La Liga

Uma final excelente e uma festa arrepiante engrandecem o título do Betis na Copa do Rei, novamente campeão após 17 anos

Betis e Valencia fizeram uma partida em altíssimo nível, cheia de chances de gol, até que os beticos prevalecessem nos pênaltis e erguessem a taça diante de sua torcida

O Betis atravessou bons momentos nos últimos anos. Classificou-se para copas europeias e exibiu um futebol tantas vezes atrativo. Porém, considerando o tamanho de sua torcida e mesmo a rivalidade em que está inserido, o clube sentia falta de uma conquista. Já tinham se passado 17 anos desde o último título, na Copa do Rei, até que uma nova chance surgisse na mesma competição. E a consagração dos beticos ocorre no Estádio Olímpico de La Cartuja, em Sevilha, com uma grande massa verdiblanca nas arquibancadas. A decisão ajuda a engrandecer a ocasião, com um jogaço diante do Valencia. Foram 90 minutos alucinantes, com o empate por 1 a 1, embora a prorrogação não tenha sustentado o nível. Por fim, nos pênaltis, o Betis foi mais competente para vencer por 5 a 4. O eterno Joaquín, maior jogador da história verdiblanca, pôde erguer o troféu 17 anos depois de participar daquela conquista anterior na Copa do Rei e, aos 40 anos, na última temporada da carreira.

Joaquín é o grande personagem dessa conquista. O ponta começou no banco e entrou em campo apenas no final do segundo tempo, muitíssimo aplaudido, mas ainda assim as câmeras o procuravam a todo momento. Ao fim dos penais, após já ter convertido sua cobrança, o capitão não segurou as lágrimas com o título. E ofereceria o troféu aos funcionários do clube, desde o mais simples até o presidente. Por bola, Borja Iglesias foi o melhor do time, numa partida espetacular. O camisa 9 marcou o gol e procurou o jogo o tempo todo, até sair esgotado. E há os méritos claros de Manuel Pellegrini, um treinador de imensa importância, que consegue escrever mais uma página dourada em sua trajetória. É quem faz os beticos jogarem tanto, com um elenco cheio de ótimos nomes. Mesmo com o empate, os andaluzes tiveram ótimo desempenho e foram melhores em boa parte da noite.

Do outro lado, o Valencia deve sair de cabeça erguida. Os Ches não eram favoritos, mas conseguiram equilibrar o duelo com a postura competitiva sempre visível nos times de José Bordalás. O goleiro Giorgi Mamardashvili também seria muito importante, com uma série de defesas vitais. O único porém da noite foi a péssima arbitragem, que prejudicou os dois times ao não marcar pênaltis para ambos, além de errar em termos disciplinares e também marcações básicas. O VAR falhou ao não corrigir.

O Betis iniciou a decisão disposto a exercer sua superioridade. O Valencia ficava mais contido e os verdiblancos trabalhavam com muita movimentação no campo de ataque. Aos 11 minutos, a equipe de Manuel Pellegrini abriu o placar. Numa construção pelo lado direito, Nabil Fekir acionou Héctor Bellerín. O cruzamento chegou perfeito e Borja Iglesias executou uma cabeçada de manual, sem chances de defesa para Giorgi Mamardashvili. A temperatura da final se elevou depois do gol. Se já era uma partida intensa, as faltas se tornaram mais comuns. A arbitragem desde já era péssima, sem critério e com muitos erros.

Aos 21, o Betis esteve próximo de ampliar a diferença. Juanmi recebeu o cruzamento e não conseguiu emendar uma boa cabeçada, mandando para fora. Pouco depois, num erro na saída de bola, Borja Iglesias acabou travado por Mamardashvili. O Valencia tinha dificuldades para responder e se via mais acuado, mas aguardava um contra-ataque e conseguiu o encaixe aos 30, para determinar o empate. A saída rápida funcionou e Ilaix Moriba deu uma enfiada ótima no meio de dois marcadores para Hugo Duro, partindo em velocidade. O atacante saiu de frente com Claudio Bravo e definiu com frieza, encobrindo o goleiro.

