Copa do Rei
Tendência

Há uma década, o Atlético de Madrid conquistava uma marcante Copa do Rei e encerrava o jejum de 14 anos no clássico com um épico no Bernabéu

Há dez anos, o Atlético de Madrid deu sua prova cabal de que poderia competir novamente pelos títulos na Espanha, ao conquistar a Copa do Rei na prorrogação contra um poderoso Real Madrid

Diego Simeone iniciou uma das eras mais vitoriosas do Atlético de Madrid desde que assumiu o comando do clube. Os colchoneros conquistaram dois títulos de La Liga e dois da Liga Europa, enquanto alcançaram ainda duas finais da Champions League. Ao longo desses quase 12 anos de trabalho, a Copa do Rei pode parecer um troféu menor. Não é, nem de longe. A conquista do torneio em 2012/13 possui um simbolismo enorme ao contexto dos rojiblancos: foi o momento em que o time mostrou que, de fato, poderia competir novamente com os gigantes do país. Numa partida memorável realizada há exatos 10 anos, o Atleti venceu o Real Madrid por 2 a 1 no Estádio Santiago Bernabéu e encerrou um hiato de quase 14 anos sem ganhar um dérbi sequer. Foi uma noite de personagens especiais – entre eles, Thibaut Courtois, que depois faria história do outro lado da rivalidade.

Aquela era a primeira temporada completa de Diego Simeone como técnico do Atlético de Madrid. E seu toque de mágica tinha sido notado meses antes, com seus primeiros troféus. Cholo assumiu com o bonde andando em dezembro de 2011, após a demissão de Gregorio Manzano, eliminado dias antes pelo Albacete na Copa do Rei. O antigo ídolo reergueu os colchoneros e colheu os primeiros frutos somente cinco meses depois. A conquista da Liga Europa de 2011/12, afinal, mostrou tudo o que Simeone era capaz de provocar: o Atleti decolou nos mata-matas continentais, com nove vitórias em nove partidas. Os 3 a 0 sobre o Athletic Bilbao em Bucareste, com show de Radamel Falcao García, coroaram os campeões. De quebra, no início da temporada seguinte, os rojiblancos ainda atropelaram o Chelsea nos 4 a 1 que valeram o título da Supercopa.

O Atlético de Madrid, em situação bem mais limitada que a atual no aspecto financeiro, nem fez muitas contratações para a temporada 2012/13. O clube focou em manter a força do elenco moldado por Simeone. Cristian Rodríguez e Emre Belözoglu eram raríssimas novidades, enquanto Diego Costa retornava de seis meses emprestado ao Rayo Vallecano. Por outro lado, um número razoável de veteranos fez as malas do Vicente Calderón. Aquele foi o momento de despedida a Luis Amaranto Perea, Antonio López e Paulo Assunção. Os colchoneros também fizeram dinheiro com as vendas de Eduardo Salvio e Álvaro Domínguez. Diego Ribas foi outro a sair, ao final de seu empréstimo junto ao Wolfsburg. Restavam os outros heróis da Liga Europa.

O nome intocável no gol do Atlético de Madrid era Thibaut Courtois. Emprestado pelo Chelsea desde a temporada anterior, como substituto de David de Gea, o belga confirmou todas as expectativas sobre seu potencial. Tinha acabado de completar 20 anos em maio de 2012. A linha de zaga também reunia seu quarteto onipresente. Juanfran estava na segunda temporada após chegar do Osasuna, enquanto Filipe Luís tinha vindo um ano antes do Deportivo de La Coruña. Eram duas figuras de enorme serventia tática para Simeone. De qualquer maneira, a principal dupla ficava no miolo da defesa. Diego Godín havia desembarcado do Villarreal em 2010 e oferecia uma dose de firmeza entre os zagueiros. Miranda chegou do São Paulo em 2011 e garantia qualidade técnica. Formavam uma parceria entrosada, entre as melhores da Europa na época.

A referência principal no meio-campo era Gabi. O capitão tinha retornado ao Atlético de Madrid na temporada anterior, após passar pelo Zaragoza, e era a voz de Simeone na faixa central. Tinha a companhia de Mário Suárez ou Tiago Mendes, as duas principais alternativas para acompanhá-lo na cabeça de área. O lado direito era ocupado por Koke, o herdeiro da braçadeira que se tornou cada vez mais frequente nas temporadas anteriores, mas que naquele momento se firmava como titular. E se o garoto dava qualidade na batida da bola, o lado esquerdo era mais incisivo com Arda Turan. O turco era outra novidade do ano anterior e começava a se soltar mais como homem de chegada. De volta de um empréstimo ao Osasuna, Raúl García servia de curinga.

