Alçar um indivíduo ao posto de “salvador da pátria” é uma atitude que, tantas vezes, evidencia mais o desespero do que realmente a esperança. Paolo Rossi tinha inúmeras virtudes como jogador de futebol, mas precisou suportar este fardo sobre seus ombros às vésperas da Copa do Mundo de 1982. A Itália atravessava um péssimo momento e não convencia ninguém dentro de campo, passando longe de figurar entre os favoritos ao título. Então, a Azzurra agarrou-se a Pablito, o craque de 25 anos que poderia transformar a situação. O atacante vinha de uma suspensão de dois anos por envolvimento em um caso de manipulação de resultados e, mesmo jurando inocência, era tratado como um pária por muitos. Não estava em sua melhor forma física e só havia disputado três partidas oficiais antes da estreia no Mundial. Tudo parecia pronto a dar errado. Mas, no fim, Paolo Rossi seria mesmo o herói que lideraria os italianos ao topo do futebol novamente.

Não foi de imediato que Paolo Rossi cumpriu o papel de salvador da pátria no Mundial de 1982, porém. O atacante bem que tentava e até apresentava uma qualidade acima da média. O problema é que nada parecia conspirar a favor do camisa 20, e da própria Itália, no início da campanha na Espanha. O futebol medíocre não agradava e aumentava a pressão sobre um jogador com a confiança já abalada por tudo o que o rodeava. A reação da Azzurra veio antes que a do jogador, na vitória sobre a Argentina, a primeira após uma primeira fase com três empates. Então, no temido jogo contra o Brasil, Pablito se transfigurou. Se tudo dava errado, repentinamente tudo passaria a dar certo ao habilidoso e oportunista atacante. Seis gols nas três últimas partidas o transformaram em artilheiro da Copa, em protagonista no tricampeonato mundial da Itália, em lenda do esporte. Eternizaram seu nome, num dos desempenhos mais fantásticos do torneio, permitindo que a história de Paolo Rossi perdure muito além de seu adeus nesta quarta-feira.

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Paolo Rossi tinha acabado de completar 21 anos quando estreou pela seleção italiana. Era dezembro de 1977 e o técnico Enzo Bearzot fazia os ajustes finais para a disputa da Copa do Mundo de 1978. Titular num amistoso contra a Bélgica, o atacante até deu a assistência à vitória por 1 a 0, rolando uma cobrança de falta para Giancarlo Antognoni encher o pé. Também estaria presente na derrota para a Espanha em janeiro, mas passou em branco. O talento de Rossi, entretanto, bastaria para convencer Bearzot mais do que suas primeiras aparições pela Azzurra. Era o protagonista de um conto de fadas, o artilheiro que levou o Vicenza da segunda divisão ao vice-campeonato na Serie A. O ponta de lança tinha uma habilidade ímpar, merecia estar presente na Argentina e parecia pronto a envergar a camisa italiana por um bom tempo.

O jornalista Giorgio Tossatti teceu a definição mais famosa sobre o conjunto de habilidades exibidas por Paolo Rossi dentro de campo: era uma mistura de Nureyev com Manolete. Juntava a graça de um dos maiores dançarinos do século com a frieza do lendário toureiro. Não era muito forte e nem muito alto, mas era extremamente inteligente. Sabia ocupar a grande área como poucos e encontrar as mínimas brechas na marcação. Assim, seus gols eram frequentes, inclusive os de cabeça – com a velocidade de quem surgiu como ponta direita, estava centésimos à frente dos defensores. E o ponta de lança também aperfeiçoou sua qualidade técnica para a posição. Sabia arrancar e potencializar os contra-ataques, ao mesmo tempo que aproveitava seus dribles nos mínimos espaços para fintar os adversários na área. Juntava sua habilidade a uma finalização letal e, assim, se firmou como craque.

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Paolo Rossi seria titular absoluto da Itália que disputou a Copa do Mundo de 1978, mesmo com apenas duas partidas pela seleção antes do Mundial. A confiança de Bearzot logo seria retribuída. O primeiro gol do atacante também foi o primeiro da Azzurra na competição, empatando a estreia contra a França, antes da virada por 2 a 1. Aproveitou uma série de rebatidas na área para completar à meta vazia. Também fez o primeiro no triunfo por 3 a 1 sobre a Hungria, que valeu a classificação. E foi numa tabela com Pablito, afinal, que Roberto Bettega determinou a vitória por 1 a 0 sobre a anfitriã Argentina, garantindo os italianos na liderança da chave.

O nível de desempenho da Itália na primeira etapa da Copa não se repetiu na fase seguinte. Depois do empate sem gols contra a Alemanha Ocidental, a Azzurra até derrotou a Áustria por 1 a 0, mas perdeu a chance de alcançar a final com a derrota por 2 a 1 contra a Holanda. Os italianos ao menos puderam disputar o terceiro lugar. Paolo Rossi também seria importante a isso, já que o tento diante dos austríacos foi seu, aproveitando um enorme cochilo da defesa. Só não se criaria contra a Oranje, bastante ativo no ataque, mas marcado de perto por Ruud Krol. Então, aconteceria o primeiro encontro com o Brasil, na decisão do terceiro lugar. O jovem chegou a triscar a trave de Emerson Leão e deu uma linda assistência para Franco Causio abrir o placar, mas não evitaria a virada brasileira por 2 a 1, lembrada pela famosa patada de Nelinho que superou Dino Zoff.

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Paolo Rossi deixou a Copa de 1978 com moral, apontado como o melhor jogador de sua equipe na campanha – e escolhido pela Fifa como segundo melhor do Mundial. Sua boa participação no torneio, disputando todos os 630 minutos da Itália na Argentina, são importantes para entender a relação que se criou com Enzo Bearzot e também a aclamação que recebeu no país. O atacante seguiu como peça intocável na linha de frente da Azzurra no ciclo posterior, mesmo rebaixado com o Vicenza e emprestado ao igualmente modesto Perugia. Anotou quatro gols em dez amistosos concentrados entre o segundo semestre de 1978 e o primeiro semestre de 1980. A seleção italiana se preparava para disputar a Euro 1980, com a classificação automática como país-sede do torneio. Pablito foi titular da equipe em 19 de abril, menos de dois meses antes da estreia, em duelo contra a Polônia. Contudo, não pôde estar em sua primeira Eurocopa. Sua punição pelo envolvimento com o escândalo do Totonero veio à tona exatamente neste período. Suspenso inicialmente por três anos, o artilheiro acabou de fora da lista final à Euro e veria de longe a modesta campanha dos azzurri, limitados à quarta colocação.

A Itália sofreu sem Paolo Rossi. Não de imediato, com o bom segundo semestre de 1980, emendando cinco vitórias consecutivas. Quatro desses triunfos aconteceram pelas Eliminatórias da Copa de 1982 e seriam essenciais à classificação da Azzurra. Porque, afinal, o time despencaria de rendimento nos meses seguintes. A Itália venceu somente dois jogos nos 12 compromissos posteriores, até a estreia no Mundial. Por sorte, a queda vertiginosa não comprometeu a campanha nas Eliminatórias. Os italianos até perderam na visita à Dinamarca, mas seguraram empates contra Iugoslávia e Grécia, que evitaram a ameaça dos dinamarqueses, confirmando a classificação. O último compromisso pelo qualificatório foi uma vitória, mas um fraco 1 a 0 contra a incipiente seleção de Luxemburgo, que deixou os azzurri atrás dos iugoslavos na tabela do grupo – mas com a vaga rumo à Copa.

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Num time que sofria para conquistar seus resultados, Bearzot era o alvo mais fácil. O treinador recebia grande parte das críticas por não acertar a equipe e era visto como ultrapassado. Ainda assim, o comandante resolveu abraçar um sebastianismo ao redor de Paolo Rossi – acreditando inclusive em sua inocência. A pena relativa ao Totonero seria reduzida de três para dois anos. Com isso, o atacante estaria livre para voltar a jogar em maio de 1982, a menos de dois meses da estreia na Copa do Mundo. Contratado pela Juventus durante o banimento, o artilheiro se preparou ao Mundial treinando com o clube. Voltou aos gramados contra a Udinese, em vitória por 5 a 1 na qual anotou um dos gols e teve boa atuação. Bearzot era justamente um dos espectadores, garantindo que o atacante não perderia seu espaço na convocação.

“A tensão muitas vezes foi enorme, pois as pessoas, a opinião pública e os jornais estavam sempre atentos. Era preciso prestar a máxima atenção para qualquer palavra a mais ou a menos. Na verdade, se não tivessem falado tanto sobre o meu retorno, eu teria até ficado um pouco desiludido. Não teria vivido tão intensamente certas emoções. Se todo esse clamor não fizesse parte da minha vida, não teria nem recomeçado a jogar. Acreditem, foi difícil e fantástico ao mesmo tempo”, diria Paolo Rossi, em aspas reproduzidas pela revista Placar na época. “Não parei de trabalhar nem um minuto durante os dois anos em que estive suspenso, no campo e fora dele. Suei e cansei mais do que os outros, mas isso serviu para me amadurecer muito. Hoje, tenho certeza absoluta de que conseguirei recuperar o tempo perdido”.

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Com apenas três partidas na Serie A 1981/82, Paolo Rossi teve o gosto de conquistar o Scudetto com a Juventus. Em compensação, também sentiu na pele como nem todo o país o apoiava. Sua história havia se transformado em uma grande novela, acompanhada por todos os jornais. E os rivais se aproveitaram disso para atacá-lo. Na visita ao Catanzaro, que definiu o título, o atacante foi recebido no aeroporto por cusparadas e moedas. Já no estádio, uma faixa nas arquibancadas dizia: “Rossi, vendido, retorne ao esgoto”. Sua resposta veio em campo, numa boa atuação para consagrar a Velha Senhora. Mostrava como não tinha esquecido suas virtudes com a bola, ainda que a convocação à Copa do Mundo parecesse um salto demasiado grande a quem ficou dois anos parado.

Paolo Rossi seria chamado por Enzo Bearzot e se juntaria à Nazionale no final de maio. Para tanto, o treinador não se esquivou das polêmicas e deixou de fora Roberto Pruzzo – que não tinha rendido tão bem nas chances anteriores pela seleção, mas havia sido artilheiro das duas edições anteriores da Serie A com a camisa da Roma. Alguns dos próprios companheiros não botavam fé em Pablito. Rossi já não era mais visto como o xodó de todo o país, o artilheiro de um clube pequeno que empilhou gols e deu conta do recado em sua primeira Copa do Mundo. Porém, mesmo que muitos não acreditassem na inocência do ponta de lança após sua condenação no Totonero, Bearzot certamente não era o único a pensar que o camisa 20 poderia fazer a diferença no Mundial, diante de sua refinada qualidade e de seu faro de gol. A ausência do veterano Bettega, cortado por lesão, aumentava as expectativas sobre o camisa 20.

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“Todo mundo espera milagres de mim, mas fiquei inativo por dois anos e moralmente deprimido por muito tempo. Iniciei um retorno há apenas poucos dias. Isso é demais para qualquer um. Mas tudo isso agora pertence ao passado. Decidi esquecer, porque não posso guardar rancor para sempre pelo que me fizeram”, dizia Rossi, agradecendo a confiança, mas tentando se desvencilhar da pressão.

O retorno de Paolo Rossi ao comando do ataque da Itália aconteceu no final de maio, durante uma amistoso preparatório. O camisa 20 seria titular na linha de frente ao lado de Francesco Graziani, mas sua contribuição foi limitada no empate por 1 a 1 com a Suíça, que não aliviou o clima de desconfiança ao redor da Azzurra. Pior seria a própria relação com a imprensa italiana, que se rompeu durante a concentração na Espanha. Rossi não estava em seu melhor ritmo e não conseguia acompanhar a intensidade dos treinamentos. Além disso, dores no nervo ciático o poupavam de certas atividades. E antes da estreia, um jornal sensacionalista resolveu publicar um boato que o artilheiro mantinha relações afetivas com Antonio Cabrini, seu companheiro de quarto. O camisa 20 entendeu aquela afirmação como um desrespeito e deixou de conversar com os jornalistas do país, ato seguido depois por seus colegas de elenco e até por Bearzot.

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A primeira adversária da Itália na Copa de 1982 seria exatamente a Polônia, última seleção que Paolo Rossi enfrentou antes de ser suspenso. Apesar de suas dificuldades físicas, havia um sentimento de respeito ao atacante, traduzido por Zbigniew Boniek – craque dos alvirrubros e futuro companheiro do atacante na Juventus. “Excluindo Paolo Rossi, que na minha opinião é, individualmente, o jogador mais talentoso e técnico do Grupo 1, não vejo no ataque italiano nenhum outro elemento que represente uma ameaça ou uma simples preocupação para nós”, diria o meio-campista, ao Jornal do Brasil.

Não seria naquela partida, contudo, que Paolo Rossi reafirmaria novamente o seu esplendor. A Itália até jogou melhor que a Polônia e apresentou um futebol mais ofensivo, mas não conseguiu passar do empate por 0 a 0 em Vigo. Pablito repetiu a dupla com Graziani e serviu como homem de referência no centro do ataque, mas tinha sua mobilidade limitada e não conseguiu acompanhar as jogadas sobretudo nos minutos finais. Ainda assim, uma das melhores chances da Azzurra veio com camisa 20, em cabeçada cruzada que passou muito próxima da trave de Jozef Mlynarczyk. O empate negava as perspectivas de que os italianos fariam um papelão no Mundial. Ainda assim, não era o melhor resultado para atenuar as críticas.

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Depois da partida, Bearzot elogiou publicamente Paolo Rossi. O treinador não era de fazer distinções individuais, mas achou pertinente dizer que o atacante tinha sido “o craque de sempre”, por mais que tenha se cansado durante os minutos finais. A avaliação do Jornal dos Sports no dia seguinte seria um pouco mais crítica com a exibição individual do artilheiro, embora fizesse uma conclusão com ares proféticos: “Paolo Rossi teve uma movimentação terrível no ataque. Habilidoso e inteligente, deu um show nos poloneses com seus dribles curtos e objetivos. Perdeu, contudo, excelentes oportunidades para marcar. De qualquer maneira, quem o viu ontem ficou com a certeza de que o craque italiano poderá se tornar um dos melhores da competição”.

Na segunda rodada, a Itália enfrentou o Peru. A equipe dirigida pelo brasileiro Tim não havia agradado na estreia contra Camarões, em empate sem gols, mas inspirava respeito por seu próprio retrospecto recente nas Copas. Enzo Bearzot preferiu não modificar a Itália, mantendo os 11 titulares para o confronto em Balaídos. No entanto, as desconfianças sobre o potencial da Nazionale aumentaram com o empate por 1 a 1. A Azzurra fez um bom primeiro tempo e abriu o placar aos 18 minutos, num golaço de Bruno Conti em chute de fora da área. O problema é que a equipe recuou no segundo tempo e permitiu que os peruanos pressionassem. Já aos 38, Rubén Toríbio Díaz garantiu a igualdade à Blanquirroja. Bearzot declarou após a partida que os sul-americanos mereciam a vitória.

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Paolo Rossi ao menos se safou das críticas mais ácidas naquela partida. O atacante seguia apresentando sua evidente falta de ritmo e não participou diretamente do gol. Em compensação, sempre dava demonstrações de habilidade e técnica quando recebia a bola. Por conta das condições físicas, Enzo Bearzot preferiu poupá-lo e colocar Franco Causio em seu lugar na volta do intervalo, até para dar mais combatividade na saída de bola dos peruanos. Assim, Pablito não esteve presente no declínio vivido por seu time ao longo do segundo tempo.

A Itália encerrou sua participação na fase de grupos já sabendo do que precisaria – na última edição do torneio em que os jogos da rodada final não eram simultâneos. A Polônia, além de empatar sem gols contra Camarões na segunda rodada, jogou antes seu terceiro compromisso e goleou o Peru por 5 a 1, assegurando a classificação. Assim, um dia depois, o empate bastava aos italianos contra os camaroneses, já que tinham vantagem sobre os Leões Indomáveis no número de gols marcados – sem que os africanos tivessem balançado as redes ainda na competição. Embora fosse uma seleção novata e pouco conhecida, Enzo Bearzot não caía no erro de menosprezar os adversários. Antes do embate, disse se preocupar com Camarões e elogiou principalmente o meio-campo dos oponentes.

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Paolo Rossi, por sua vez, estava confirmado no ataque. E indicava sua gratidão ao treinador, em entrevista à Associated Press: “Preciso jogar, como precisaria qualquer um em minha situação. A decisão do técnico e o estímulo do público me dão confiança e ânimo para ter o melhor desempenho possível. Agora que me livrei do fantasma da Copa de 1978, vejo o futuro com mais otimismo. Desde o início, eu disse que um só homem não pode transformar todo um time. Quando um joga bem, todos merecem o crédito, e o mesmo acontece quando joga mau: todos compartilham a culpa. Esperava jogar um pouco melhor até aqui. Havia melhorado a cada partida, até que enfrentamos o Peru. Eu estava bem antes do jogo, mas acabei tendo um mal dia”.

Os dois empates emendados pela Itália, porém, geravam duras críticas na imprensa local sobre o rendimento do time e previam sofrimento contra Camarões. Paolo Rossi era tachado como “inexistente” pelos principais jornais esportivos do país. E o novo duelo em Vigo daria razão aos jornalistas: a Azzurra não passou do empate por 1 a 1 contra os Leões Indomáveis. Não foi uma partida na qual os italianos sofreram grandes riscos, já que os camaroneses passaram boa parte do tempo na defesa e tentaram achar algum contra-ataque com Roger Milla, isolado na frente. Apesar disso, os azzurri não conseguiram transformar sua superioridade em vitória, parando na grande atuação do goleiro Thomas N’Kono. A terceira partida sem vencer na Copa aumentava a impressão de que o time de Enzo Bearzot se transformaria em presa fácil na fase seguinte.

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Durante o primeiro tempo, a Itália desperdiçou um caminhão de gols em Vigo. Foram diversas chances não aproveitadas, por mais que N’Kono vivesse tarde inspirada. O próprio Paolo Rossi seria um dos responsáveis por esses erros, quando Fulvio Collovati acertou o travessão e o camisa 20 não conseguiu cabecear o rebote na meta escancarada, mandando a bola para fora. O atacante era mais participativo por sua movimentação do que nas finalizações. Assim, seria responsável por criar a jogada do gol que abriu o placar. Aos 15 minutos do segundo tempo, Rossi abriu pela esquerda e aproveitou a marcação espaçada para fazer um cruzamento preciso. Graziani acertou a cabeçada cruzada e finalmente venceu N’Kono.

A Itália só não teve muito tempo para comemorar. Camarões até então se limitava a chutes de longe, mas conseguiu arrancar o empate um minuto depois. Uma troca de passes em velocidade envolveu a defesa italiana, até que Milla ajeitasse de cabeça para Grégoire Mbida concluir às redes. A meia hora final guardou um bombardeio da Azzurra, com diversas chances criadas, mas N’Kono parecia intransponível. Rossi seguiu tentando criar espaços aos companheiros, sem sucesso. O empate por 1 a 1 classificava os italianos, mas foram os camaroneses que saíram ovacionados pela torcida espanhola, diante da excepcional campanha. E as críticas aumentavam na Bota.

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Depois da partida, Bearzot preferiu não fazer comentários sobre a participação de Paolo Rossi. Apesar da assistência, a atuação do camisa 20 ainda era avaliada como “apagada” pelos jornais. O treinador só garantiu que seu pupilo estava bem, tanto fisicamente quanto psicologicamente. E realmente precisaria estar: com a segunda colocação na chave, a Itália passou a ser vista como azarona no triangular seguinte. Pegaria a Argentina, campeã do mundo quatro anos antes, e o Brasil, favorito para muitos diante do futebol exuberante apresentado até então. Bearzot garantia que seu time não seria saco de pancadas, prometendo cumprir dignamente seu papel no Mundial.

Entre os brasileiros que não descartavam a Itália estava Paulo Roberto Falcão. O Rei de Roma se via ambientado ao Calcio e fazia seu comentário ao Jornal do Brasil, avaliando um erro as expectativas criadas sobre Rossi: “O Paolo Rossi só jogou três partidas do Campeonato Italiano depois de dois anos suspenso. A Itália vinha mal e me parece que jogaram muita responsabilidade nele, que ainda não recuperou sua forma. O Rossi virou uma espécie de salvador da pátria e isto é ruim. De qualquer forma, a Itália será um adversário difícil porque cresce em competições difíceis”.

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Antes do encontro com o Brasil, a Itália abriu o triangular diante da Argentina. E aquela partida em Barcelona já serviu para tirar uma carga das costas dos italianos, com a vitória por 2 a 1. Existia uma grande expectativa sobre a Albiceleste estrelada por Diego Maradona, Mario Kempes e Daniel Passarella. Entretanto, a Azzurra fez a sua melhor exibição no Mundial até então para desbancar o favoritismo do outro lado. A objetividade e a garra dos italianos acabaram sendo fatores decisivos para o triunfo, especialmente pela marcação férrea desempenhada por Claudio Gentile em cima de Maradona. Apesar de tudo, Paolo Rossi seguia em branco e se mantinha abaixo da crítica.

O primeiro tempo no Estádio de Sarrià terminou sem gols, mas mostrou a capacidade da Itália para vencer o encontro. Marcava forte a Argentina, por vezes com violência, e Dino Zoff apareceu bem quando precisou trabalhar. Além disso, a Azzurra saía com mais velocidade ao ataque, ganhando confiança com o passar dos minutos. Essa superioridade se traduziu no segundo tempo. Paolo Rossi não aparecia muito ao jogo, servindo mais para prender a marcação e abrir espaços aos meio-campistas que se juntavam à frente. Foi assim que Marco Tardelli abriu o placar aos 12 minutos, em infiltração livre pela esquerda, batendo cruzado diante de Ubaldo Fillol.

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A Argentina poderia ter empatado na sequência, com várias oportunidades, especialmente nas bolas paradas. Zoff colecionou milagres e ainda contou com a sorte, ao ver uma falta cobrada por Maradona bater na trave. A Itália tinha mais espaço aos contra-ataques e Paolo Rossi desperdiçou uma grande chance aos 22. O atacante invadiu sozinho a área e bateu em cima de Fillol. Seu erro, ao menos, não custaria tão caro e a Azzurra conseguiu o segundo gol na sequência da jogada, quando Bruno Conti ajeitou ao arremate de Antonio Cabrini rumo às redes. A Argentina até descontou aos 38, num gol de falta de Passarella enquanto Zoff arrumava a barreira e foi pego desprevenido. Mesmo assim, os italianos poderiam muito bem ter anotado o terceiro, com vários contragolpes jogados fora. Rossi havia saído neste momento, substituído por Alessandro Altobelli a dez minutos do fim.

No dia seguinte, o Jornal do Brasil comentava o papel mais tático de Paolo Rossi: “Joga com técnica tanto para atacar quanto na armação das jogadas. Fica recuado ajudando o meio de campo nas trocas de passes e, eventualmente, vai à frente para buscar o gol. Não está bem fisicamente”. Independentemente disso, havia quem defendesse a reserva ao camisa 20. Muitos questionavam não apenas seus problemas físicos, mas também uma visível falta de concentração, como se a excessiva exposição antes do Mundial e todas as discussões ao seu redor o deixassem sem confiança. Enzo Bearzot, de qualquer maneira, bancava o seu artilheiro.

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Por ter perdido para a Itália, a Argentina precisou enfrentar antes o Brasil. A Seleção confirmou a badalação com sua principal vitória na Copa, batendo os rivais por 3 a 1. Então, aconteceria a histórica partida no Sarrià. Havia um otimismo exacerbado ao redor dos brasileiros e a expectativa de que o time de Telê Santana conquistasse ao menos o empate, que já valia a classificação às semifinais. Faltou combinar com Paolo Rossi, renascido naquele 5 de julho de 1982, para uma das maiores atuações da história dos Mundiais.

Paolo Rossi precisou de cinco minutos para mostrar que aquela seria mesmo a sua tarde no Sarrià. Logo de cara, o artilheiro fuzilou Waldir Peres e abriu sua contagem na Copa do Mundo. O cruzamento de Antonio Cabrini veio perfeito ao companheiro no segundo pau e ele percebeu muito bem o buraco na defesa brasileira. Apareceu sozinho para desferir a cabeçada indefensável. “O primeiro gol foi o mais importante, porque me devolveu a confiança no sentido completo da palavra. A partir daquele momento, era como se alguém lá em cima estivesse olhando por mim. Nada estava dando certo e, de repente, tudo passou a dar. Tudo se tornou repentinamente tão fácil. Essa é a beleza do esporte. Um gol pode mudar tudo. No meu caso, mudou minha vida inteira”, declararia Rossi, anos depois, ao site da Fifa. “Era uma questão de confiança. Eu estava sob muita pressão, porque todos tinham grandes expectativas sobre mim. Quando você não corresponde, está no limbo. Um gol, quando vem, é como o maná dos céus a um atacante. Ele te concede uma nova vida”.

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Paolo Rossi partia em velocidade contra a defesa exposta do Brasil, mas a reação da Seleção não demorou a acontecer. Aos 12 minutos, uma grande combinação entre Zico e Sócrates permitiu o empate. Porém, Pablito reapareceria para infernizar os brasileiros pouco depois, aos 25. Toninho Cerezo deu uma bobeira imensa e entregou o passe nos pés do artilheiro adversário. O camisa 20 disparou e, diante de Waldir Peres, acertou o chute no canto. A Itália retomava a vantagem. Na sequência do primeiro tempo, apesar da pressão brasileira, a equipe finalizava mal e permitiu que os italianos fossem ao intervalo com a vitória parcial.

O segundo tempo não mudaria de patamar, com o Brasil partindo ao abafa e a Itália marcando firme na defesa, sem conceder tantos espaços a boas finalizações. A estratégia da Azzurra era buscar os contra-ataques e Paolo Rossi poderia ter matado o jogo antes. Aos 13 minutos, Graziani arrancou pela esquerda e fez o cruzamento ao companheiro de ataque, que entrava livre no segundo pau. Waldir Peres fechou o ângulo, mas dava para Pablito concluir melhor, mandando o chute rente à trave. De tanto martelar, a Seleção arranjou o empate aos 23. A marcação italiana errou na movimentação e permitiu que Falcão tivesse todo o tempo para preparar o chute na meia-lua e tirar do alcance de Zoff com uma paulada.

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A imagem de Falcão comemorando aquele gol, de braços abertos e veias saltadas de tanto gritar, marcou a campanha do Brasil. Mas aquela alegria durou pouco. Mais exatamente, acabou apenas seis minutos depois, em outro vacilo da marcação brasileira. Aos 29, a Itália ganhou um escanteio pela direita. O cruzamento nem parecia tão perigoso, mas a sobra não foi afastada completamente e Tardelli bateu para o meio da área. Paolo Rossi, o iluminado, estava no lugar certo para desviar a bola e completar sua tripleta ao bater no contrapé de Waldir Peres. Foi o tento mais fácil da partida, mas também aquele que melhor representava como o camisa 20 estava em seu dia.

Depois disso, o desespero bateu no Brasil e a equipe pouco criou para empatar novamente. A melhor chance seria a famosa cabeçada de Oscar, defendida brilhantemente por Dino Zoff, sem nem dar rebote. Antes disso, porém, a Itália teve o quarto gol anulado. Paolo Rossi arrancou pela direita e iniciou a jogada que terminou com a finalização de Giancarlo Antognoni, mas o camisa 9 estava em posição irregular segundo o bandeira. Aquele tento, ao menos, não faria falta. E permitiria que Pablito fosse mesmo o único responsável pelos gols na histórica vitória por 3 a 2. O triunfo que decretou a Tragédia do Sarrià e colocou a Azzurra na semifinal da Copa do Mundo.

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“Eu não pensei que a Itália não pudesse vencer. Sempre pensei que a Itália poderia vencer esta partida. Mesmo com os dois empates, não houve um momento de desconfiança. Tinha só o pensamento de recomeçar e tratar de vencer a partida. Não pensei em qualquer momento do jogo que pudesse mudar, que não pudéssemos chegar. Essa era uma ideia fixa que eu tinha na minha mente”, relataria Paolo Rossi, anos depois, ao Globo Esporte.

No dia seguinte, os jornais exaltavam a figura de Paolo Rossi. O atacante se eternizava como carrasco do Brasil, talvez o mais célebre ao lado de Alcides Ghiggia e Zinedine Zidane. “Paolo Rossi foi o grande destaque do jogo, reabilitando-se das atuações anteriores. Fez os três gols da Itália e perdeu mais um, sozinho. Mostrou muito oportunismo e espírito de luta”, comentava o Jornal dos Sports. Já nas páginas da revista Placar, Juca Kfouri definiria: “A Itália viu, quando ninguém mais acreditava, a ressurreição do competente Paolo Rossi, verdadeiro verdugo das nossas mais belas esperanças”.

