Os 10 anos da campanha demolidora de Falcao García na Liga Europa com o Atlético de Madrid
Falcao García teve atuações brilhantes na Liga Europa 2011/12, especialmente na decisão contra o Athletic Bilbao
Radamel Falcao García teve uma carreira de altos e baixos, na qual compartilhou a idolatria de grandes torcidas e também a decepção em clubes de peso. As lesões certamente foram um porém na caminhada do colombiano. Mas, antes que elas atravancassem sua trajetória, como era bom ver El Tigre de Santa Marta em seu auge, facilmente entre os melhores centroavantes do mundo. Nenhuma outra competição exibiu tão bem o poder destrutivo de Falcao García quanto a Liga Europa. E, há dez anos, o Atlético de Madrid aproveitou uma campanha espetacular do matador para ser campeão. O camisa 9 já vinha do título e da artilharia com o Porto, e repetiu a dose com o Atleti em 2011/12. Seria uma conquista também emblemática para Diego Simeone, campeão logo em seu primeiro semestre na casamata colchonera.
A Liga Europa já tinha simbolizado a reconstrução do Atlético de Madrid pouco antes, em 2010. Os colchoneros passaram pela segunda divisão e tiveram momentos bastante difíceis, até que o troféu continental recobrasse o prestígio da agremiação. Aquela seria uma conquista marcada, em especial, por Diego Forlán e Sergio Agüero. A dupla de ataque atravessava uma fase avassaladora e conduziu o Atleti rumo ao topo do pódio, em final vencida contra o Fulham. Porém, tamanho o sucesso, estava claro que a equipe se reestruturando financeiramente não seguraria os dois por muito tempo. Sem a vaga na Champions em 2010/11, os rojiblancos viram Forlán arrumar as malas para a Internazionale e conseguiram uma bolada com a saída de Agüero para o Manchester City.
O Atlético de Madrid recebeu €40 milhões pela venda de Agüero. Reinvestiram esse dinheiro totalmente em Falcao García, ao pagarem €40 milhões pelo centroavante do Porto. O negócio parecia uma aposta arriscada na época. O colombiano tinha surgido muito bem no River Plate e atravessou duas grandes temporadas em Portugal. Todavia, o preço estava inflado pelo desempenho inacreditável de El Tigre na Liga Europa 2010/11. O artilheiro anotou absurdos 17 gols em 14 partidas pela competição, dez a partir das quartas de final. Chegou a emplacar quatro só na ida da semifinal diante do Villarreal, antes de selar o título por 1 a 0 contra o Braga. Sem dúvidas, Falcao chegava em alta ao Vicente Calderón. A dúvida era se ele conseguiria repetir aquele nível.

Aquela seria uma temporada de transição no elenco do Atlético de Madrid, aliás, indo além do ataque. David de Gea havia sido vendido para o Manchester United e, em reposição, Thibaut Courtois veio emprestado do Chelsea, após estourar no Genk muito cedo. Elias e Tomas Ujfalusi eram outros que faziam as malas. Enquanto isso, a lista de reforços incluía Gabi, de volta ao seu clube formador após quatro anos no Zaragoza. O meio-campo também ganhava Tiago e Diego Ribas. Mais à frente, apareciam Adrián López e Arda Turan, este trazido a peso de ouro do Galatasaray. Já para o miolo de zaga, Miranda era um achado, vindo de graça do São Paulo.
Uma formação clássica do Atlético de Madrid se desenhava a partir de então, pronta para render conquistas excepcionais ao clube. Diego Godín, Juanfran, Filipe Luís, Mário Suárez, Koke e Eduardo Salvio estavam à disposição. O grupo também reunia medalhões do porte de Luis Amaranto Perea e Paulo Assunção. O problema estava no comando técnico. Afinal, o Atleti iniciou a temporada 2011/12 sob as ordens de Gregorio Manzano. O rodado treinador tinha seus principais feitos restritos a equipes pequenas do Campeonato Espanhol. Conquistou a Copa do Rei à frente do Mallorca, assim como aterrorizou Real Madrid e Barcelona. Porém, em oportunidades maiores, não surpreendeu tanto. Inclusive tinha passado pelo Atleti em 2003/04, satisfeito por levar a equipe à Copa da Uefa dois anos depois do acesso. Antes de voltar ao Calderón, teve uma passagem não mais que razoável pelo Sevilla.
