Copa do Mundo

Como o sorteio da Copa do Mundo de 1982 foi desastroso e fez a Fifa ‘aprender a lição’

Entidade se esforça para esquecer evento repleto de falhas e contratempos, realizado em Madri, na Espanha

O sorteio da Copa do Mundo de 1982, na Espanha, é o mais memorável e, ao mesmo tempo, o que a Fifa mais quer esquecer. O evento foi tão caótico que a entidade se esforçou muito para evitar que ocorresse um desastre semelhante em edições futuras.

E a definição não é exagero. Tanto que a própria organização reconhece que “aprendeu a lição” e rapidamente retornou ao bom e velho “sistema infalível”.

Os problemas do sorteio da Copa do Mundo de 1982

Era 16 de janeiro de 1982. O Palácio de Congressos de Madri, na capital espanhola, recebia o badalado sorteio da Copa que prometia uma nova forma de determinar as seleções que integrariam cada um dos seis grupos do Mundial.

A ideia era substituir a mexida manual por máquinas. Aquela parte em que uma personalidade do esporte movimenta as bolinhas no pote e sorteia uma deu lugar a espécies de tambores giratórios, como os de loterias.

Crianças tinham que retirar as bolinhas com os nomes das seleções e entregá-las aos membros da Fifa, o que remetia à tradição natalina local.

Crianças que participaram do sorteio da Copa de 1982 (Foto: Imago)

A metodologia foi explicada para o público presente no Palácio e aos 500 milhões de expectadores que acompanhavam ao vivo pela televisão — conforme estimativa da época.

No entanto, ninguém poderia imaginar os fiascos que viriam a seguir. Os organizadores não tiveram que lidar com um imprevisto, e sim vários. Mas vamos por ordem.

Inglaterra cabeça de chave

O primeiro contratempo — que está mais para polêmica — foi unir a Inglaterra ao grupo de cabeças de chave, que já tinha Espanha, Brasil, Itália, Argentina e Alemanha Ocidental.

Os cinco países estavam previamente definidos, e não era esperado que os ingleses ocupassem o pote 1 visto que Bélgica e Polônia tinham vantagem pelos desempenhos da época — vice e terceira colocada na Europa, respectivamente.

Além disso, a Inglaterra ficou fora das duas edições anteriores da Copa e quase não se classificou para a de 1982. Não se imaginava que voltariam com esse benefício.

A decisão foi justificada inicialmente pelo fato de já ter sido campeã mundial (1966), mas depois o então diretor da Fifa, Hermann Neuberger, afirmou se tratar de uma questão de “segurança” para que a seleção jogasse em Bilbao.

Torcedores ingleses em Bilbao, na Copa do Mundo de 1982
Torcedores ingleses em Bilbao, na Copa do Mundo de 1982 (Foto: Imago)

Cada cabeça de chave fazia as partidas da fase de grupos no mesmo estádio e, no caso da Inglaterra, o palco foi La Catedral, o Estádio San Mamés. Segundo Neuberger, havia preocupação de espanhóis quanto à postura dos torcedores ingleses.

Houve queixas formais de Bélgica e França na ocasião, mas a entidade manteve o posicionamento.

Sul-americanos sem se enfrentar e Bélgica e Escócia em grupos errados

A segunda adversidade também tem relação com os grupos. Foi explicado previamente que a intenção seria evitar que sul-americanos se enfrentassem nas chaves, e surgiu a ideia de tirar Chile e Peru do pote 3 nos sorteios que compreendiam aos adversários de Argentina e Brasil.

Além da dupla sul-americana, Irlanda do Norte, Escócia, Bélgica e França integravam o pote. No entanto, a sugestão não evoluiu.

Ainda assim, tudo caminhava de acordo com o objetivo. Por critérios geográficos, as duas primeiras bolas a serem sorteadas deveriam ir, respectivamente, para os grupos de Argentina (3) e Brasil (6), e os primeiros países a saírem foram Bélgica e Escócia.

O então secretário-geral da Fifa, Joseph Blatter, colocou, erroneamente, a Bélgica no Grupo 1 e a Escócia no Grupo 3.

A gafe foi imediatamente identificada pela imprensa e causou certa confusão. “Bélgica deveria estar no grupo da Argentina e a Escócia no do Brasil”, iniciou Archie Macpherson, que apresentava o evento na “BBC”.

— Foi isso que se falou antes do sorteio, foi o que disseram que fariam, e agora confundiu tudo. Acreditam que o Mundial começou com um erro monumental? — questionou.

Quando os organizadores perceberam o erro, corrigiram imediatamente.

Dificuldades com a máquina

A confusão nos critérios não estava nem perto de ser o maior problema da Fifa no evento de 1982. Minutos depois de o sorteio da Copa do Mundo ser retomado, uma das bolinhas abriu na máquina. Uma parte dela saiu, e a outra ficou presa.

Alguns membros da organização se movimentaram para tentar resolver a questão e fazer a outra metade sair plenamente. E isso gerou um pouco mais de atrasos. Em seguida, a parte que faltava caiu e revelou o nome da Áustria.

Mas a máquina novamente fez a entidade passar sufoco ao emperrar e não “liberar” a bolinha posterior, que logo após se descobriu ser da Hungria.

O sorteio continuou sem outros grandes problemas, mas foi o suficiente para a Fifa sequer cogitar substituir as pessoas por máquinas em eventos como esse novamente.

As chaves ficaram assim:

Grupo 1 – Vigo e Corunha

  • Itália, Polônia, Peru e Camarões

Grupo 2 – Gijón e Oviedo

  • Alemanha Ocidental, Argélia, Chile e Áustria

Grupo 3 – Alicante e Elche

  • Argentina, Bélgica, Hungria e El Salvador

Grupo 4 – Bilbao e Valladolid

  • Inglaterra, França, Tchecoslováquia e Kuwait

Grupo 5 – Valencia e Saragoça

  • Espanha, Honduras, Iugoslávia e Irlanda do Norte

Grupo 6 – Sevilla e Málaga

  • Brasil, União Soviética, Escócia e Nova Zelândia

A Copa do Mundo de 1982 também ficou marcada pelo “jogo da vergonha” entre Alemanha Ocidental e Áustria, a estreia de Diego Maradona em mundiais e a seleção brasileira de grandes nomes como Zico, Cerezo e Sócrates, comandada por Telê Santana.

A final foi entre a Itália de Paolo Rossi e a Alemanha Ocidental de Karl-Heinz Rummenigge. A Azzurra levou a melhor na decisão ao fazer 3 a 1 no Santiago Bernabéu e conquistou o tricampeonato.

Dino Zoff, goleiro Itália, levanta a taça da Copa do Mundo de1982
Dino Zoff, goleiro Itália, levanta a taça da Copa do Mundo de1982 (Foto: Imago)
Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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