Copa do Rei

Com uma vida dedicada à Real Sociedad, Imanol Alguacil liberou o torcedor dentro de si para celebrar a Copa do Rei

Imanol Alguacil conquistou um título para consagrar seu excelente trabalho à frente da Real Sociedad. O treinador de 49 anos é o principal responsável pelo ótimo futebol exibido pelos Txuri-urdin, que passaram a frequentar a parte de cima na tabela de La Liga e, neste sábado, chegaram ao seu ápice com a conquista da Copa do Rei após 34 anos. O nível da final pode não ter sido dos melhores, mas não era isso que cortaria a alegria dos donostiarras pelo triunfo no maior dérbi basco da história. E o próprio Alguacil se permitiu ligar o “modo torcedor”, vestindo a camisa alviazul e gritando pelo clube a plenos pulmões durante a coletiva de imprensa.

A euforia de Alguacil é plenamente compreensível. O treinador é um homem de Anoeta, afinal. O basco nasceu na cidade de Orio, na província de Gipuzkoa, nas imediações de San Sebastián. Como lateral direito, formou-se nas categorias de base da Real Sociedad e atuou por oito anos na equipe profissional. Embora quase sempre reserva, superou os 100 jogos por La Liga com os alviazuis, antes de assinar com o Villarreal e defender ainda outros clubes das divisões de acesso no fim da carreira. Mas bastou pendurar as chuteiras para retornar à antiga casa.

Treinador desde 2011, Alguacil subiu degrau a degrau na Real Sociedad. Começou nas categorias de base, antes de dirigir a equipe B por quatro temporadas. Foi um dos responsáveis por realizar a transição de muitos jogadores que hoje aparecem como protagonistas com os Txuri-urdin, incluindo Mikel Oyarzabal, autor do gol decisivo contra o Athletic Bilbao. Depois de uma passagem interina pela primeira equipe, Alguacil assumiu a Real de vez em dezembro de 2018. Estreou vencendo o Real Madrid. E não se nega o salto que o clube deu desde a promoção do comandante há dois anos, de ameaçado ao rebaixamento a classificado para as copas europeias. Sobretudo, campeão, como não era desde 1987.

“São tantas sensações… Quase toda Gipuzkoa chorou hoje quando o árbitro apitou o fim da partida. Os oito minutos finais pareciam eternos. Estava tranquilo porque a equipe estava bem, mas sabemos que o Athletic luta até o final e marca gols nos últimos minutos. Seria injusto se a Real não fosse campeã. Estou muito orgulhoso e muito emocionado”, declarou Alguacil, na coletiva depois do jogo.

O treinador ressaltou os méritos de seus comandados: “Tenho que agradecer por ter esses jogadores e esse elenco. Um treinador não é nada sem seus jogadores e o mérito é deles, eu ajudei só um pouquinho. Estive no momento adequado. Eles merecem porque trabalharam uma barbaridade e tenho grande sorte de contar com uma grande equipe. Demonstramos personalidade desde o início, tranquila com a bola, valente na pressão, tentando fazer bem as coisas. Estou muito contente, porque não é fácil fazer nesse cenário e contra esse rival. Há quatro ou cinco anos eu estava na terceira divisão e vocês não sabe a emoção por dar alegria a esta torcida”.

Além disso, Alguacil fez uma dedicatória especial aos torcedores: “Esse triunfo é para a torcida. Eles são nosso motor, ainda que não estivessem nas arquibancadas. Sempre que a equipe perde ou não joga bem, recebemos apoio dos torcedores, e não sabem como se agradece. O que a equipe fez nos últimos dois anos criou esperanças nas pessoas, mas faltava o título. É muito difícil treinar o clube que você ama, mas não há nada mais grandioso que conquistar um título com o time do coração. Dissemos que queríamos fazer algo grande e conseguimos antes do que todos pensavam, mas isso foi graças aos jogadores”.

Por fim, o técnico ainda revelou um drama pessoal e as dificuldades em lidar com a pandemia: “Dedico a esses médicos, a esses enfermeiros que estão lutando na linha de frente e que estão salvando tantas vidas. Isso sim que é meritório. Como treinador, é um orgulho tremendo. Nesta semana um tio meu morreu por causa da COVID-19. Saí de Anoeta chorando ao ver um vídeo dos meus tios e dos meus primos. Minha mulher e meus filhos me apoiam todos os dias, a situação é insuportável, tenho que admitir. Vou do CT para casa e de casa para o CT, uso máscara em casa e tento não jantar com eles. Eles sofreram muito. São muitas emoções contidas. Mas sou muito contente de poder ser treinador da Real e tenho orgulho disso”.

Por fim, na saída da coletiva, Alguacil extravasou. Botou a belíssima camisa desenhada pela Real Sociedad especialmente à final e soltou a voz para bradar o hino. Não há dúvidas sobre seu amor pelos Txuri-urdin. E que, até por essa identificação, o comandante fica ainda mais eternizado no coração de sua apaixonada torcida.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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