Como o Barcelona acumulou R$ 12 bilhões em dívidas, mesmo com faturamento recorde
Problemas financeiros do clube catalão vão além da reforma envolvendo novo Camp Nou
O Barcelona está prestes a ultrapassar a marca de 2 bilhões de euros (R$ 12 bilhões) em dívidas. O número assusta ainda mais quando se nota que, na temporada 2025/26, o clube superou pela primeira vez a barreira de 1 bilhão de euros em receitas, feito alcançado anteriormente apenas pelo Real Madrid.
No entanto, faturar muito não significa necessariamente ter dinheiro disponível. Mesmo com receita recorde, o Barcelona fechou o último exercício com prejuízo de 17,8 milhões de euros. Ao mesmo tempo, a dívida acumulada chegou a 1,84 bilhão de euros em junho de 2026 e tende a aumentar.
Segundo análise feita pelo “The Athletic”, a explicação passa principalmente pelo “Espai Barça”, o projeto de reforma e modernização do Camp Nou, mas não termina nele. Salários elevados, custos operacionais, receitas antecipadas no passado, compromissos com transferências e a necessidade de financiar o próprio fluxo de caixa também fazem parte da equação.
Barcelona: Notícias, rumores, transferências e mercado
A maior dívida do Barcelona vem do novo Camp Nou
Mais de 1,2 bilhão de euros do endividamento atual está diretamente relacionado ao Espai Barça. O projeto, apresentado originalmente há 12 anos, ficou muito mais caro do que o planejado e teve seu orçamento elevado ao longo do processo.
O Barcelona agora estima que precisará de mais 300 milhões de euros em empréstimos para concluir as obras. Se a nova autorização for aprovada, o orçamento total do projeto chegará a aproximadamente 1,8 bilhão de euros, cerca de três vezes o valor previsto inicialmente.
A aposta do clube é que o estádio se pague no futuro. O Camp Nou reformado terá capacidade para cerca de 105 mil torcedores e, quando o Espai Barça estiver completamente operacional, o Barcelona projeta 250 milhões de euros adicionais em receitas por ano. O problema é que o cronograma atrasou e o clube passou a pagar a conta antes de colher todos os benefícios.
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O Barça voltou ao Camp Nou em novembro do ano passado, mas inicialmente com apenas 45.401 lugares disponíveis. A capacidade aumentou para mais de 62 mil em março, ainda muito abaixo do potencial do estádio concluído, previsto para 2028.
Isso explica por que a bilheteria cresceu apenas 3 milhões de euros na última temporada. Em compensação, a receita com hospitalidade disparou em mais de 30 milhões de euros. O estádio, portanto, já começou a ajudar o clube, mas ainda está longe de gerar tudo aquilo que foi projetado.
E a dívida não é barata. O Barcelona gastou mais de 90 milhões de euros em juros na última temporada, enquanto parte das dívidas tem vencimentos altos nos próximos anos: 149 milhões de euros em 2026/27 e 345 milhões de euros em 2027/28, por exemplo.
Barça faturou 1 bilhão de euros, mas continua gastando muito
O Barcelona se recuperou consideravelmente em relação ao auge da crise. Suas receitas comerciais chegaram a 564,1 milhões de euros na última temporada, impulsionadas por contratos com Nike e Spotify. A subsidiária de produtos oficiais do clube, a Barça Licensing and Merchandising, faturou 189,5 milhões de euros.
Mesmo assim, os custos continuam enormes. A folha salarial chegou a 573,7 milhões de euros em 2025/26, alta de 63,7 milhões de euros em apenas um ano. Só o futebol masculino e as categorias de base consumiram cerca de 421,6 milhões de euros em salários.
O clube também acumula prejuízos. Nos últimos sete anos, o déficit total chegou a aproximadamente 348 milhões de euros, mesmo considerando as diferentes operações financeiras realizadas pela diretoria de Joan Laporta para gerar recursos. E aqui entram as famosas alavancas financeiras.
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Em 2022, por exemplo, o Barcelona vendeu 25% de seus direitos de televisão de LaLiga pelos 25 anos seguintes ao fundo Sixth Street por 667,5 milhões de euros. A operação forneceu uma enorme injeção de dinheiro naquele momento e ajudou o clube a manter a competitividade, mas reduziu suas receitas futuras. O Barça precisa repassar ao fundo algo em torno de 40 milhões de euros por ano.
Foi uma escolha típica da estratégia adotada por Laporta: transformar receitas futuras em dinheiro disponível no presente. Essas operações ajudaram o Barcelona a atravessar os anos mais difíceis e continuar investindo no time, mas também deixaram consequências. O clube precisa administrar hoje receitas que foram antecipadas no passado enquanto tenta construir novas fontes de faturamento para o futuro.
Por que a dívida do Barcelona deve aumentar?
Os 1,84 bilhão de euros em dívidas registrados em junho não representam todo o problema futuro. Depois do encerramento do exercício, o Barcelona emitiu outros 105 milhões de euros em títulos de dívida, com vencimento em dez anos e juros fixos de 5,14% ao ano.
Com isso, o endividamento total se aproxima da marca de 2 bilhões de euros, que deve ser ultrapassada durante essa temporada. Cerca de 600 milhões de euros da dívida não estão relacionados diretamente ao Espai Barça. É o passivo financeiro herdado de anos anteriores, além de compromissos operacionais e outras necessidades de caixa.
O mercado de transferências também entra nessa conta, embora seja importante não confundir as coisas. A dívida com outros clubes pela contratação de jogadores era de 82,3 milhões de euros ao final da última temporada, um valor relativamente modesto diante do tamanho do endividamento total.
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O problema é que o Barcelona também passou a financiar parcelas de contratações com empréstimos bancários. Na chegada de Anthony Gordon, por exemplo, o clube adiou o pagamento inicial ao Newcastle, mas tomou dinheiro emprestado para que o clube inglês recebesse o valor devido.
A justificativa oficial é que os atrasos no Camp Nou criaram uma diferença temporária entre o momento em que o Barcelona precisa pagar suas obrigações e aquele em que poderá desfrutar plenamente das receitas do novo estádio. Na prática, o clube precisa pegar dinheiro emprestado para atravessar o período até que o principal projeto de geração de receitas esteja funcionando em sua capacidade máxima.
Esse é o grande paradoxo das finanças do Barcelona. O clube voltou a ser competitivo em campo, aumentou suas receitas e reduziu drasticamente os déficits gigantescos do passado. Mas continua consumindo muito dinheiro, paga mais de 90 milhões de euros anuais apenas em juros e ainda depende do sucesso do Espai Barça para transformar o crescimento de faturamento em saúde financeira.
Para 2026/27, o próprio Barcelona projeta receitas superiores a 1,1 bilhão de euros. Ao mesmo tempo, prevê uma folha salarial de 648,9 milhões de euros, novo recorde do clube. Ou seja: o Barça voltou a faturar como gigante, mas ainda precisa aprender a operar financeiramente como um gigante saudável.