Futebol espanhol

Como Barcelona foi de ‘quase falido’ a gastar R$ 1 bilhão na janela em dois anos

Clube recuperou investimento após reduzir salários, aumentar receitas comerciais e retorno ao Camp Nou

Há apenas alguns anos, contratar jogadores por dezenas de milhões de euros no mercado parecia uma realidade distante para o Barcelona. O clube enfrentava uma grave crise financeira, tinha dificuldades para registrar atletas e chegou a operar sob uma das margens de gasto mais restritas de LaLiga. Agora, a situação é bastante diferente.

O Barça acaba de contratar Rodri, vencedor da Bola de Ouro de 2024, por cerca de 76 milhões de euros, depois de vencer a concorrência do Real Madrid. O espanhol será jogador do Barça até 2030. Antes, também trouxe Anthony Gordon, do Newcastle, Karim Adeyemi, do Borussia Dortmund, e o jovem Jesse Bisiwu. Somados, os negócios representam cerca de 175 milhões de euros (cerca de R$ 1 bilhão).

Como um clube que há poucos anos parecia sem margem para gastar voltou a disputar jogadores desse tamanho? Segundo análise do jornal neerlandês “De Telegraaf”, a resposta passa menos por um único negócio e mais por uma combinação de controle de gastos, aumento das receitas e recuperação da capacidade de inscrição em LaLiga.

Guia rápido de LaLiga 2026/27: Favoritos, quem pode surpreender e decepcionar

Guia rápido de LaLiga 2026/27: Favoritos, quem pode surpreender e decepcionar

Leia →

A virada do Barcelona: folha salarial e retorno ao Camp Nou

O primeiro ponto é justamente aquele que mais sufocava o Barcelona: a folha salarial. Em 2021, quando a atual direção assumiu, LaLiga permitia ao Barça gastar apenas 98 milhões de euros com seu elenco dentro do cálculo de limite de custo. O próprio clube reconhece que chegou a operar sob mecanismos como a regra 1:3 ou 1:4, segundo os quais era necessário economizar vários euros para conseguir registrar apenas um novo euro em salários. A situação começou a mudar com cortes drásticos.

O Barcelona afirma ter reduzido sua folha em 170 milhões de euros. Na temporada 2024/25, a relação entre salários e receitas ordinárias caiu para 54%, enquanto a dívida foi reduzida para 469 milhões, 90 milhões a menos em um ano e 211 milhões abaixo do nível de 2021. 

Rodri em sua chegada a Barcelona
Rodri em sua chegada a Barcelona (Foto: IMAGO / AgenciaLOF)

Isso não significa que o Barcelona tenha deixado de ter problemas financeiros. Pelo contrário: o próprio clube ressalta que precisa continuar controlando os gastos. Mas a situação deixou de ser a emergência permanente de alguns anos atrás. E existe uma mudança especialmente importante: o Barça recuperou a regra 1:1 de LaLiga.

Na prática, isso significa que o clube passou a ter condições de utilizar integralmente a capacidade financeira que gera para registrar salários e reforçar o elenco, em vez de ficar submetido às proporções extremamente restritivas que marcaram os anos anteriores. 

O segundo elemento é o retorno gradual ao Spotify Camp Nou. Durante as obras, o Barcelona precisou mandar seus jogos no Estadi Olímpic Lluís Companys, em Montjuic. O impacto financeiro foi enorme: o próprio clube calcula que jogar fora do Camp Nou representou uma redução de mais de 100 milhões de euros por ano em receitas ordinárias. A volta para casa começou de maneira progressiva e já trouxe novas possibilidades comerciais.

Em março de 2026, por exemplo, o Barcelona recebeu autorização para abrir uma nova fase do estádio, que elevou a capacidade disponível para 62.652 espectadores e incluiu justamente novos espaços VIP e de hospitalidade. Para 2025/26, o clube havia projetado que o retorno gradual ao Camp Nou acrescentaria aproximadamente 50 milhões em receitas de estádio. 

O novo estádio não representa apenas mais torcedores nas arquibancadas. A reconstrução foi pensada para ampliar significativamente as receitas de hospitalidade, áreas VIP, eventos e exploração comercial. O Barcelona ainda está longe de operar com a capacidade máxima, mas já recuperou parte de uma fonte de renda que havia desaparecido durante as obras.

Guia do Barcelona: Favorito ao tri de LaLiga, mas confiança em Flick pode virar armadilha

Guia do Barcelona: Favorito ao tri de LaLiga, mas confiança em Flick pode virar armadilha

Leia →

Barcelona voltou a ganhar dinheiro fora do campo

Outro fator fundamental está longe dos gramados. Na temporada 2024/25, o Barcelona registrou 994 milhões de euros em receitas ordinárias, mesmo tendo disputado sua segunda temporada consecutiva em Montjuic. O clube também alcançou recordes comerciais: 259 milhões em patrocínios e 170 milhões em merchandising, um crescimento de 55%. O orçamento para 2025/26 previa receitas ordinárias de 1,075 bilhão de euros.

Lamine Yamal antes de jogo do Barcelona
Lamine Yamal antes de jogo do Barcelona (Foto: IMAGO / Pressinphoto)

É aqui que entra também o efeito Lamine Yamal. O jovem espanhol se transformou em um dos principais ativos esportivos e comerciais do clube, ajudando a reforçar uma estratégia de internacionalização da marca Barcelona.

O clube, portanto, não está simplesmente “gastando dinheiro que não tem”. Está trabalhando com uma capacidade de receita muito maior do que aquela disponível durante o auge da crise. Mas essa talvez seja a principal ressalva à narrativa de uma recuperação completa.

O Barcelona ainda carrega uma dívida elevada, precisa administrar os custos da reconstrução do Camp Nou e continua sujeito às regras financeiras de LaLiga e da Uefa. Em 2024/25, por exemplo, o resultado final após itens extraordinários foi negativo em 17 milhões de euros, apesar de o resultado ordinário ter sido positivo em 2 milhões.

Ou seja: o clube não saiu de uma crise para uma situação de dinheiro infinito. O que mudou foi sua capacidade de gerar receita, controlar despesas e transformar essa melhora em margem para o futebol. E isso explica a janela atual. Ao mesmo tempo, o clube continua tentando equilibrar o elenco financeiramente, com saídas e redução de salários.

O Barcelona deixou de estar na situação em que precisava vender ou economizar simplesmente para conseguir sobreviver e passou a poder utilizar parte da recuperação financeira para voltar a competir no mercado. Ainda não é o Barça financeiramente saudável dos seus melhores anos. Mas também já não é o clube que, dois ou três anos atrás, precisava fazer malabarismos para registrar uma contratação.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo