Espanha

A transferência de Griezmann nunca pareceu boa ideia e agora terminou como um negócio desastroso ao Barça

O Barcelona termina a janela de transferência sem Griezmann, sem Messi e com um prejuízo danado - e Luuk de Jong

Contratar jogador não é fácil. É que nem o blefe na mesa de pôquer: o bom é o que dá certo. O negócio pode parecer perfeito e, por uma série de variáveis, não funcionar. Outros, porém, soam problemáticos desde o início. Esse foi o caso da ida de Antoine Griezmann para o Barcelona. Nunca pareceu um bom encaixe e, no fim, não deu certo mesmo. Agora, ele completou o círculo e está de volta ao Atlético de Madrid. A transferência foi feita de forma coordenada com a ida de Saúl Níguez para o Chelsea.

Desde o começo do mercado, desesperado para aliviar a folha salarial para inscrever Lionel Messi, a saída de Griezmann foi especulada pelos jornais espanhóis. A primeira história era uma troca por Saúl que não se concretizou. Nesta terça-feira, dia final da janela de transferências, o escambo seria com João Félix, mas o Atleti ainda não perdeu o controle das suas faculdades mentais. Contratará Griezmann por empréstimo de uma temporada, com opção de mais uma que pode ser exercida por qualquer uma das partes, por € 10 milhões, com opção de compra obrigatória de € 40 milhões, segundo o jornal catalão Sport e o jornalista italiano Fabrizio Romano, uma mera fração dos € 120 milhões que recebeu dois anos atrás.

Se Griezmann ainda tivesse sido sacrificado para manter Messi, pelo menos haveria algum propósito, mas nem esse raiozinho de sol existe para o Barcelona se agarrar e minimizar uma transferência que explica muito bem por que está em grave crise financeira: sem pensar no encaixe técnico e tático, gastou muito dinheiro para correr atrás da grife e em dois anos terminou sem o reforço, sem Messi e com um alto prejuízo.

É diferente dos casos de Coutinho e Ousmane Dembélé, por exemplo. Apesar de terem sido extremamente inflacionados pela venda de Neymar, o francês era um jovem de muito potencial para repor diretamente a saída do atual craque do Paris Saint-Germain e o brasileiro do Liverpool era um sonho antigo que teoricamente chegaria para substituir Andrés Iniesta. Não deu certo, por mais de um motivo. Dembélé se machucou bastante e teve problemas comportamentais. Coutinho no fim não se encontrou como meia central. Ainda foram negócios ruins, uma irresponsabilidade gastar tanto assim nos dois, mas um tipo diferente de irresponsabilidade.

Sendo o mais gentil possível, Griezmann não era o que o Barcelona precisava quando foi contratado. Ele se transformou em um jogador de primeiro nível atuando em um raro sistema com dois atacantes para os dias atuais, com liberdade para se movimentar, criar, entrar na área e finalizar. Qualquer outro time até poderia ter se adaptado a essas suas características. A única exceção era exatamente o Barça porque ele já fazia isso com Lionel Messi. Resultado: Griezmann passou a maior parte dos seus 102 jogos pelos catalães jogando pelos lados ou como centroavante. Chegou a dizer quando estava com a seleção francesa que atuava melhor porque Deschamps sabia onde posicioná-lo.

Logo, que tenha tido um ou outro bom momento, com 35 gols em 102 jogos, nunca jogou para justificar o que foi pago pelos seus serviços, e chega até a ser contraditório sair neste momento porque, sem Messi, talvez conseguisse uma sequência maior em sua posição favorita para finalmente se assentar no clube.

Outro lembrete importante é que Griezmann chegou ao Barcelona no mesmo mercado em que Neymar estava muito disposto a retornar à Catalunha. Se não tivesse contratado o francês, as chances de trazer o brasileiro de volta seriam maiores? Não resolveria todos os problemas do Barça, profundos e muitos deles sem relação nenhuma com Griezmann, mas o quanto os últimos dois anos seriam diferentes nesse cenário hipotético?

O torcedor culé nunca terá essas respostas. E agora a nova realidade que se propõe a ele é mais cruel ainda porque, na prática, o Barcelona trocou Griezmann por Luuk de Jong, um atacante alto e rompedor que se notabilizou pelo alto índice de chances perdidas na última temporada. Não há nem mais o potencial de Griezmann para sonhar. É fé em Memphis e na garotada, como Ansu Fati e Pedri, e ver o que rola.

Pessoalmente, o negócio também não funcionou para Griezmann. Ele se queimou com as arquibancadas do Atlético de Madrid, relação que agora terá que reconstruir, pela maneira como saiu do Barcelona, com direito a filmezinho gravado por Gerard Piqué e controvérsias sobre o pagamento da sua cláusula de rescisão. Pegou um período caótico no Camp Nou, do ponto de vista político, financeiro e técnico, não disputou uma temporada completa na normalidade antes do começo da pandemia e agora pode ser culpado por alguns torcedores por não ter ido embora antes para viabilizar a permanência de Messi – não que seja justo.

Quem sorri com tudo isso é o Atlético de Madrid. Transformou o dinheiro de Griezmann em João Félix, ainda um promissor talento para o futuro, e agora terá de volta, por um valor muito mais baixo, um jogador que tem a confiança de Diego Simeone e mostrou o seu melhor futebol com a camisa colchonera, ainda com 30 anos e muita lenha para queimar. Ele se reencontrará com Luis Suárez, uma dupla que pode funcionar melhor em um outro contexto e que foi praticamente despejada pelo Barcelona.

Ángel Correa, que teve uma temporada de afirmação no título recente de La Liga, e Matheus Cunha, recém-contratado para reforçar o ataque, podem perder um pouco de espaço com essa transferência, mas Suárez não necessariamente jogará todas as rodadas, devido à sua idade avançada. De qualquer maneira, sobrarão opções para Simone montar o ataque do Atlético de Madrid, bem posicionado para aproveitar o momento de baixa dos gigantes espanhóis para buscar o bicampeonato.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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