Como Barcelona foi de ‘quase falido’ a gastar R$ 1 bilhão na janela em dois anos
Clube recuperou investimento após reduzir salários, aumentar receitas comerciais e retorno ao Camp Nou
Há apenas alguns anos, contratar jogadores por dezenas de milhões de euros no mercado parecia uma realidade distante para o Barcelona. O clube enfrentava uma grave crise financeira, tinha dificuldades para registrar atletas e chegou a operar sob uma das margens de gasto mais restritas de LaLiga. Agora, a situação é bastante diferente.
O Barça acaba de contratar Rodri, vencedor da Bola de Ouro de 2024, por cerca de 76 milhões de euros, depois de vencer a concorrência do Real Madrid. O espanhol será jogador do Barça até 2030. Antes, também trouxe Anthony Gordon, do Newcastle, Karim Adeyemi, do Borussia Dortmund, e o jovem Jesse Bisiwu. Somados, os negócios representam cerca de 175 milhões de euros (cerca de R$ 1 bilhão).
Como um clube que há poucos anos parecia sem margem para gastar voltou a disputar jogadores desse tamanho? Segundo análise do jornal neerlandês “De Telegraaf”, a resposta passa menos por um único negócio e mais por uma combinação de controle de gastos, aumento das receitas e recuperação da capacidade de inscrição em LaLiga.
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A virada do Barcelona: folha salarial e retorno ao Camp Nou
O primeiro ponto é justamente aquele que mais sufocava o Barcelona: a folha salarial. Em 2021, quando a atual direção assumiu, LaLiga permitia ao Barça gastar apenas 98 milhões de euros com seu elenco dentro do cálculo de limite de custo. O próprio clube reconhece que chegou a operar sob mecanismos como a regra 1:3 ou 1:4, segundo os quais era necessário economizar vários euros para conseguir registrar apenas um novo euro em salários. A situação começou a mudar com cortes drásticos.
O Barcelona afirma ter reduzido sua folha em 170 milhões de euros. Na temporada 2024/25, a relação entre salários e receitas ordinárias caiu para 54%, enquanto a dívida foi reduzida para 469 milhões, 90 milhões a menos em um ano e 211 milhões abaixo do nível de 2021.
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Isso não significa que o Barcelona tenha deixado de ter problemas financeiros. Pelo contrário: o próprio clube ressalta que precisa continuar controlando os gastos. Mas a situação deixou de ser a emergência permanente de alguns anos atrás. E existe uma mudança especialmente importante: o Barça recuperou a regra 1:1 de LaLiga.
Na prática, isso significa que o clube passou a ter condições de utilizar integralmente a capacidade financeira que gera para registrar salários e reforçar o elenco, em vez de ficar submetido às proporções extremamente restritivas que marcaram os anos anteriores.
O segundo elemento é o retorno gradual ao Spotify Camp Nou. Durante as obras, o Barcelona precisou mandar seus jogos no Estadi Olímpic Lluís Companys, em Montjuic. O impacto financeiro foi enorme: o próprio clube calcula que jogar fora do Camp Nou representou uma redução de mais de 100 milhões de euros por ano em receitas ordinárias. A volta para casa começou de maneira progressiva e já trouxe novas possibilidades comerciais.
Em março de 2026, por exemplo, o Barcelona recebeu autorização para abrir uma nova fase do estádio, que elevou a capacidade disponível para 62.652 espectadores e incluiu justamente novos espaços VIP e de hospitalidade. Para 2025/26, o clube havia projetado que o retorno gradual ao Camp Nou acrescentaria aproximadamente 50 milhões em receitas de estádio.
O novo estádio não representa apenas mais torcedores nas arquibancadas. A reconstrução foi pensada para ampliar significativamente as receitas de hospitalidade, áreas VIP, eventos e exploração comercial. O Barcelona ainda está longe de operar com a capacidade máxima, mas já recuperou parte de uma fonte de renda que havia desaparecido durante as obras.
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Barcelona voltou a ganhar dinheiro fora do campo
Outro fator fundamental está longe dos gramados. Na temporada 2024/25, o Barcelona registrou 994 milhões de euros em receitas ordinárias, mesmo tendo disputado sua segunda temporada consecutiva em Montjuic. O clube também alcançou recordes comerciais: 259 milhões em patrocínios e 170 milhões em merchandising, um crescimento de 55%. O orçamento para 2025/26 previa receitas ordinárias de 1,075 bilhão de euros.
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É aqui que entra também o efeito Lamine Yamal. O jovem espanhol se transformou em um dos principais ativos esportivos e comerciais do clube, ajudando a reforçar uma estratégia de internacionalização da marca Barcelona.
O clube, portanto, não está simplesmente “gastando dinheiro que não tem”. Está trabalhando com uma capacidade de receita muito maior do que aquela disponível durante o auge da crise. Mas essa talvez seja a principal ressalva à narrativa de uma recuperação completa.
O Barcelona ainda carrega uma dívida elevada, precisa administrar os custos da reconstrução do Camp Nou e continua sujeito às regras financeiras de LaLiga e da Uefa. Em 2024/25, por exemplo, o resultado final após itens extraordinários foi negativo em 17 milhões de euros, apesar de o resultado ordinário ter sido positivo em 2 milhões.
Ou seja: o clube não saiu de uma crise para uma situação de dinheiro infinito. O que mudou foi sua capacidade de gerar receita, controlar despesas e transformar essa melhora em margem para o futebol. E isso explica a janela atual. Ao mesmo tempo, o clube continua tentando equilibrar o elenco financeiramente, com saídas e redução de salários.
O Barcelona deixou de estar na situação em que precisava vender ou economizar simplesmente para conseguir sobreviver e passou a poder utilizar parte da recuperação financeira para voltar a competir no mercado. Ainda não é o Barça financeiramente saudável dos seus melhores anos. Mas também já não é o clube que, dois ou três anos atrás, precisava fazer malabarismos para registrar uma contratação.