Copa do Rei

A história do dérbi entre Athletic e Real Sociedad, uma rivalidade entre irmãos, motivada pelo orgulho e pela identidade basca

Depois de um ano de espera, o País Basco poderá finalmente vivenciar o jogo que mais gerou expectativas em suas torcidas nos últimos tempos. As chances de conquistar a Copa do Rei, afinal, não tem sido das mais costumeiras para Athletic Bilbao e Real Sociedad, em que se pese a tradição de ambas as agremiações. Os bilbaínos até chegaram a outras decisões nos últimos anos, mas sem sucesso. Os dois bastiões do futebol basco não conquistam o troféu da copa desde os anos 1980, quando também chegaram a dominar La Liga ao longo de quatro emblemáticas temporadas. E a oportunidade no Estádio Olímpico de La Cartuja oferece também o maior dérbi basco da história. Há uma rivalidade um tanto quanto distinta e irmanada entre alvirrubros e alviazuis. Porém, nenhum dos lados deseja abrir mão do troféu, em uma final que representa tanto à região e, de um jeito ou outro, irá se gravar à memória.

É uma pena que, apesar de longa espera, a final basca da Copa do Rei ainda não possa contar com torcedores nas arquibancadas em Sevilha. A intenção dos dirigentes de Athletic e Real era aguardar ao máximo a reabertura dos portões no país, com as perspectivas de vacinação da população. Os planos se arrastaram e, para que a decisão de 2020 não se encavale com a de 2021, o jeito será realizar o duelo sem o público prometido. A torcida se dará de outras formas, e também ressaltará um pouco o caráter especial da rivalidade. Leones e Txuri-urdin podem fazer embates quentes em campo e ter suas cisões institucionais, mas quase sempre foi um dérbi amigável nas tribunas e nos arredores dos estádios, entre dos lados que diferem nas cores, mas tantas vezes andaram juntos na causa.

Os anos mais flamantes do dérbi basco, curiosamente, foram os primeiros. A rivalidade nasceu em 1909, numa vitória do Club Ciclista (que daria origem à Real Sociedad) sobre o Athletic Bilbao pela Copa do Rei. O triunfo colocaria os donostiarras na semifinal e a equipe terminaria com o inédito troféu nacional – uma conquista que os bilbaínos já tinham levado duas vezes. Em 1910, o reencontro do Athletic com a agora rebatizada Real Sociedad aconteceu exatamente na final da Copa do Rei. Veio o troco dos Leones, com o triunfo por 1 a 0, reafirmando a força daquele que despontava como o principal representante regional. Curiosamente, os alviazuis não puderam usar seu nome por “não serem antigos o suficiente”. Assim, emprestaram a identidade do Vasconia naquele dia. Aquela foi também a primeira decisão em que os alvirrubros vestiram seu tradicional uniforme listrado.

Naqueles primeiros anos, o descontentamento nas arquibancadas riscava fósforos para revoltas sociais. Era o que registravam as crônicas, segundo o El País, com incidentes e protestos do público – com direito a pedras lançadas pelos donostiarras já naquela final de 1910. Os próprios jornais serviam para insuflar tal animosidade, com um claro embate público entre as cidades e certa dose de tensão. As brigas se estendiam entre dirigentes, com direito a times se retirando de campo e um jogo adiado que nunca aconteceu.

A partir da década de 1920, entretanto, a poeira baixou. A Real Sociedad manteve-se abaixo de outros clubes bascos, como a Real Unión e o Arenas de Getxo. Enquanto isso, o Athletic era o principal representante da região para encarar Barcelona e Real Madrid. Os bilbaínos eliminaram os donostiarras na Copa do Rei para chegar ao título em 1923 e 1930. Já a partir de 1928/29, os dois passaram a conviver na primeira divisão de La Liga, embora a competitividade dos Leones fosse bem maior. Até 1969/70, apenas duas vezes os Txuri-urdin terminaram à frente na classificação do Campeonato Espanhol. Enquanto o Athletic somava seis títulos da liga e 21 da copa até este momento, a Real se restringia àquele troféu de 1909, com direito a 13 temporadas na segunda divisão.

Até pelas distâncias entre as duas equipes na tabela do Campeonato Espanhol, não existia exatamente uma rivalidade feroz no País Basco. E, naqueles anos de ditadura franquista, os torcedores se viam muito mais próximos ao redor de suas causas. Biscaios (região onde fica Bilbao) e gipuzcoanos (onde está San Sebastián) se uniram para fundamentar a seleção basca em 1930. A equipe seria fundamental na segunda metade daquela década, quando estourou a Guerra Civil Espanhola. Com o País Basco do lado republicano do conflito, o time passou a excursionar pelo mundo para alertar outros países sobre o que ocorria na Espanha e também levantar dinheiro na ajuda de feridos, refugiados e crianças. O Athletic era a base daquela equipe, que teve atletas cedidos por outros clubes, mas nenhum membro da Real.

