Copa do Mundo

Final da Copa do Mundo no Texas? Opção pode escancarar (mais uma vez) a falta de compromisso da Fifa com os direitos humanos

Apesar de estar no protocolo de escolha dos países-sede, Fifa já provou que política não é a maior de suas prioridades

As diversas reclamações de violações dos direitos humanos durante a organização da Copa do Mundo de 2022, no Catar, fizeram com que a Fifa elegesse o tema como sua grande prioridade para as próximas edições do Mundial. O foco, no entanto, parece ter sido desviado, e pode entrar em segundo plano já em 2026.

Estados Unidos, Canadá e México foram os escolhidos como países-sede da competição. A grande final está sendo disputada por dois estádios, que usualmente abrigam a NFL: o AT&T Stadium, em Arlington, no Texas, e o MetLife Stadium, em Meadowlands, Nova Jersey.

Por que estamos falando de direitos humanos antes de uma Copa do Mundo?

Antes mesmo da Copa do Mundo começar no Catar, diversas denúncias de jornadas de trabalho exaustivo, exploração de trabalhadores da construção civil e mortes durante as obras dos estádios já tomavam as manchetes do noticiário esportivo mundial. Segundo o The Guardian, mais de 6,5 mil pessoas, na maioria, imigrantes, morreram durante a construção das arenas que sediaram os jogos. O país nega, confirmando apenas três mortes.

Com a chegada do Mundial, as políticas anti-população LGBTQIA+ e a forma como mulheres são inseridas (e tratadas) nas sociedades árabes também estiveram em pauta. Apesar das comunicações oficiais do Catar afirmarem que todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual, são bem-vindas no país, a realidade é que jornalistas europeus relataram por meio de séries de reportagens que reservas estavam sendo rejeitadas caso os hotéis suspeitassem que os viajantes eram gays.

Proibidos de se manifestarem conta as leis que criminalizam a comunidade LGBTQIA+, jogadores da Alemanha posaram para foto oficial da equipe na estreia, diante do Japão, com a mão na boca, denunciando o caso de censura.

Para evitar que episódios como esses voltassem a acontecer, e que sua imagem ficasse (ainda mais) chamuscada, a Fifa incluiu no seu processo de candidatura novas medidas para garantir que direitos básicos fossem respeitados – embora essa posição não possa ser levada a sério, já que a Arábia Saudita já foi confirmada como sede de 2034.

Em tese, os países precisaram identificar os riscos para os direitos humanos em seus territórios, informando também um plano para mitigá-los. Na votação, Estados Unidos, Canadá e México obtiveram 134 votos dos 203 membros da Fifa, ante 65 de Marrocos, a outra candidata.

Por que o Texas representa um risco à estratégia de direitos humanos?

De volta a 2026, nos Estados Unidos, o Texas é quem representa uma grande ameaça ao posicionamento pró-direitos humanos – pero no mucho – da Fifa. Governado pelos conservadores e historicamente republicano, o estado está frequentemente sob os holofotes por um conjunto de leis que atingem especificamente mulheres, LGBTQIA+ e imigrantes.

Dono de uma das restrições mais rigorosas ao aborto nos Estados Unidos, onde o procedimento é garantido por lei, o Texas tentou proibir que mulheres viajassem para buscar por um procedimento legal seguro em outros estados, sob penalização de acusações criminais e até mesmo prisão perpétua.

A população transexual também sofreu o que os norte-americanos chamam de perseguição. Ao jornal inglês ‘The Guardian', que também abordou o assunto, um pai de uma criança trans afirmou que viveu “uma caça às bruxas”. O viés punitivista diante da comunidade fez com que a American Civil Liberties Union and GLAAD (União Americana pelas Liberdades Civis, em tradução livre), escrevesse uma carta às Nações Unidas denunciando o “ataque sistêmico aos direitos fundamentais, dignidade e identidade das pessoas LGBTQIA+.

Já a Human Rights Watch chamou atenção para às políticas contra imigração. Em dezembro de 2023, a ‘cruzada' contra os cidadãos ilegais atingiu seu ápice quando o governador Greg Abbott, do partido Republicano, assinou uma lei que tornava crime atravessar a fronteira de forma ilegal. Quem não apresentar os documentos, é preso e deportado para o México. Reincidentes podem ser condenados em até 20 anos. Esse é o pacote anti-imigração mais rígido dos últimos 20 anos assinados pelo governo local. Para a organização, as políticas “prejudicam imigrantes, os requerentes de asilo e as comunidades no Texas”.

Se Catar e Arábia Saudita são um problema, os EUA também são

O apontamento de países árabes como vilões quando o assunto são direitos humanos não passa só pelos fatos, é claro, como também por um conceito enviesado sobre o que é a vida no Oriente Médio. Mas, se regimes de governo como o da Arábia Saudita certamente não passarão imunes as críticas diante de tantas violações, por que as cometidas pelo chamado “país mais livre do mundo” devem ser ignoradas? A decisão será anunciada em fevereiro.

Foto de Denise Bonfim

Denise BonfimSubcoordenadora de conteúdo

Denise Bonfim é jornalista pós-graduada em Comunicação e Mídias Digitais, roteirista e produtora de conteúdo. Participou da cobertura de duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas, e soma passagens por Estadão, CNN, Jovem Pan, UOL e Globo.
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