Já na frente, o Atlético de Madrid eternizava uma de suas duplas mais célebres. Radamel Falcao García atravessava a melhor fase de sua vida. Tinha jogado muita bola no Porto e conseguiu se sair ainda melhor no Atlético. Sua temporada de estreia foi avassaladora, principalmente pela Liga Europa. O que nem todo mundo se lembra é que El Tigre conseguiu até ir além no segundo ano, inclusive com mais gols por La Liga. Seguia implacável. A companhia ao seu lado era Diego Costa, um complemento perfeito, sobretudo pela forma como brigava a cada bola. O sergipano era ainda um coadjuvante, que acabava de retornar de um bom empréstimo ao Rayo Vallecano. Gradativamente, mostrava seu valor e foi bem demais naquela Copa do Rei. Talismã na Liga Europa, Adrián López servia como uma alternativa para as meias ou para o ataque.

A consolidação de seu trabalho permitiu que Diego Simeone moldasse a formação tática. Em seu primeiro semestre no clube, muitas vezes utilizou um 4-2-3-1 ou um 4-3-3. Já na primeira temporada completa, o técnico consolidaria suas ideias com o 4-4-2 que marcou seu sucesso inicial no Vicente Calderón. Cholo passou a alinhar duas linhas de marcação muito sólidas, enquanto dava fluidez à dupla ofensiva composta por Falcao García e Diego Costa. A partir de então, o Atleti conseguiu resultados mais consistentes e mostrou que se meteria entre os dois principais concorrentes na Espanha.

O Atlético de Madrid terminou La Liga 2011/12 na quinta colocação, com 44 pontos a menos que o campeão Real Madrid. Por conta disso, precisou se contentar outra vez com a Liga Europa 2012/13, em tempos nos quais o título do torneio não rendia vaga na Champions. E os colchoneros fizeram uma campanha morna, rodando o elenco, sem se importar tanto com a competição que haviam vencido duas vezes nas três temporadas anteriores. Foram 12 pontos conquistados na fase de grupos, em chave que também reunia Hapoel Tel Aviv, Viktoria Plzen e Académica de Coimbra. A eliminação aconteceu nos 16-avos de final, contra o Rubin Kazan de Gökdeniz Karadeniz, José Salomón Rondón, Bibras Natcho e Roman Eremenko. Os russos ganharam por 2 a 0 em Madri e nem o troco por 1 a 0 em Kazan, gol de Falcao, salvou os rojiblancos. Àquela altura, o time mirava La Liga.

O Atlético de Madrid teve um início muito forte no Campeonato Espanhol 2012/13. Os colchoneros somaram 11 vitórias e um empate nas primeiras 13 rodadas. Não à toa, a equipe se colocou como a principal perseguidora do líder Barcelona, enquanto o campeão Real Madrid não fazia uma boa largada. Dois baques para o Atleti aconteceram em dezembro, com os 2 a 0 do Real no Bernabéu e os 4 a 1 do Barça no Camp Nou. Os rojiblancos até fecharam o primeiro turno na segunda colocação, mas os blaugranas conseguiram abrir 11 pontos de vantagem. Não seria possível acompanhar o ritmo do time de Tito Vilanova, que, tal qual os merengues, também bateria a marca de 100 pontos em La Liga.

O desempenho do Atlético de Madrid até caiu um pouco mais durante o segundo turno. Os empates se tornaram mais frequentes, assim como Real Madrid e Barcelona também saíram com vitórias do Vicente Calderón. Os colchoneros, apesar de tudo, fecharam a campanha com louváveis 76 pontos. Eram 20 pontos a mais que a campanha anterior. Mesmo com a ultrapassagem dos merengues pela segunda colocação, o terceiro lugar rendia a melhor campanha do Atleti desde o título nacional de 1995/96. Iniciava-se ali uma série de classificações à Champions League que perdura até hoje, sem que nunca mais os rojiblancos ficassem abaixo do quarto lugar. E a chance de comemoração paralela acabou oferecida pela Copa do Rei.