Franco venceu a guerra e instaurou sua ditadura. O País Basco viu seu nacionalismo suprimido, assim como a sua própria identidade, com repressão à língua e outros símbolos da região. O Athletic Bilbao e a Real Sociedad eram duas bandeiras, porém, que o fascismo não poderia tirar de seu povo – por mais que também provocasse limitações, como a própria abolição do “estrangeirismo” no nome do Athletic, fundado por ingleses, e transformado em Atlético. Neste período tão importante à história da Espanha, bilbaínos e donostiarras se apegaram ainda mais à política de limitar seus elencos a jogadores nascidos no País Basco ou com origem basca. Era uma maneira de manter a representatividade em anos de chumbo.

Durante a década de 1970, sem que o Athletic conseguisse se manter como uma potência de La Liga, a Real Sociedad começou a ultrapassar os rivais mais vezes na classificação final. Nada que tenha acirrado os ânimos entre as torcidas, ainda assim, em anos de reabertura na Espanha. Pelo contrário, os clubes deram as mãos com mais força num episódio histórico ocorrido em 1976. Em 5 de dezembro daquele ano, antes do dérbi, os capitães José Ángel Iribar e Inaxio Kortabarría entraram em campo no Estádio de Atotxa carregando a bandeira basca. Naquele momento, o símbolo regional era proibido, não apenas pelo nacionalismo reprimido, mas também pela relação com atos terroristas do ETA. Entretanto, 13 meses após a morte de Franco, os clubes bascos se prontificaram a se manifestar e mostrar como novos tempos chegavam. O público aplaudiu efusivamente o ato político. Aquela bandeira ilegal foi confiscada por policiais. Porém, dois anos depois, a comunidade autônoma do País Basco adotou o símbolo oficialmente.

Aquele momento emblemático antecedeu o período mais glorioso do dérbi basco, na virada aos anos 1980. Durante quatro temporadas, de 1980/81 a 1983/84, o troféu de La Liga se dividiu entre as duas potências bascas. A Real Sociedad faturou seus dois primeiros títulos na competição, bicampeã nos dois primeiros anos deste intervalo. O Athletic seguiu os passos, bicampeão logo na sequência, faturando seu sétimo e seu oitavo troféu no Campeonato Espanhol. Também não foi aquela corrida particular que desencadeou animosidades – aliás, muitos dos jogadores da época eram amigos e costumavam confraternizar juntos, em Bilbao o San Sebastián. A Real foi proclamada campeã em 1982 com a vitória por 2 a 1 no clássico em Atotxa. Curiosamente, o Athletic também celebrou o feito em 1984 vencendo os rivais por 2 a 1 em San Mamés.

Naquela gloriosa década de 1980, inclusive, aconteceram os últimos feitos na Copa do Rei. O Athletic conquistou seu título mais recente no torneio em 1983/84, superando a Real Sociedad nas oitavas de final. Em 1984/85, os Leones venceriam o novo dérbi nas quartas de final, mas deixaram o troféu escapar na decisão. Já em 1986/87, seria a vez dos Txuri-urdin ganharem dos rivais na semifinal, antes de encerrarem o jejum de 78 anos na copa com a reconquista em cima do Atlético de Madrid na finalíssima. Desde então já se passaram 34 anos e os bascos ainda aguardam o momento em que o troféu nacional retornará à comunidade autônoma.

Tanto Athletic Bilbao quanto Real Sociedad precisaram se readaptar a anos transformadores do futebol nestas três décadas. Permaneceram como clubes tradicionalíssimos no Campeonato Espanhol e por vezes sonharam alto, mas sem necessariamente faturar La Liga ou a Copa do Rei. A própria política de contratações mudou. A Real primeiro admitiu jogadores estrangeiros, antes de passar a contar gradualmente com espanhóis nascidos em outras regiões. Os bascos, ainda assim, são maioria no elenco – resultado de um fortíssimo investimento nas categorias de base. O Athletic também ampliou as áreas em que passou a recrutar jogadores e começou a aceitar atletas sem origem basca, desde que tivessem nascido na própria região.

Neste ponto, surgiram algumas fricções entre os rivais – com um descontentamento que resultou em rompimento institucional, mas não em violência ou qualquer problema do tipo entre torcedores. A disputa se concentra no suposto aliciamento de jogadores txuri-urdin pelos Leones. O caso mais famoso aconteceu em 1995, quando Joseba Etxeberría era uma das principais promessas donostiarras e os bilbaínos quebraram um acordo de cavalheiros, pagando a multa rescisória. O atacante virou uma lenda em San Mamés, vestindo a camisa alvirrubra por 15 anos. Já o desentendimento mais recente aconteceu em 2018, quando o Athletic pagou a multa de Iñigo Martínez, ídolo da Real. O zagueiro, que fez juras de amor aos alviazuis, tinha recusado uma “cláusula anti-Athletic” em seu contrato. Foi uma postura diferente da vista com Mikel Oyarzabal, que recusou as investidas insistentes dos Leones.

O negócio também explicita algumas diferenças entre as agremiações. O Athletic possui uma estrutura mais forte, com uma massa maior de torcedores e apoio mais claro das autoridades no País Basco. O clube não costuma ser tão abalado pelas crises e, não à toa, nunca foi rebaixado no Campeonato Espanhol. Porém, com o mercado restrito ao manter sua fidelidade aos jogadores bascos nas contratações, muitas vezes os Leones acabam indo para cima de talentos dos vizinhos. Enquanto isso, dificilmente liberam um jogador de destaque, quase sempre vendidos apenas depois de se acionar a cláusula de rescisão. Tal bonança nos cofres permitiu que os alvirrubros se modernizassem na última década, com a construção do novo San Mamés e de um excelente centro de treinamentos em Lezama. Levaram duas Supercopas no período, mas ainda falta um troféu mais condizente à história alvirrubra.

A Real Sociedad, por outro lado, possui uma realidade econômica menos abundante e precisou lidar com a má gestão no início do século. Os txuri-urdin caíram à segunda divisão em 2007, quatro anos depois de um inesquecível vice na Liga, e precisaram renegociar as enormes dívidas, num momento em que a falência era possível. Entretanto, depois de três anos seguidos fora da elite, as bases começaram a se solidificar e permitiram o período de sucesso atual, com bons investimentos na equipe de cima e na formação de jogadores. Outro símbolo desse fortalecimento aconteceu com a reconstrução do Estádio de Anoeta, agora chamado de Reale Arena por questão de naming rights. A reinauguração da praça esportiva em 2019 demarca essa virada, com dívidas sanadas, ainda que os torcedores não tenham conseguido aproveitar o estádio por muito tempo.

Outra diferença marcante entre Real Sociedad e Athletic Bilbao, sobretudo neste momento, acontece em campo. São duas equipes de estilos distintos. Os donostiarras possuem uma característica de jogo mais técnica, com a valorização da ofensividade e da troca de passes. A chegada de David Silva, nevrálgico ao sistema de Imanol Alguacil nesta temporada, é simbólica. Enquanto isso, por mais que os bilbaínos tenham célebres linhas ofensivas em seu passado vitorioso, também é um clube conhecido pelo espírito de luta e pelo futebol aguerrido. Foi algo muito característico nas glórias dos anos 1980 e que se nota com Marcelino García Toral. O futebol dos Leones é mais fulminante, contando com a velocidade dos homens de frente. Uma pena somente que Aritz Aduriz tenha se aposentado antes da decisão, por conta de suas lesões, sem poder servir de grande liderança em campo. Ainda assim, o artilheiro integra a delegação rumo a Sevilha para incentivar os antigos companheiros.

E o melhor da final basca acontecerá mesmo nas ruas, onde ela poderá ser sentida com mais intensidade, por mais que a pandemia limite bastante. Normalmente, os jogos entre Athletic e Real costumam ser uma comunhão entre torcedores. Pessoas confraternizam na chegada ao estádio, sem aparatos de segurança especiais, e se misturam também nas arquibancadas. Além disso, para esquentar os motores além do futebol, os arredores de San Mamés e Anoeta abrigam até mesmo concursos de poesias tradicionais entre as duas torcidas. Sinal maior de como o entendimento da rivalidade não descamba a sentimentos agressivos, mas tem consciência de seu papel à cultura e à identidade no País Basco. Depois de cada clássico, as cores voltam a se misturar nos bares e nos famosos restaurantes locais, entre famílias e amigos que sabem como a contraposição não dura mais que 90 minutos.

Às vésperas da final, foi difícil segurar as duas torcidas. Milhares de pessoas foram às portas dos centros de treinamentos de Athletic Bilbao e Real Sociedad, numa calorosa despedida antes da viagem para Sevilha. Os dois clubes acabaram se contrapondo às aglomerações, assim como as autoridades locais, mas pecaram em conter os riscos. Enquanto isso, milhares e milhares de casas em todo o País Basco estão coloridas de vermelho ou azul, num movimento que já tinha ocorrido em abril de 2020, na data original da decisão adiada. O orgulho é enorme, assim como a gana pela vitória. O clima familiar não se perde, entre dois clubes que compõem dois lados de um mesmo sentimento. Porém, ninguém abre mão de poder festejar no Estádio Olímpico de La Cartuja, ainda mais considerando a ansiedade que se arrastou ao longo de um ano.

Athletic Bilbao x Real Sociedad acontece neste sábado, às 16h30 (horário de Brasília), com transmissão do Fox Sports. Confira a programação completa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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