foi onipresente nas conquistas mesmo abaixo de outras lendas ao seu lado. Talvez sua trajetória tenha ficado aquém do que prometia quando despontou no Arsenal. O que não diminui seu lugar como uma das grandes figuras do futebol neste século, mais até por sua qualidade técnica do que propriamente por seus feitos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo