Nestory Irankunda, a joia da Austrália na Copa que foi de campo de refugiados a comparação com Messi
Conheça a longa e tortuosa trajetória de jovem que vislumbra primeira participação em um Mundial
Uma cena define Nestory Irankunda antes mesmo de ele ser a esperança da Austrália na Copa do Mundo de 2026. Um menino jogando bola em um parque em Adelaide com os irmãos quando um treinador passa, para, olha de novo e não acredita no que está vendo.
Swarv Kania, técnico do sub-10 do Parafield Gardens, resumiu o momento em que o avistou: “Ele deve ser o melhor garoto que já vi na vida. Ele driblava o time inteiro e fazia o gol“, disse, em entrevista ao site australiano “Code Sports”, em 2023.
O garoto tinha nascido num campo de refugiados na Tanzânia. Seus pais haviam fugido do vizinho Burundi em guerra. A família, com sete filhos, reconstruiu a vida na Austrália — e um deles estava prestes a se tornar o jogador mais empolgante que o futebol daquele país já produziu.
De refugiado da Tanzânia a revelação na Austrália
Irankunda chegou ao Adelaide United em 2021, depois de chamar a atenção do assistente técnico do clube, Airton Andrioli, em um jogo-treino. A cena do primeiro encontro já dizia tudo sobre o temperamento do garoto: ele marcou um gol de fora da área, foi substituído e jogou a camisa no chão na frente do treinador. Talento inquestionável. Caráter a ser lapidado.
Aos 15 anos, estreou no time profissional.
Aos 17, já somava nove gols em 38 partidas pela A-League, cada um deles comemorado com piruetas e saltos mortais que viralizavam nas redes. Driblador veloz, chute potente e capaz de vencer goleiros de ângulos improváveis. Um adversário chegou a desfalcar o próprio time por quase dois meses após bloquear uma finalização de Irankunda.
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Javi López, que passou 13 anos no Espanyol antes de chegar ao Adelaide, não guardou a comparação para si: “A potência, a habilidade… nunca na minha vida, na idade dele, vi um jogador como ele, exceto Messi.”
Carl Veart, técnico do Adelaide, foi mais comedido na hipérbole, mas igualmente revelador. “Ele tem momentos de três ou quatro minutos nos treinos em que ninguém quer chegar perto dele.”
O preço da fama jovem e a ida ao Bayern de Munique
O caminho não foi linear. O próprio Irankunda admitiu, em entrevista ao site australiano “Body and Soul”, que o início no profissional foi difícil mentalmente:
“Quando você marca alguns gols e aparece em toda a mídia, mas joga uma partida ruim, eles te criticam. Isso me magoou às vezes. Mas aprendi a abaixar a cabeça e continuar, não importa o que digam.”
Fora de campo, os desafios eram outros. Chegou a ser alvo de críticas por perder a concentração nos treinos, chegar atrasado a reuniões e acumular cartões com frequência quase tão alta quanto a dos gols. Veart foi direto:
“Disse ao Nestory muitas vezes que ele tem muita sorte de eu ser muito tolerante, porque muitos outros técnicos não teriam permitido que ele chegasse a este ponto.”
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O Bayern de Munique, no entanto, não deixou o temperamento afastar o interesse. O clube alemão vinha monitorando o jovem há meses e fechou a contratação por cerca de 3 milhões de libras. Uma quantia modesta para um dos maiores clubes do mundo, mas simbólica para o futebol australiano.
A comparação com Alphonso Davies, lateral do próprio Bayern que também nasceu em campo de refugiados — no caso dele, em Gana, após seus pais fugirem da Libéria –, foi inevitável e carregada de simbolismo. Dois jovens com histórias improváveis, encontrados por olheiros em cantos remotos do mundo, apostando na mesma prateleira alemã para crescer.
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Do Bayern ao protagonismo Watford e à Copa do Mundo
A passagem pela Baviera não rendeu o que se esperava. Irankunda deixou o Bayern sem defender o time profissional do clube e hoje atua no Watford, da segunda divisão inglesa, depois de empréstimo pelo Grasshoppers, da Suíça.
Na Championship, segue desenvolvendo o jogo longe dos maiores holofotes. Mas o que não diminuiu foi o brilho pela seleção australiana: são 13 jogos e cinco gols com a camisa dos Socceroos, números que o colocam como um dos nomes mais aguardados da Austrália para a Copa do Mundo.
What a goal! Nestory Irakunda celebrates scoring an injury time winner for @AdelaideUnited during their inaugural Pride Games. #ShotOfTheWeek
Stream every A League game live on Paramount+ pic.twitter.com/FTFnPg0JYp— Paramount+ Australia (@ParamountPlusAU) March 2, 2022
A motivação, ele mesmo explica, tem raízes mais fundas do que qualquer estatística:
“Meus pais fizeram sacrifícios por mim, assim como meus irmãos. As taxas para jogar futebol na Austrália são absurdas, e não era fácil para eles pagarem para nós três jogarmos. Meus irmãos também tinham potencial, mas pararam para que eu pudesse continuar.”
De um campo de refugiados na Tanzânia a um campo de futebol nos Estados Unidos, com a camisa da Austrália e o mundo assistindo. A história de Nestory Irankunda ainda está sendo escrita. São apenas 20 anos e diversos capítulos da história ainda por vir.