O Atlético de Madrid passou longe de empolgar na primeira metade da temporada 2011/12. A equipe oscilou muito no Campeonato Espanhol. As goleadas anotadas contra rivais modestos se alternavam com goleadas sofridas diante dos gigantes. Os colchoneros tomaram de 5 a 0 na visita ao Barcelona e também engoliram um 4 a 1 diante do Real Madrid. A equipe vagava pela zona intermediária da tabela e fechou 2011 no modesto décimo lugar. Um pouco de ânimo era garantido na Liga Europa. O Atleti não era exatamente um time que causava sensação, mas passou num grupo duro rumo aos mata-matas.

Durante as preliminares, o Atlético de Madrid superou Strömsgodset e Vitória de Guimarães com quatro vitórias. Já na fase de grupos, o time até começou vencendo o Celtic, mas o empate com o Rennes e a derrota para a Udinese colocavam em xeque a classificação. A recuperação veio apenas na segunda metade da chave, com três vitórias consecutivas nos jogos de volta. Falcao García começava a somar seus gols, sempre dentro do Calderón. Anotou o primeiro, de cabeça, nos 2 a 0 sobre o Celtic. Durante a segunda metade da campanha, fechou as contas nos 4 a 0 para cima da Udinese. E garantiu de pênalti o primeiro nos 3 a 1 diante do Rennes. De qualquer maneira, ainda não tinha atingido a média dos tempos de Porto.
O Atlético de Madrid ficou com a primeira colocação do grupo e se classificou aos 16-avos de final. Gregorio Manzano não seguiria para continuar essa história. A gota d’água para o treinador aconteceu no último jogo de 2011, quando a equipe perdeu pela segunda vez para o Albacete e acabou eliminada na Copa do Rei. Os resultados domésticos não se sustentavam. Para o cargo, os colchoneros buscaram um antigo ídolo nos tempos de jogador que despontava como um promissor treinador: Diego Simeone. As rusgas do elenco com o antecessor ficaram para trás e o argentino tiraria o máximo do espírito competitivo de seus comandados. Falcao García seria um dos tantos a se beneficiar.
A reação do Atlético de Madrid começou no Campeonato Espanhol. Logo em janeiro, a equipe fez 3 a 0 no Villarreal e 4 a 0 na Real Sociedad. Falcao García acumulou cinco gols nas duas partidas. A equipe pegou embalo e passou a frequentar a zona de classificação às copas europeias em La Liga. Contudo, o objetivo flagrante era a Liga Europa. Seria a competição na qual Simeone poderia extrair o melhor de seu grupo. E foi isso o que aconteceu a partir dos 16-avos de final, contra a Lazio – outro antigo time de Simeone. Os laziali eram treinados na época por Edy Reja. Tinham uma boa equipe que incluía Miroslav Klose, Stefano Mauri e Federico Marchetti. Também havia uma colônia brasileira composta por Hernanes, Matuzalém e André Dias.

O duelo seria resolvido desde o Estádio Olímpico. O Atlético de Madrid ganhou por 3 a 1, de virada, com ampla participação de Falcao. Klose anotou o primeiro gol logo cedo, num rebote. A virada começou numa bola ajeitada por Falcao de cabeça, que Adrián definiu. Com oportunismo, Falcao marcaria seu primeiro ainda na etapa inicial, após passe de Diego. E o centroavante fechou a conta em outro lance na pequena área, na segunda etapa, agora com assistência de Adrián. Dentro do Calderón, uma cabeçada de Diego Godín concluiu a missão para o triunfo em 1 a 0 e confirmou a classificação colchonera.
As oitavas de final aconteceram diante do Besiktas. Carlos Carvalhal era o treinador e tinha entre seus destaques alguns compatriotas, incluindo Ricardo Quaresma, Hugo Almeida, Simão Sabrosa e Manuel Fernandes. Não foram páreos ao Atlético de Madrid, que fez 3 a 1 logo na ida, dentro da Espanha. Falcao seria coadjuvante desta vez, em noite com dois gols de Eduardo Salvio em duas assistências de Koke. Adrián assinalou o terceiro e Simão descontou no fim. E nem mesmo a pressão da torcida turca em Istambul adiantou: o Atleti ganhou por 3 a 0. Em grande fase, Adrián fez o primeiro num presente de Arda Turan. Isso até Falcao dar seu show no segundo tempo. O colombiano anotou o segundo numa disputa no alto com o goleiro e deu a assistência para Salvio marcar o terceiro num contragolpe. O resultado revoltou os torcedores alvinegros, com direito a invasão de campo.
