Copa do Rei

O título da Copa do Rei eterniza Joaquín, um cara que vive o futebol de verdade, como maior realeza do Betis

Joaquín simboliza diferentes períodos vitoriosos do Betis e, aos 40 anos, pode se despedir com a certeza de ser o maior ídolo do clube

Nenhum outro jogador de linha atuou mais vezes por La Liga. Nenhum outro atleta vestiu mais vezes a camisa do Betis. Os recordes colocam Joaquín numa posição de destaque nos livros de história, mas a lenda construída pelos grandes futebolistas ganha mesmo traços dourados com os títulos. E que bom foi ver o troféu da Copa do Rei erguido pelo capitão de 40 anos, naquela que deve ser a última temporada de sua carreira. O camisa 17 vivenciou essa final em máxima intensidade, dos aplausos às lágrimas. Num clube que leva “Real” no nome e numa competição que homenageia o rei, Joaquín se despede como uma grande realeza. Seu reinado betico será daqueles para se exaltar através de séculos e séculos.

Joaquín tinha 16 anos quando ingressou nas categorias de base do Real Betis. E um dos primeiros sinais de seu talento veio pelos juvenis, quando conquistou a Copa do Rei da categoria, em 1999. Foi seu primeiro encontro com o trono. O ponta estreou na equipe principal pouco tempo depois, durante um momento difícil. O clube estava na segunda divisão do Campeonato Espanhol em 2000/01, mas Joaquín estourou de forma tão avassaladora que, além do acesso, conquistou um lugar na seleção espanhola para a Copa de 2002. Jogou muito bem na Coreia do Sul e no Japão. E o ápice dessa forma no início da carreira viria em 2005, com a conquista da Copa do Rei, que encerrava um jejum de 28 anos sem títulos dos andaluzes. Com a capa de toureiro em mãos, o craque conduziu a festa no Estádio Vicente Calderón.

A despedida de Joaquín no Betis aconteceu em 2006, após sua segunda Copa do Mundo. Na verdade, era um até logo. O ponta rumou ao Valencia como contratação recorde e faturou outra Copa do Rei. Teve bons momentos também por Málaga e Fiorentina. Isso até que decidisse voltar para casa em 2015. Não retornava a Heliópolis apenas para encerrar a carreira, já que esses últimos anos não se resumiram a recordes batidos. Independentemente da idade, o veterano gastou a bola em muitos momentos e proporcionou outras alegrias à torcida verdiblanca. Faltava, no entanto, mais um título. Faltava a coroação definitiva.

(CRISTINA QUICLER/AFP via Getty Images/One Football)

Joaquín vinha sendo reserva na atual temporada. Aos 40 anos, acaba mais contido aos minutos finais das partidas. Isso não diminui o respeito que tem nos vestiários como liderança e também a reverência que recebe nas arquibancadas. Na Copa do Rei, pôde arrancar aplausos principalmente nas fases iniciais, quando o Betis encarou adversários mais fracos. De qualquer maneira, a experiência do capitão seria de grande valia numa campanha dura, que inclusive deixou o Sevilla pelo caminho em tarde tensa. Isso até que a final surgisse no horizonte, depois da classificação sobre o Rayo Vallecano.

O Estádio Olímpico de La Cartuja era uma extensão da casa de Joaquín em Sevilha, com tantos velhos conhecidos nas arquibancadas. Durante 85 minutos o veterano permaneceu no banco de reservas, mas as câmeras o procuravam insistentemente, inclusive no gol de Borja Iglesias. Quando entrou, aplaudidíssimo, o medalhão teria um lance ou outro mais agudo, mas sem impedir que a prorrogação caísse de nível. E não deixaria de assumir sua responsabilidade nos pênaltis. Ajeitou a bola com enorme carinho, como quem pedia um último favor. Ela prestou, ao ser tocada pelo goleiro Giorgi Mamardashvili e mesmo assim adormecer nas redes.

Quando o Betis confirmou o título, as câmeras se voltaram novamente a Joaquín. O capitão agora estava às lágrimas, abraçado pelos companheiros. Ergueu os punhos fechados em vibração. Ajoelhou-se no gramado, bateu no peito e agradeceu aos céus. Um jogador de seu calibre merecia um currículo mais recheado de títulos. Uma lenda de sua dimensão merecia simbolizar períodos distintos de glórias ao Betis. É o que acontece com a nova taça, recebida aos 40 anos.

(JORGE GUERRERO/AFP via Getty Images/One Football)

Antes de subir à tribuna de honra, Joaquín ainda deu uma entrevista em campo. Salientou um pouco mais sua humildade, ao dedicar o feito aos funcionários do Betis – citando roupeiros, cozinheiros, faxineiros e todos aqueles que, independentemente do trabalho, tornam possível um clima positivo para a conquista. Não parecia ser da boca para fora, pelo tempo de casa e pela forma como o capitão trata as pessoas.

Então, chegou a hora de cumprimentar o rei. No caso, era Felipe VI quem deveria se curvar a Joaquín. O troféu estava em ótimas mãos – por aquilo que significa ao presente, pela forma como completa o passado e pelo que dirá ao futuro. Mas a festa também só seria plena quando o veterano voltasse ao gramado junto aos seus e fosse o mais ilustre súdito do Real Betis. Por fim, depois de 17 anos, assumiu outra vez a capa de toureiro e deu nova versão à sua famosa imagem.

Joaquín é daqueles jogadores que fazem bem ao futebol – pelo bom humor presente repetidamente, pela dedicação que teve até os últimos momentos da carreira, pela consideração que exibe com os torcedores, pela maneira como respeita a instituição. O futebol ganha com personagens como Joaquín. E que o tempo implacavelmente o faça sair de cena, que fique o legado e as lembranças. Melhor ainda que saia como campeão, na última grande história de sua riquíssima caminhada.

(Angel Martinez/Getty Images/One Football)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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