Copa do Rei

O maior dérbi basco da história é azul: Depois de 34 anos, a Real Sociedad se sagra campeã da Copa do Rei

A Real Sociedad esperou muito. Esperou um ano para disputar a final da Copa do Rei de 2020, esperou 34 anos para reconquistar o torneio, esperou 111 anos para se reencontrar com o Athletic Bilbao em uma decisão. E toda paciência valeu demais, porque os Txuri-urdin venceram o maior dérbi basco da história – e, claro, se sagraram campeões. Terão toda a eternidade para recontar o que aconteceu no Estádio Olímpico de La Cartuja. Não foi uma partida tão vistosa, algo normal em decisões, e ainda mais uma que valia tanto a tradicionalíssimos rivais. O placar de 1 a 0 bastou à Real, de fato superior ao Athletic durante os 90 minutos. Premiou o trabalho fantástico de Imanol Alguacil em Anoeta, montando uma equipe ofensiva e competitiva. E desta vez, o protagonismo caberia a dois jogadores que dizem tanto sobre a rivalidade, principalmente sobre a fidelidade à camisa: Iñigo Martínez e Mikel Oyarzabal.

Embora não exista uma rivalidade rancorosa entre Athletic Bilbao e Real Sociedad, Iñigo Martínez é um espinho na garganta. O zagueiro é cria da base alviazul e, um dos ídolos da torcida, fazia juras de amor ao clube. Não pegou bem quando ele aceitou uma proposta dos alvirrubros, que pagaram sua multa rescisória em 2018. Quis o destino que o defensor cometesse o pênalti que garantiu o troféu à Real. Por outro lado, quem converteu foi Oyarzabal. Prata da casa e um dos maiores símbolos da base donostiarra, o ponta tem grande identificação com o clube. Até por isso, resistiu a insistentes investidas dos Leones por sua transferência e até colocou uma “cláusula anti-Athletic” em sua renovação de contrato. Neste sábado, além de usar a braçadeira de capitão, o jogador de 23 anos cumpriu sua responsabilidade na marca da cal. Coloca-se definitivamente na história e no coração da torcida.

 

Assim que o apito inicial soou, a partida demarcou a diferença de estilos entre os rivais. A Real Sociedad trabalhava melhor a bola, mesmo com a chuva forte na Andaluzia, e o Athletic buscava uma postura mais agressiva. Seria dos Leones a primeira chance, mas o goleiro Álex Remiro salvou a batida cruzada de Raúl García. Era um embate tenso, com as equipes cautelosas e o ritmo ditado pelos Txuri-urdin. A presença de David Silva era essencial nesse sentido, para ajudar sua equipe no manejo da bola, assim como de Mikel Merino. Mas não que os donostiarras criassem tanto, pecando no passe final.

O Athletic Bilbao era mais espectador na final, se protegendo e aguardando o momento de atacar. E, a partir dos 30 minutos, os Leones conseguiram mostrar seus dentes. Óscar de Marcos cruzou com veneno e o capitão Iker Muniain cabeceou por cima. Logo depois, Remiro faria uma defesaça em pancada de Iñigo Martínez, que arriscou do meio da rua. A Real acordaria pouco antes do intervalo, mas Alexander Isak não conseguiria aproveitar o cruzamento. Era um clássico muito equilibrado, de momentos, mas sobretudo de respeito entre os rivais.

Os times voltaram sem alterações para o segundo tempo. Contudo, logo a vitória se abriria à Real Sociedad, com o pesar de Iñigo Martínez. O zagueiro tinha feito um excelente primeiro tempo, mas se viu exposto no início da segunda etapa. Quase cometeu um pênalti nos primeiros minutos, por um toque no braço que acabou marcado fora, no limite da área. Já aos 12, a penalidade seria inescapável. Iñigo derrubou Portu desastrosamente e recebeu, a princípio, o cartão vermelho. A revisão do VAR não cancelou o pênalti, mas removeu a expulsão. Oyarzabal assumiu a cobrança e bateu com firmeza, sem chances ao goleiro Unai Simón.

