Espanha

Auditoria do Barcelona revela situação catastrófica: “Se fosse uma empresa, teria aberto processo de falência”

Barcelona apresentou resultados da auditoria, que mostra aumentos substanciais de gastos e que o clube só não abriu falência porque não é um clube-empresa

O Barcelona apresentou nesta quarta-feira o resultado de uma auditoria feita pela diretoria em relação às dívidas do clube. O resultado, como era de se esperar, foi catastrófico. O clube está afundado em dívidas, com gastos injustificáveis e em uma situação financeira que fez com que Ferran Reverter, diretor geral do clube, dissesse, na apresentação, que se o clube fosse uma SAD (Sociedad Anónima Deportiva, modelo de clube-empresa espanhol), teria aberto falência.

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A auditoria revelou que o último ano fiscal do Barcelona teve um prejuízo de € 485 milhões, em um ano que teve receitas de € 581 milhões. Em março de 2021, o clube tinha um patrimônio líquido no vermelho: € 451 milhões negativos. O fundo de manobra, o dinheiro disponível para disponível para fazer cargo das operações de curto prazo, estava negativo em € 554 milhões.

“Se fosse uma SAD, o Barcelona teria entrado em processo de falência. Em março de 2021, a situação era de quebra contável, mas como somos um clube e não uma SAD, por isso houve como refinanciar a dívidas”, apontou Reverter, que descartou que o Barcelona possa se tornar uma SAD. O clube é um dos poucos que funciona como clube social, tal qual acontece nos clubes brasileiros, junto com o Real Madrid, Athletic Bilbao e Osasuna.

A situação não se agravou repentinamente. Em 2017, com a venda de Neymar para o PSG por € 222 milhões, valor da cláusula de rescisão do brasileiro, o clube começou uma escalada de aumento de gastos: só em gestão, o aumento foi de 56%; em termos financeiros, o gasto aumentou seis vezes. Um exemplo é que o Barcelona pagava até 33% de comissão a agentes em alguns casos, quando o mercado normalmente paga no máximo até 10%. E este é só um aspecto.

Quatro jogadores representavam é 300 milhões anuais da folha salarial

O principal responsável pelo aumento de gastos foi o alto número de contratações por valores grandes. O Barcelona fez três das cinco contratações mais altas da história do futebol:  Philippe Coutinho, que veio do Liverpool por € 135 milhões (mais variáveis) em janeiro de 2018; Ousmane Dembélé, que veio do Borussia Dortmund por € 135 milhões (mais variáveis) em agosto de 2017; e Antoine Griezmann, que veio do Atlético de Madrid por € 120 milhões em 2019.

Além disso, se comprometeu só com quatro jogadores um valor de € 1,4 bilhão em quatro anos (Ousmane Dembelé, Philippe Coutinho, Antoine Griezmann e a renovação de Lionel Messi). Isso significa gastar € 300 milhões por ano só com quatro jogadores do elenco. Só os quatro representavam um valor maior que a folha salarial da Juventus, por exemplo.

“Se nada fosse feito agora, a massa salarial teria disparado a € 835 milhões no próximo ano”, explicou Reverter. Esse valor seria de 108% do total de receitas, o que é um completo absurdo em todos os sentidos, mas especialmente do ponto de vista contábil. Isso explica por que o clube fez um esforço para se livrar de alguns jogadores, como Antoine Griezmann, e porque não conseguiu renovar com Lionel Messi.

“Se contratavam jogadores sem saber se poderiam pagar”

Segundo o dirigente, diante dos impedimentos financeiros das contratações, a diretoria anterior criava novas fórmulas para se financiar. A dívida, assim, aumentava. “Se contratavam jogadores sem saber se poderiam pagar”, disse o diretor. “É o caso de Griezmann, na mesma noite que o contrataram, viram que não havia dinheiro e naquela noite mesmo se buscou um fundo de factoring (um financiamento rápido e mais arriscado)”.

Foi o caso da transferência de Coutinho também. Sem dinheiro, o clube tomou empréstimo para contratar o brasileiro e o valor da transferência aumentou € 16,6 milhões só em custos financeiros. Com tudo isso, o clube alcançou uma marca de 1,35 bilhão em dívidas. Os problemas se mostraram muito maiores do que a gestão de Joan Laporta imaginava. “Houve quebra de contratos firmados com os bancos”, contou Reverter.

Campo Nou em estado de risco ao público

O estado de saúde financeira do Barcelona era tão grave que até a manutenção do Camp Nou foi comprometida. O diretor geral disse que foi preciso fazer um trabalho de urgência no estádio do clube para resolver mais de 900 problemas, que teriam impedido o local de ser aberto ao público já na temporada passada, que os portões ficaram fechados por causa da pandemia da COVID-19.

O projeto de construção de um novo estádio ainda é um problema. “O Espai Barça merece um capítulo à parte. Se orçou € 600 milhões, quando o custo médio dos 35 novos estádios feitos na Europa não foram menos de € 900 milhões”, disse Reverter.

Segundo o diretor, o custo de um novo Camp Nou ficaria entre € 800 a 950 milhões. Um novo Palau (o ginásio do clube) custará entre € 300 e 400 milhões. Será preciso pedir um empréstimo de € 1,5 bilhão para isso. O projeto prevê a reforma de todo o complexo esportivo onde está o Camp Nou, criando um novo e mais moderno estádio.

Possíveis crimes e otimismo para o futuro

“A gestão de Bartomeu foi nefasta. Detectamos indícios de irregularidades, mas são os serviços jurídicos que decidirão se houve crime ou não. Nosso trabalho é averiguar os indícios. E está sendo muito complicado pela falta de documentação”, afirmou Ferran Reverter, diretor geral do Barcelona. Há a expectativa que até a próxima reunião do conselho do Barcelona, a consultoria jurídica determine se o que houve no Barcelona teve atos criminosos dos gestores anteriores para encaminhar às autoridades.

Segundo Reverter, ainda será possível fazer contratações e renovações de contrato, com boas doses de cuidado. “Sim, se pode contratar e renovar. As renovações de Pedri e Ansu Fati vão por um bom caminho. A última saída de um jogador importante nos gerou um Fair Play positivo de mais de € 20 milhões. Mas o trabalho não acabou e temos que seguir reduzindo a folha salarial”, afirmou o diretor.

A política do clube, segundo ele, passará por apostar em jogadores da base, de La Masía, e rentabilizar o Espai Barça, o projeto de reforma do complexo esportivo do clube. O dirigente está otimista que o clube pode retomar o seu caminho.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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