O Atlético de Madrid criou uma relação vitoriosa com a Copa do Rei a partir da década de 1960. Foram três títulos do torneio entre 1960 e 1965, em boa fase que também permitiu a conquista da Recopa Europeia de 1962. Os colchoneros voltaram a celebrar a copa em 1972 e 1976, antes que o torneio ocupasse uma lacuna em tempos de seca em La Liga. Durante o jejum de 19 anos no Campeonato Espanhol, o Atleti levantou a Copa do Rei três vezes – em 1985, 1991 e 1992. Quando a seca acabou na Liga, também teria a dobradinha em 1995/96. Porém, depois disso, os hiatos na liga e na copa seriam paralelos. Os madrilenos amargaram três vices na Copa do Rei de 1999 a 2010, incluindo uma final perdida justo no ano do rebaixamento à segundona.

A campanha do Atlético de Madrid na Copa do Rei de 2011/12 tinha sido a pior do time em uma década, com as duas derrotas para o Albacete que renderam a demissão de Gregorio Manzano. Diego Simeone tentaria dar uma nova impressão ao torneio. E evitou a zebra nos 16-avos de final de 2012/13, diante do Real Jaén, então na terceira divisão. O Atleti emplacou um 3 a 0 na ida, cheio de reservas. Diego Costa, Adrián e Raúl García anotaram os gols. Já no Vicente Calderón, bastou o 1 a 0 para selar a passagem, com tento de Raúl García.

O sarrafo aumentou nas oitavas de final. O Getafe pintava pelo caminho, com uma equipe que tinha Miguel Moyá, David Abraham, Mehdi Lacen e Abdelaziz Barrada entre os destaques. O Atlético de Madrid passou graças aos 3 a 0 na ida, dentro do Calderón. Courtois acumulava boas defesas, até que o primeiro gol saísse num pênalti sofrido e convertido por Diego Costa. Já no segundo tempo, as chances se acumulavam ao Atleti. Tiveram gol anulado, bola na trave, defesaça de Moyá. A bola entrou num rebote conferido por Filipe Luís. Por fim, Diego Costa fechou a contagem. O empate por 0 a 0 no Coliseum Alfonso Pérez confirmou a classificação.

Um adversário mais duro para o Atlético pintou nas quartas de final. O Betis dirigido por Pepe Mel reunia figuras como Beñat, Joel Campbell, Rubén Castro e Jorge Molina. Nenhum problema para os colchoneros, que de novo encaminharam a classificação na ida. A vitória por 2 a 0 no Calderón concedia uma ótima vantagem. O Atleti dominou o primeiro tempo e abriu a contagem com um cruzamento perfeito de Raúl García, que Falcao García definiu de cabeça. Antes do intervalo, Diego Costa bagunçou pela esquerda e a sobra do cruzamento ficou para Filipe Luis chutar firme. Quando os beticos tentaram descontar, Courtois fez milagre. Chegou a operar uma defesa tripla. Dentro do Benito Villamarín, na volta, o empate por 1 a 1 bastou. Diego Costa aproveitou um erro da zaga para anotar o primeiro e Molina só descontou num pênalti no final.

A semifinal guardou um adversário acostumado a dar trabalho nos mata-matas, o Sevilla. Os andaluzes estavam sob as ordens de Unai Emery e desfrutavam de uma equipe muito competitiva, com Álvaro Negredo, Jesús Navas, Ivan Rakitic, José Antonio Reyes, Gary Medel e Coke. Como de praxe, o triunfo na ida dentro do Calderón valeu demais ao Atlético, com o placar de 2 a 1. O primeiro tempo já foi bastante intenso, mas sem gols. Diego Costa perdeu grande chance no mano a mano com o goleiro Beto. Só na volta para a segunda etapa é que os gols saíram. Aos quatro minutos, Emir Spahic cometeu pênalti e ainda foi expulso, para Diego Costa assinalar o primeiro. Do outro lado, porém, Godín também cometeu um penal e recebeu o vermelho. Negredo empatou. A vitória se confirmou aos 26, com o terceiro penal da noite, de novo batido por Diego Costa. Os sevillistas terminaram o duelo com nove homens, já que Fernando Navarro também ganhou vermelho no final.

O jogo de volta não decepcionou em emoção. Sob uma forte chuva no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán, as duas equipes empataram por 2 a 2. O Atlético de Madrid encaminhou a classificação com um início de partida dos sonhos. Diego Costa abriu o placar aos seis minutos, ao limpar a marcação e chutar no cantinho. Aos 28, Diego Costa serviu e Falcao se antecipou à marcação para fuzilar o segundo. Navas descontou com um golaço aos 38, em chute que beliscou a trave antes de entrar. Os andaluzes precisavam de três gols a esta altura, mas não estavam com a pontaria em dia, com muitos erros nas conclusões. E as expulsões voltaram a minar a equipe, com o vermelho para Medel aos 30 do segundo tempo. Rakitic ainda empatou aos 45, mas Geoffrey Kondogbia também foi expulso por uma entrada duríssima sobre Diego Costa no apagar das luzes. O Atleti seguia em frente.

Por fim, a decisão guardava uma pedreira: o Real Madrid. A sede da final ainda não tinha sido determinada antes da classificação dos dois madrilenos. Os rivais concordaram que a partida acontecesse na capital e, por ter maior capacidade, o Santiago Bernabéu acabou privilegiado em detrimento do Vicente Calderón. Cada equipe teria 30 mil ingressos, enquanto os outros 20 mil seriam distribuídos pela federação espanhola. Apesar das arquibancadas teoricamente divididas, não deixava de ser um terreno hostil para os colchoneros.

Aquela não era a temporada mais estável para o Real Madrid. Os merengues não conseguiram perseguir o Barcelona pelo título de La Liga. Já na Champions League, apesar das classificações sobre Manchester United e Galatasaray, as semifinais terminaram em decepção com a goleada aplicada pelo Borussia Dortmund. A Copa do Rei seria o prêmio de consolação. José Mourinho estava na corda bamba em Valdebebas, até pela relação conturbada com algumas lideranças do clube, em especial Iker Casillas. Àquela altura, outros nomes importantes dos merengues tinham se voltado contra o comandante. De qualquer forma, dava para pelo menos erguer uma taça e aliviar a pressão.

Aquele time do Real Madrid, no papel, era bem superior ao do Atlético de Madrid. Mas tinha também seus problemas. Diego López vivia grande fase no gol. Michael Essien estava improvisado na lateral direita, com Fábio Coentrão na esquerda. Sergio Ramos e Raúl Albiol formavam a dupla de zaga. O meio-campo tinha a sustentação de Xabi Alonso e Sami Khedira, além de Luka Modric na armação. Mesut Özil dava capacidade de criação na ponta direita, enquanto Cristiano Ronaldo era uma arma fatal na esquerda. No centro do ataque, o homem de referência era Karim Benzema. O banco de reservas estrelado ainda reunia Iker Casillas, Ricardo Carvalho, Kaká, Ángel Di María e Gonzalo Higuaín.

O Real Madrid também tinha a seu favor o retrospecto. O Atlético de Madrid não vencia um dérbi desde outubro de 1999, com um 3 a 1 no Bernabéu exatamente na temporada do rebaixamento. Depois do retorno, os colchoneros não sabiam mais como derrotar os merengues. Desde então, o Real Madrid somava 19 vitórias e seis empates no dérbi. A maior parte dos jogos eram por La Liga, mas os madridistas despacharam os rivais nas quartas de final da Copa do Rei de 2010/11, com dois triunfos. Pior ainda, os anos mais recentes tinham sido marcados por algumas goleadas e viradas. A pressão pelo fim do jejum era enorme sobre os colchoneros.

Diego Simeone escalou o melhor que tinha à disposição para a final: Courtois, Juanfran, Godín, Miranda, Filipe Luís; Koke, Mario Suárez, Gabi, Arda Turan; Falcao García, Diego Costa. O banco também tinha alternativas como Tiago, Adrián, Raúl García e Cebolla Rodríguez. Seriam eles a fazer história diante dos 80 mil dentro do Bernabéu.

Os primeiros minutos de jogo no Bernabéu pareciam uma continuação do desastre do clássico no Vicente Calderón, duas semanas antes. O Real Madrid havia vencido de virada, mesmo com um time misto. O Atlético estava amedrontado diante do poderio dos rivais. E os merengues precisaram de apenas 13 minutos para abrir o placar na final da Copa do Rei, em uma cabeçada soberana de Cristiano Ronaldo após cobrança de escanteio. O gol, no entanto, teve efeito contrário do que acontecia costumeiramente com os colchoneros nos dérbis. Em vez de cair de joelhos, a equipe de Diego Simeone ficou em pé e partiu para cima dos merengues. Aproximando-se cada vez mais da área adversária, chegou ao empate aos 35 minutos da etapa inicial. Radamel Falcao García foi genial na construção da jogada, que terminou com Diego Costa estufando as redes. O Tigre deu três dribles secos em Albiol, antes de enfiar a bola para o companheiro disparar e definir na saída de Diego López.