A partir de então, o Athletic precisaria propor jogo, o que não é sua característica. Se na base da velocidade estava difícil de acionar Iñaki Williams ou Iker Muniaín, o duelos teria menos espaços aos destaques dos Leones. Os bilbaínos tentaram o abafa, mas o time oferecia pouquíssimo na criação. Mesmo as alterações de Marcelino García Toral fizeram pouco efeito. O Athletic tentava forçar a bola nos arredores da área, mas a Real Sociedad se defendia muito bem. A ausência de Aritz Aduriz, que se aposentou antes da final por conta das lesões, era sentida pelos alvirrubros. O clássico voltou a ficar mais tenso, com muitas faltas dos Txuri-urdin. Os Leones, de qualquer forma, sequer arriscavam de longe. E apesar dos generosos oito minutos de acréscimos por causa das revisões, não existiriam perigos do Athletic até o apito final.

A Real Sociedad campeã da Copa do Rei (Foto: Imago / One Football)

O fim do clássico guardaria a mais pura emoção dentro de campo. Veio o choro pesaroso do Athletic Bilbao, pela final que tanto povoou os sonhos, mas escapou numa atuação ruim. Saíram também as lágrimas vitoriosas da Real Sociedad, por todo o empenho da equipe nos últimos meses e nos 90 minutos, ainda que a apresentação no Estádio Olímpico de La Cartuja não tenha sido das melhores. Nada podia conter a comemoração dos donostiarras pelo feito. Outro momento tocante aconteceu antes da entrega da taça. Lesionado às vésperas do jogo, o capitão Asier Illarramendi foi desfalque da Real. Mesmo amparado, subiu as escadas rumo à tribuna de honra e recebeu o troféu. Também mancava ao descer, até encontrar os companheiros.

Um dos mais emocionados era exatamente Oyarzabal, que passou a braçadeira para Illarramendi e deu um abraço longo no técnico Imanol Alguacil. Às lágrimas, o herói da Real Sociedad falou sobre o peso deste título, ainda mais em tempos de pandemia: “Foi um dia bonito, em que você se lembra de tudo. Dar esta alegria a toda a torcida é o melhor que podíamos fazer. Há muita gente que gostaria de ver o jogo aqui no estádio, familiares e amigos que estão da pior maneira. Isso é para todos. Nós sentimos isso. É a história. Amo muito todos vocês. Somos campeões e vamos comemorar”.

O título da Copa do Rei premia a reconstrução da Real Sociedad. O clube passou momentos difíceis há pouco mais de uma década, permanecendo três temporadas na segunda divisão e correndo sérios riscos de bancarrota por conta das enormes dívidas. Os donostiarras contornaram seus problemas, sanaram suas finanças e voltaram a figurar entre os principais clubes de La Liga. Reaparecer na Champions League podia ser um importante marco. Mas nada se compara a um título, exatamente no maior dérbi basco da história. E o futuro dos alviazuis é promissor, seja pelo trabalho fantástico que realizam nas categorias de base, seja pela reinauguração recente do reformado Estádio de Anoeta.

A festa não será completa, já que boa parte da população em San Sebastián não poderá sair às ruas para comemorar. Mesmo que muita gente descumpra as recomendações e se aglomere, como aconteceu na despedida da equipe antes do embarque a Sevilha, a erupção certamente não se comparará ao que ocorreria em tempos normais. O orgulho, contudo, ninguém tira da Real Sociedad e de sua torcida. Esta vitória memorável será cantada pelo resto dos tempos. O Athletic possui um passado mais vitorioso, mas quem venceu o clássico mais importante foi o lado azul do País Basco.

A Real Sociedad conquista seu terceiro título na Copa do Rei, repetindo os feitos registrados em 1909 e 1987. Parece pouco à tradição do clube, mas representa muito aos seus torcedores. Já o Athletic Bilbao, segundo maior campeão do torneio com 23 taças, amarga a quinta final consecutiva em que acaba com o vice – o último troféu veio em 1984. Ao menos, a chance para erguer a cabeça não demorará, com a final da Copa do Rei de 2021 pela frente em duas semanas, contra o Barcelona no mesmo Estádio Olímpico. Antes disso, na próxima quarta, os Leones ainda terão que encarar outro dérbi dentro de Anoeta. Será um jogo especial, sobretudo pelo ‘pasillo’ dos alvirrubros. que aplaudirão os campeões. Com todos os méritos, a Real Sociedad receberá uma ovação que ecoará por décadas no clássico.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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