O restante do primeiro tempo seguiria aberto, com duas equipes exibindo estilos bastante distintos. O Betis jogava mais com a bola e o Valencia tentava igualar sem. Porém, os verdiblancos ainda indicavam ter mais recursos para retomar a vantagem. Sergio Canales nem fazia sua melhor atuação, mas ficou a um triz de anotar aos 43, num chute de fora da área que bateu na trave. Até pelo apoio da torcida em Sevilha, existia mais confiança entre os beticos.

O início do segundo tempo virou o jogo de cabeça para baixo. O Valencia cresceu ainda mais, encaixando seus ataques e marcando em cima, contra um Betis que se perdeu. Hugo Duro incomodava muito e partia para cima da marcação. Aos cinco minutos, Claudio Bravo precisou sair nos pés de José Gayà para bloquear o chute e a sobra ficou com Duro, que bateu por cima do travessão. Os valencianos estavam bem mais conscientes e encontravam os espaços, enquanto os andaluzes sequer conseguiam construir no ataque. Aos nove minutos, Moriba recebeu um cruzamento limpo na área e pegou mascado, em grande vacilo. Os Ches ainda tiveram uma reclamação de pênalti, que o árbitro não deu e o VAR não chamou.

O Betis melhorou apenas depois de 15 minutos, com seu ataque voltando a se entender. Borja Iglesias fazia muito bem o pivô e, numa dessas, deu um bolão para Juanmi. O ponta chutou de frente para o gol e Mamardashvili se agigantou para salvar o Valencia. Logo depois, seria a vez de Canales arriscar da entrada da área e mandar ao lado da trave. Era uma partida aberta, mas as saídas dos valencianos ao ataque se tornavam mais esparsas e os beticos aumentavam a pressão. Aos 32, Juanmi de novo fez a torcida adversária prender a respiração, em chute da meia-lua que caprichosamente bateu na trave.

O Betis tentava resolver o jogo antes da prorrogação. Teria a reclamação de um pênalti sobre Nabil Fekir, mas a bola na sequência ainda ficou para Borja Iglesias e o chute do centroavante saiu lambendo a trave. Já aos 38, Fekir ficou sozinho com Mamardashvili e parou em mais uma grande defesa do goleiro, embora o arremate tenha vindo em cima do georgiano. O nível de drama aumentava. O Valencia teria um par de lances na área em bolas paradas e ganhava velocidade com as substituições, antes que o embate se abrisse de vez no fim. Mamardashvili realizou mais uma intervenção em tiro no canto de Borja Iglesias, enquanto Bravo salvaria um chute de Carlos Soler que veio em cima. Apesar da vontade dos times, o empate determinou a prorrogação.

O primeiro tempo da prorrogação seria mais lento. As duas equipes davam sinais de desgaste. Joaquín, muito aplaudido ao sair do banco, até assustou numa cobrança de falta com efeito que Mamardashvili desviou – e a péssima arbitragem não marcou escanteio. Mas as ações se tornavam mais cautelosas. Melhor em campo até então, Borja Iglesias daria lugar a William José. Não surtiu efeito, com um duelo cadenciado e também travado. Mesmo o segundo tempo extra não alterou o cenário, com dois times esgotados e contidos. Não ocorreriam novas chances, até que viesse a disputa por pênaltis.

O Valencia começou na marca da cal. Carlos Soler converteu o primeiro, na gaveta. Willian José empatou, ao deslocar Mamardashvili. Uros Racic retomou a vantagem valenciana, enquanto Joaquín mandou no cantinho e marcou mesmo com Mamardashvili tocando na bola. Gonçalo Guedes e Andrés Guardado mantiveram o aproveitamento na terceira série. O primeiro erro veio no quarto chute do Valencia, quando Yunus Musah isolou. Isso permitiu que Christian Tello botasse o Betis na frente. Por mais que Gayà tenha empatado, Juan Miranda deu o troféu aos verdiblancos no quinto tiro. Joaquín poderia levantar a taça.

Joaquín subiu à tribuna de honra muito felicitado. O capitão fez uma de suas costumeiras brincadeiras para levantar a taça e, então, prevaleceu o sorriso. A noite era verde e branca em La Cartuja. Este é o terceiro título do Betis na Copa do Rei, com as conquistas anteriores em 1977 e 2005, além de dois vices. Será um adeus digno à grandeza de Joaquín para os beticos. E, quem sabe, o início de uma era de feitos mais importantes ao clube. O bom trabalho de Manuel Pellegrini tem margem para crescer mais.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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