O Real Madrid tentou uma resposta imediata, mas o tiro de Mesut Özil parou na trave. O poste, aliás, teria papel preponderante para safar o Atleti. Na volta do intervalo, o jogo se abriu, com as duas equipes se arriscando mais. Todavia, as melhores chances se concentraram com os merengues. Primeiro, Courtois operou um milagre numa bola por cobertura. Depois, Benzema acertou a trave e, no rebote, Juanfran fez uma defesa em cima da linha, desviando com o joelho o chute à queima-roupa de Özil. E Cristiano Ronaldo foi o terceiro a esbarrar no poste, em cobrança de falta.

Os erros excessivos abalaram o Real Madrid. A partir de então, o jogo ficou bem mais pegado, com cartões distribuídos para os dois lados. À beira do campo, José Mourinho foi expulso por reclamar excessivamente sobre a marcação de uma falta. E os minutos finais do tempo normal contaram com novo momento de superioridade do Atlético, aproveitando bem as laterais do campo e apostando no jogo aéreo, ainda que sem obter maiores resultados. Com a persistência do empate, a final seguiu para a prorrogação.

Mourinho tentou dar sangue novo ao Real Madrid, realizando as três alterações de uma só vez. Arbeloa, Di María e Higuaín entraram. Entretanto, o Atlético aproveitou o embalo para chegar ao gol da vitória no primeiro tempo extra. Depois de Diego López fazer grande defesa diante de Diego Costa, Miranda deu o golpe fatal. Num cruzamento de Koke após escanteio, o zagueiro se antecipou a Diego López e concluiu de cabeça. O tento que encerrou os 14 anos de afligiam o Atleti.

Diante da desvantagem, o Real Madrid partiu para cima em busca do empate. E parou em Courtois, gigantesco debaixo das traves. O belga primeiro fez o impossível com os pés diante de Higuaín à queima-roupa, antes de espalmar um chute de Özil que tinha destino certo. O alemão estava com a meta escancarada à sua frente, quando o goleiro apareceu do nada para negar o tento. Mais uma vez, os erros afetaram os merengues. Cristiano Ronaldo tentou agredir Gabi e foi expulso, desencadeando uma confusão entre as duas equipes. Não foram os momentos nervosos, porém, que barrariam a vitória de um Atlético com a cabeça no lugar, erguida. Depois de decepcionar a torcida tantas vezes, os colchoneros demonstraram o brio necessário para superar os rivais.

A comemoração do Atlético de Madrid seria efusiva. E nem tinha ser como diferente. Um peso saía das costas do clube, depois de tantos anos amargos no clássico. O Bernabéu virava palco de uma grande festa, que não acabaria naquele dia. Aquela Copa do Rei foi tão importante que os jogadores colchoneros desfilaram nas ruas da capital com a taça. Milhares de rojiblancos foram cortejar os seus heróis, que encerravam um jejum de 17 anos nas competições nacionais.

E não pararia ali. Aquela conquista da Copa do Rei deu um empurrão para o Atlético de Madrid acreditar mais. O time conquistou La Liga depois de 18 anos, em 2013/14, e também chegou à final da Champions League. As decisões continentais ainda fizeram a supremacia do Real Madrid pesar no clássico, mas o retrospecto se tornou bem mais equilibrado desde aquele título na Copa do Rei. Foram 14 triunfos merengues e nove colchoneros desde aquele 17 de maio de 2013. Alguns personagens se tornaram ainda maiores no Atleti – em especial Simeone, mas também Godín, Miranda, Filipe Luís, Gabi, Koke, Arda Turan, Diego Costa. Enquanto isso, a boa impressão deixada por Courtois ficaria na memória. Tanto é que o Real Madrid, que antes tanto sofreu com o arqueiro, passou a venerá-lo depois da contratação em 2018 – uma traição que os rojiblancos não aceitam bem, mesmo reconhecendo o protagonismo que o belga teve na Copa do Rei.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo