Copa do Mundo 2026

Contra o Haiti, Brasil teve mudanças cruciais e isso pode ser o sucesso no restante da Copa do Mundo

Ancelotti mudou prioridade do time e contou com um adversário ruim, mas novidades foram positivas e comprovadas por números

A seleção brasileira venceu bem o Haiti na sexta-feira (19), por 3 a 0, depois de um empate na estreia da Copa do Mundo diante do Marrocos. Os resultados contrastantes também explicam mudanças comportamentais do time de Carlo Ancelotti.

Saindo de um 4-2-3-1 “torto” na estreia para um 4-3-3 tradicional e praticamente “guardiolista”, o Brasil foi de um time que se limitava a contornar o bloco defensivo marroquino para um que fez morada na região central diante do Haiti. E isso pode ser o sucesso para a equipe no restante do Mundial.

Brasil domina o meio e as costas da defesa contra o Haiti depois de dificuldades na estreia

Na análise imediatamente após o jogo contra os haitianos, a Trivela destacou como o Brasil foi até “cruyffista” nas suas ideias: procurava primeiro a profundidade, com jogadores fixando a última linha defensiva e passes para frente, constantemente furando as linhas adversárias. Isso foi comprovado pelos números.

Segundo os dados oficiais da Fifa, o time de Ancelotti teve 105 quebras de linha defensiva contra o Haiti — ou seja, passes que rompem a linha inteira de marcação por dentro. Foram 16 quebras a mais do que contra Marrocos (89).

Isso mostra como a Seleção conseguiu ser mais agressiva atacando a profundidade e como abusou de passes de ruptura, mesmo que tenha tido menos bolas recebidas no ultimo terço em comparação com a estreia (também porque “estacionou” no segundo tempo).

As tentativas de quebra de linha defensiva vieram majoritariamente por dentro do bloco defensivo do Haiti (53,5% do tempo). Diferente da estreia, quando o Brasil não conseguia avançar por dentro e 55% das tentativas de ruptura foram por fora do bloco. E os números individuais dos jogadores nesse quesito ajudam a ilustrar o cenário:

Matheus Cunha comemora gol pela seleção brasileira contra o Haiti na Copa do Mundo
Matheus Cunha comemora gol pela seleção brasileira contra o Haiti na Copa do Mundo. Foto: IMAGO / Gribaudi/ImagePhoto
  • Contra Marrocos, quem mais tentou quebras de linha defensiva foram os laterais, Douglas Santos (20) e Danilo (16), que sequer jogou a partida inteira, o que mostra como o time jogava muito por fora;
  • Diante do Haiti, o jogo virou: Marquinhos mais do que dobrou seu número de quebras de linha (22 contra 9), enquanto Douglas teve apenas oito;
  • Gabriel Magalhães (19), Casemiro (10), Bruno Guimarães (11) e Paquetá (17) eram todos jogadores de corredor central que quase dobraram ou de fato dobraram o número de tentativas de quebras de linha contra o Haiti.

A forma como o time se apresentou para receber a bola também mudou e tem embasamento estatístico para ilustrar. Os diversos movimentos de “gato” dos brasileiros para ludibriar a marcação e receber no pé ou nas costas foram cruciais. No fim, o Brasil acumulou 89 ofertas de passe a mais na segunda rodada em comparação com a estreia.

Ofertas de passe é um dado que a Fifa contabiliza como os movimentos dos jogadores para se oferecer como opção para outro companheiro. Contra Marrocos, Vinicius Júnior foi quem mais se ofereceu (61 vezes); contra Haiti, foi Bruno Guimarães (77). Isso também ilustra como o time preferiu jogar por dentro.

Contra Marrocos, metade das ofertas do jogo foi por fora do bloco (174 de 348), já contra o Haiti, 60% das ofertas vieram de dentro do bloco. Além de Bruno, Matheus Cunha (57) e Paquetá (52) foram os líderes nesse quesito, mostrando como o jogo pelo meio foi prioridade.

O tipo de movimento para receber também foi diferente: na estreia, a maioria das ofertas era de frente para bola — ou seja, um jogador que desce para apoiar a construção, de costas para o gol adversário. Na vitória contra o Haiti, 63% dos movimentos para receber foram ou entrelinhas ou nas costas da defesa — muito mais agressividade.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Seleção brasileira defendeu baixo contra o Haiti e segurou o jogo

Um motivo de preocupação sobre o time de Ancelotti era a inconstância defensiva, principalmente quando defendia em bloco alto e subia pressão. Mesmo conseguindo gols em pressão pós-perda, na fase de transição, a postura do time em organização defensiva tentando marcar alto era preocupante e facilmente ultrapassada.

Foi assim que saiu o gol marroquino e dessa forma a França dominou o Brasil no amistoso da Data Fifa de março. Contra Marrocos, inclusive, a Seleção só passou 35% do tempo defendendo em bloco médio ou baixo.

Contra o Haiti, a ideia defensiva era clara: permitir que tentassem construir por dentro, onde eram mais fracos, e pressionar a partir dali. Também por conta do resultado conquistado na primeira etapa, a seleção brasileira preferiu baixar as linhas e deixar os haitianos com a bola.

Na vitória por 3 a 0, o Brasil passou 51% do seu tempo defensivo em bloco médio ou baixo e apenas 3% em pressão alta. Isso resultou em Casemiro liderando de longe o número de bolas recuperadas: 13, nove a mais do que as quatro da estreia, quando era constantemente pego desprevenido precisando cobrir muito espaço entrelinhas.

Mesmo que contra um adversário mais fraco e repleto de debilidades defensivas e ofensivas, o comportamento da equipe de Ancelotti mudou positivamente, principalmente no primeiro tempo. Resta saber se essa será a identidade brasileira para o restante da Copa do Mundo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo