Copa do Mundo

Delay, streaming, plataformas diferentes: Nem transmissão da Copa sobrou como sentimento coletivo

Cada torcedor vai gritar gol em um momento diferente, ver a Copa de um jeito diferente e se emocionar/irritar de um jeito diferente com as mudanças na mídia esportiva

A Copa do Mundo de 2026 será extremamente diferente para quem se acostumou a ver o maior evento de futebol do planeta transmitido quase integralmente ao vivo em TV aberta nas últimas décadas. 

Agora, com a CazéTV, um canal digital, sendo o único a oferecer todos os 104 jogos ao vivo, e sendo uma alternativa relevante mesmo para os que estiverem sendo exibidos pela TV Globo pelo SBT, o streaming e sua tradicional individualidade vão dar o tom de como nós veremos as partidas este ano. 

De 1970 a 1998, não havia muito segredo, bastava escolher algum dos muitos canais abertos que transmitiam os jogos da Copa do Mundo, no começo ainda poucos ao vivo, mas sempre os da seleção brasileira. Havia uma diferença de fração de segundos na imagem entre emissoras diferentes, mas nada muito perceptível. 

A Copa do Mundo de 1998, como já explicamos aqui na coluna, foi a última que contou com múltiplas opções na TV aberta, sendo exibida por cinco canais ao mesmo tempo: TV Globo, Band, SBT, Record e a hoje extinta Manchete. De 2002 em diante, a Globo dominou o torneio e algumas vezes dividiu os direitos com a Band. Duas, para ser exato: 2010 e 2014. 

Já neste século, a TV paga conseguiu uma importante parcela de público, sendo a única a oferecer os 64 jogos da Copa do Mundo ao vivo entre 2002 e 2018, afinal, era impossível um canal aberto transmitir os jogos simultâneos da última rodada da fase de grupos, enquanto canais como sportv e ESPN conseguiam por meios de seus múltiplos canais.

Havia um pequeno delay, o famoso atraso de segundos, entre quem via o jogo pelo sinal da antena comum VHF e quem via na TV por assinatura, a depender da tecnologia, que podia ser por satélite, com as famosas anteninhas parabólicas de operadoras, ou via cabo, tendo também antenas de microondas, o famoso sistema MMDS. 

Mas o que veremos em 2026 é totalmente diferente.

Copa do Mundo 2026 vai trazer muitas mudanças

É o streaming, com a CazéTV, sendo a única opção em praticamente 50 jogos. As estreias de seleções como Argentina, Alemanha, Espanha e Portugal serão vistas apenas no canal da LiveMode que leva a marca de Casimiro Miguel. 

Este colunista vem acompanhando há anos os esforços de LiveMode e Globo para reduzir o delay nas transmissões, e de fato houve uma melhora sensível nos últimos anos, chegando a níveis bem próximos da TV aberta, ainda não perfeitos, mas muito melhores que há quatro anos. 

Mas ainda há um ponto importante nessa questão: o usuário final também faz parte da equação um tanto injusta para ter acesso à melhor imagem e aos gols sem spoilers do bairro inteiro.

Nos testes que realizamos periodicamente, é possível notar que o mínimo atraso é obtido quando há dispositivos novos, como TVs e computadores de fabricação recente, com boa qualidade, ligados à internet por meio de cabos, e com conexão estável de qualidade. 

Se o torcedor tiver um aparelho um pouco mais velho (e nem precisa ser tão velho assim), ou fizer a ligação de internet por wi-fi (sem fio), ou ainda com o uso de repetidores de sinal entre cômodos da casa, sem falar na qualidade da banda larga, o atraso pode ser bem maior.

Fala-se muito que não existe mais “clima de Copa”, aquele sentimento coletivo das pessoas que saíam nas ruas, enfeitavam e pintavam tudo de verde e amarelo, criavam uma atmosfera única a cada quatro anos, e que hoje estaria mais em baixa. 

Neymar em atuação pela seleção brasileira (Foto: IMAGO / Newscom World)
Neymar em atuação pela seleção brasileira (Foto: IMAGO / Newscom World)

Este colunista acredita que a razão para isso tudo não mora na resposta simplista e muitas vezes preguiçosa de que “a seleção se afastou do povo”. É algo maior e que vai além do futebol e da Copa: a falta de ação e sentimento coletivo. A era das redes sociais nos fechou em bolha e nos tornou mais individualistas e focados em nós mesmos. 

É tanto problema que não dá tempo de viver os sentimentos coletivos. Ou talvez porque tenhamos sido as crianças que curtiam enquanto os adultos dos anos 1990 criavam aquela atmosfera, e na nossa vez de sermos adultos continuamos a esperar que alguém faça isso por nós.  

O fato é que as transmissões dos jogos também não vão ajudar.

Como já abordamos anteriormente, há uma diferença geracional gigantesca entre jovens divididos entre CazéTV e Globo, e os mais velhos fiéis à TV aberta, com a Globo como primeira opção disparada, e o SBT como grande alternativa. Quem sofrer com o delay poderá ter que buscar soluções criativas como isolar acusticamente sua casa (brincadeira com fundo de verdade)

Pessoas de diferentes idades vão ver a Copa de jeitos diferentes. E, a depender de suas condições técnicas, vão comemorar os mesmos gols em segundos diferentes também. Até o grito de gol está virando um ato individual.

Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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