O que é vantagem socioafetiva e porque esse é o próximo passo para o Brasil ter sucesso na Copa do Mundo
Entrosamento também é 'científico' e pode ser transformado em vantagem pela Seleção
A seleção brasileira carimbou sua vaga nos 16 avos de final da Copa do Mundo ao vencer a Escócia por 3 a 0 na quarta-feira (24). No último jogo da fase de grupos, o Brasil teve sua melhor atuação em termos táticos e de comportamento.
Liderando o Grupo C do Mundial, o time de Carlo Ancelotti parece chegar à fase eliminatória com uma estrutura consolidada: um 4-3-3 que era esperado com a convocação e abusando das melhores características dos meias e atacantes. O próximo passo, então, seria aumentar o entrosamento — ou, de forma mais literária, aflorar as relações socioafetivas.
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O que é a vantagem socioafetiva
O futebol brasileiro sempre foi tratado com “feeling“. Toda a estrutura do jogo era sobre coisas inatas e intangíveis, sem espaço para ciência em nenhum nível. Mas há literatura que engloba até algo como entrosamento.
A relação socioafetiva pautou o estilo do futebol brasileiro sem que as pessoas soubessem o que era. A grosso modo: quão entrosados e sintonizados os jogadores são e como essa relação positiva entre eles reflete em qualidade em campo. Se procuram com mais frequência, se entendem melhor, “se comunicam” sem falar de forma mais assertiva e, consequentemente, criam boas sequências com a bola.
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Usando a literatura do futebol, principalmente se analisado sobre a ótica do Jogo de Posição, há como criar vantagens em campo usando esse entrosamento. Reunir jogadores talentosos com boa conexão parece óbvio, mas é um dos argumentos para o sucesso dentro de um conceito amplo.
A vantagem socioafetiva é uma das vantagens possíveis dentro do Jogo de Posição. O conceito, popularizado por Pep Guardiola no fim dos anos 2000, tem como principais vantagens:
- numérica: ter mais jogadores do que o adversário em uma região do campo;
- qualitativa: ter jogadores tecnicamente superiores em relação ao adversário em uma região;
- posicional: estar em uma posição que permite ao jogador criar ou levar perigo;
- cinética: ter um jogador em movimento contra outro em inércia, por exemplo;
- socioafetiva: ter jogadores que “se gostam” e se entendem com facilidade em campo.
A vantagem socioafetiva pode parecer até “boba”, pensando dessa forma, mas pode ser o pilar de todo um modelo de jogo. Ter um meio-campo com Sergio Busquets, Xavi, Andrés Iniesta e Lionel Messi, para além de ser uma reunião absurda de talento, também era uma reunião de jogadores que se entendiam, se procuravam e muitas vezes “tocavam entre si pelo prazer de tocar” — o que simboliza a relação socioafetiva no futebol.
E a seleção brasileira pode desenvolver isso para ter sucesso na Copa do Mundo de 2026.
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Como o Brasil pode criar situações de vantagem socioafetiva na Copa do Mundo
Há jogadores que se entendem muito bem em campo naturalmente, sem ter nenhuma relação fora dele. A seleção brasileira teve na história recente casos de jogadores da mesma geração, que jogaram juntos por muito tempo e desenvolveram essa relação.
A geração de 1992, que tinha Neymar, Casemiro e Philippe Coutinho como maiores expoentes, era um exemplo, na Copa de 2018. A geração de 1997, com Lucas Paquetá e Bruno Guimarães, é outro — que tem se desenvolvido ainda mais nessa Copa.
Paquetá é um jogador muito associativo. Tem ótima relação com Neymar, Bruno e Vinicius Júnior, com quem também jogou no Flamengo, e também por isso tem seu espaço no time. Matheus Cunha tem se tornado nome importante para esse entrosamento.
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Contra a Escócia, o lado direito do ataque brasileiro mostrou que tem evoluído muito nesse sentido. Os contramovimentos com Matheus Cunha e Bruno Guimarães já apareceram no jogo diante do Haiti e se mostraram novamente positivos na vitória recente. Foi assim, inclusive, que saiu o terceiro gol brasileiro.
Nesse cenário, Cunha tem descido para ajudar na construção e Bruno sobe para atacar o espaço liberado pelo camisa 9. Mas há também muita dinâmica por esse lado:
- Rayan alternou entre ser o jogador da amplitude, que puxa o lateral adversário e espaça a linha defensiva, e tomar um posicionamento mais central, caindo pelo meio-espaço;
- Quando Rayan cai pelo meio, Danilo tem tido bom entendimento de quando subir para dar amplitude, e quando o faz, é coberto por Bruno;
- Cunha baixa para dar espaço a Rayan e ser o meia criativo, também porque Bruno desceu.
Esse entendimento de quando tomar cada posição e ler o que seu companheiro fez é treinado, claro, mas também é fruto de boa relação socioafetiva. E concretizar isso em vantagem de fato pode ser o próximo passo para a Seleção.
Com um esquema consolidado, Ancelotti pode focar em outros aspectos do modelo de jogo do Brasil, incluindo “entrosar” ainda mais o time. No fim, quando o torcedor que repudia os conceitos literários pede entrosamento, ele está, no fundo, desejando um time com melhor relação socioafetiva.
E ter essa relação aguçada ao ponto de se tornar vantagem ganha jogos. A Argentina é o maior exemplo disso na Copa do Mundo: reúne jogadores talentosos e que se entendem muito bem no meio-campo, incluindo Messi como ponto focal acordado por todos os demais, e isso se torna clara vantagem.
O Brasil pode ter isso com Paquetá, Bruno, Cunha, Vinícius e, talvez, Neymar. Mas o desenvolvimento disso com Rayan e Danilo, por exemplo, é outro ponto que pode ajudar a Seleção a ter ainda mais variação e se consolidar como um time que, de fato, aposta no seu entrosamento como ponto focal.