Embalado na campanha, o Atlético de Madrid cruzou com o Hannover 96 nas quartas de final. A equipe de Mirko Slomka tinha Ron Robert Zieler, Mame Biram Diouf e Lars Stindl entre os bons nomes. Também não suportou a qualidade do time de Simeone. O triunfo por 2 a 1 em Madri começou numa cabeçada de Falcao, após falta cobrada por Gabi. Diouf até empatou, mas Salvio apareceu como herói aos 44 do segundo tempo, ao acertar um chute de fora da área. Na visita à Alemanha, o placar de 2 a 1 se repetiu em circunstâncias parecidas. Adrián fez o primeiro com um carnaval dentro da área e Diouf igualou. O tento da vitória, aos 42 do segundo tempo, foi obra de Falcao. Diego tocou no peito do Tigre, que dominou e logo emendou um belíssimo sem-pulo, direto nas redes.

O maior desafio do Atlético de Madrid até então aconteceu na semifinal. Era um confronto doméstico contra o Valencia. E os Ches atravessavam um período mais sólido, mesmo que precisassem se desfazer de alguns destaques por questões econômicas. A equipe reunia Diego Alves, Adil Rami, Dani Parejo, David Albelda, Jordi Alba, Sofiane Feghouli, Roberto Soldado e Jonas. Unai Emery era o treinador. O favoritismo cabia aos valencianos, mas a chance de começar o duelo no Calderón se provou essencial aos colchoneros.
O Atlético de Madrid venceu o primeiro jogo por 4 a 2. Falcao García anotou o primeiro gol, numa bola que repicou na área para sua cabeçada. Jonas empatou antes do intervalo, mas Miranda e Adrián retomaram a vantagem no segundo tempo. O melhor, porém, ficou para o golaço de Falcao aos 34. O centroavante recebeu o lançamento longo de Diego. Na ponta direita, deu um drible de letra sobre Jérémy Mathieu e logo depois fintou Victor Ruiz. De fora da área, o Tigre experimentou um chutaço de canhota e mandou longe de Diego Alves. O tiro beijou o travessão e se enquadrou como pintura. Ricardo Costa descontou nos acréscimos, mas o prejuízo dos valencianos ainda era grande.
Dentro do Mestalla, o Atlético de Madrid ratificou sua passagem para a final. O triunfo por 1 a 0 se delineou aos 15 do segundo tempo. Num lançamento longo de Diego, Adrián matou no peito e bateu firme. Falcao passou em branco, mas pouco importava: os colchoneros estariam na decisão em Bucareste. E teriam outro encontro doméstico, com a final diante do Athletic Bilbao. Os Leones vinham motivados por uma campanha em que ajudaram a derrubar o Paris Saint-Germain na fase de grupos, antes de classificações marcantes contra Lokomotiv Moscou, Manchester United, Schalke 04 e Sporting.

O Athletic Bilbao apresentava um futebol de alto nível, que desbancou tanto adversários de peso com exibições agressivas. Marcelo Bielsa era o treinador que embalava os sonhos dos torcedores em San Mamés. Já dentro de campo, era uma das equipes mais qualificadas que os Leones já tiveram. Javi Martínez, Ander Herrera e Fernando Llorente eram os destaques individuais. Ídolos como Gorka Iraizoz e Andoni Iraola também estavam presentes. Já a esperança de um lance de habilidade se concentrava sobre um jovem Iker Muniain.
O Atlético de Madrid, independentemente da empolgação do adversário, metia respeito. O time havia vencido os 11 compromissos anteriores pela Liga Europa. E contava com uma escalação forte, que ganharia a verdadeira valorização tempos depois. Courtois era o goleiro, com a linha defensiva formada por Juanfran, Godín, Miranda e Filipe Luis. Gabi era acompanhado por Mário Suárez na cabeça de área. A trinca de meias contava com Diego e Arda Turan abertos, além de Adrián se aproximando pelo meio. Já na frente, Falcao voava baixo. Foi ele quem assombrou os bascos na Arena Nationala.
Poucas finais europeias tiveram uma superioridade tão grande de uma equipe contra a outra. O Atlético de Madrid atropelou o Athletic Bilbao por 3 a 0. Os bascos ficaram devendo, mas os madrilenos também jogaram demais. E muito por conta de Falcao. Bastaram sete minutos para o artilheiro abrir o placar, com um golaço. Lançado por Diego, El Tigre invadiu a área e encarou a marcação de Fernando Amorebieta. O colombiano desmontou o defensor com uma pedalada. Foi quando abriu para o chute de canhota e deu um tapa preciso, com curva, para Iraizoz saltar em vão. O arremate perfeito entrou no ângulo e provava a fase especial do atacante.
O segundo gol de Falcao, aos 33, não ficaria devendo em beleza. Acionado por Arda Turan na área, o centroavante de novo tinha Amorebieta pela frente, num espaço mais curto. Raciocinou bem mais rápido que o zagueiro e também esbanjou agilidade com as pernas. Num giro, o Tigre deixou o beque estatelado no chão. A finalização ótima saiu mais uma vez rumo ao alto, contra um vencido Iraizoz. Do outro lado, o Athletic oferecia pouco. A tentativa de pressão era frustrada pelas finalizações para fora e Courtois também se saiu bem quando necessário.
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Foi uma pena que Falcao não tenha completado sua tripleta no segundo tempo. O centroavante quase marcou outro golaço, ao deixar dois marcadores na saudade. O chute prensado esbarrou na trave de Iraizoz. O golpe de misericórdia, aos 40 da etapa final, coube a Diego – outro grande nome da campanha. E foi outro lindo tento. O meia recebeu na intermediária e passou por dois, antes de chutar no contrapé de Iraizoz. Na comemoração, se ajoelhou no gramado e não escondeu a emoção. O troféu continental ficava com os colchoneros, com todos os méritos por uma campanha impecável nos mata-matas.
“Quando cheguei ao Atlético, já tinha dito. Queria vir a Bucareste para ganhar este título que, graças a Deus, conseguimos. É um presente que poucos jogadores têm a oportunidade de viver. Este título é para todos os meus companheiros, minha família e para os torcedores do Atlético”, declarou Falcao García, logo depois da partida.
Falcao encerrou aquela Liga Europa como óbvio artilheiro, autor de 12 gols. Adrián foi uma grata surpresa na lista de goleadores, em terceiro, com 10 tentos. Diego terminou o torneio ainda como líder em assistências, sete no total, e Arda Turan figurou em quarto na lista, com quatro passes para gols de seus companheiros. O que ficava para a história, de qualquer forma, era o brilho do troféu. E nele estava refletida a imagem do Tigre de Santa Marta, invariavelmente.

A boa fase de Falcao García se estendeu para o Campeonato Espanhol e ele subiu de produção durante o segundo turno, acumulando 24 tentos. Foi o terceiro na lista de artilheiros, atrás de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, mas isso não bastou para que o Atlético de Madrid entrasse no G-4. O clube voltaria a jogar a Liga Europa na temporada seguinte, sem passar dos 16-avos de final, eliminado pelo Rubin Kazan. Falcao anotou apenas mais um gol naquela edição, que já serviu para deixá-lo ainda hoje como terceiro maior artilheiro do torneio. São 31 tentos no total, distribuídos em três campanhas, duas delas arrasadoras.
As alegrias do Atlético de Madrid em 2012/13 iriam além da Liga Europa. Na Supercopa Europeia, contra o Chelsea, o Atleti enfiou 4 a 1 no placar. Falcao García só não fez chover naquela noite, com três gols e uma assistência. Com um honroso terceiro lugar em La Liga, os colchoneros retornaram à Champions – em sequência de classificações que se manteria até hoje. Falcao deu grande contribuição, elevando seus números para chegar a 28 tentos no campeonato. Já a chave de ouro veio com a conquista da Copa do Rei, em cima do Real Madrid, quebrando um jejum de 13 anos sem ganhar um dérbi sequer. Miranda e Courtois seriam os protagonistas mais lembrados, mas Falcao deu a assistência para Diego Costa determinar o empate no tempo normal, antes que o clássico acabasse definido na prorrogação.
Falcao García deixou o Atlético de Madrid ao final daquela temporada. O enriquecido Monaco pagou €43 milhões pelo centroavante. Seria o início de seu declínio, muito por conta da lesão que o tirou da Copa de 2014. De longe, o colombiano veria Diego Costa e David Villa formarem o ataque campeão do Atlético de Madrid em La Liga e vice na Champions. Mas, mesmo fora daquelas campanhas, o Tigre de Santa Marta permanece lembrado como uma das estrelas na sequência de feitos dos colchoneros. Em 91 partidas pelo clube, o centroavante contribuiu com 70 gols. Os mais lembrados são exatamente aqueles dois que valeram a Liga Europa em Bucareste.