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Telê Santana, depois do jogo, adotava um tom resignado e reconhecia o talento do artilheiro italiano: “Assim como Zico, Paolo Rossi é um grande jogador e um grande jogador sempre encontra espaços. Foi o que aconteceu. Ele é um jogador inteligente e, mesmo ficando dois anos parado, não esqueceu nada. Não tínhamos que colocar ninguém especialmente sobre ele porque não jogamos desta forma, mas é indiscutível que ele sabe aproveitar os espaços. Não subestimei Paolo Rossi. Jamais faria isso. Ele sempre foi um grande jogador. Nossas falhas nada têm a ver com a sua indiscutível competência”. Já Bearzot apontou: “Para mim é uma enorme recompensa, uma maravilha mesmo. Sempre confiei em Rossi e ele não me decepcionou. Eu precisava de gols e Paolo me entregou”.

Depois da partida, ainda circulou um boato de que Paolo Rossi estaria dopado. Só assim para alguns tentarem explicar a mudança súbita do atacante. O detalhe é que Pablito, dois quilos abaixo de seu peso na campanha, foi sorteado para o exame antidoping no Sarrià. O resultado negativo a qualquer substância proibida pela Fifa reafirmava, mais que sua inocência, a sua excelência. E a injeção de ânimo o conduziria no restante da Copa.

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A semifinal guardou um reencontro à Itália: os azzurri pegariam a Polônia, sua adversária na estreia e que avançou num triangular mais acessível, contra Bélgica e União Soviética. Os poloneses tinham grandes jogadores, mas não contavam com uma seleção tão forte quanto a de 1974 e o desfalque do suspenso Boniek pesaria bastante à semifinal. Mais do que isso, parecia difícil desafiar a segurança da Azzurra neste momento, depois do triunfo contra o Brasil. O próprio Enzo Bearzot deixava a modéstia de lado, dizendo ser difícil não imaginar seu time na final, apesar do respeito aos oponentes. O embate no Camp Nou fluiria com mais facilidade aos italianos, para de novo Paolo Rossi ser o nome da tarde.

A Itália fazia uma partida segura desde o primeiro tempo e criava os melhores lances. Paolo Rossi mantinha sua movimentação, buscando o jogo atrás e preparando os lances aos companheiros. Todavia, a inspiração era dele e o primeiro gol cairia em seus pés aos 21 minutos. Antognoni cobrou falta pela direita e a bola passou por todo mundo, até que Pablito a encontrasse na pequena área. Sem dificuldades, o matador apenas desviou para dentro.

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Na segunda etapa, a Polônia partiu mais ao ataque, mas os italianos mantinham a situação sob controle e Zoff não precisava fazer tantas defesas. A Azzurra de novo explorava os contra-ataques e foi assim que Rossi fechou a vitória por 2 a 0. Conti recebeu de Altobelli e cruzou na medida ao segundo pau, onde o camisa 20 se encontrava livre. O atacante até se abaixou para concluir de cabeça, chegando ao seu quinto tento no Mundial. Assumia a artilharia do torneio àquela altura e confirmava os italianos na decisão.

“Paolo Rossi foi o grande nome do jogo. Não só marcou os dois gols da vitória, como ajudou o meio-campo e até mesmo a defesa. Recuou para buscar jogo, mostrando humildade e vontade de ganhar”, descrevia o Jornal dos Sports, elogiando a apresentação do atacante. Já o Jornal do Brasil comentava: “Paolo Rossi deixou o gramado do Camp Nou com a fama de artilheiro consolidada. Habilidoso e oportunista, estava sempre bem colocado e, quando houve oportunidade, marcou os dois gols da partida. Leve, transtornou a pesada zaga polonesa com sua agilidade e jogo de cintura”.

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A decisão contra a Alemanha Ocidental deixava a Itália com o favoritismo no colo. A Mannschaft chegou com pompas à Espanha, especialmente após o título na Euro 1980. Entretanto, a equipe minguou especialmente com a derrota diante da Argélia e precisou da infame combinação de resultados com a Áustria para avançar. Até cresceu a partir do triangular, mas parecia ser um time que atuava no limite. Os 120 minutos para eliminar a França na semifinal haviam sido bastante desgastantes e o craque Karl-Heinz Rummenigge atuava lesionado. Era um clima bem diferente do vivido na Azzurra, com uma equipe bem mais embalada e encaixada.

Antes da partida, Paolo Rossi lembrou de sua infância. Tinha 13 anos quando a Itália disputou a decisão da Copa de 1970 contra o Brasil. Ele, ainda garoto, havia acompanhado o jogo na TV. “De repente, você percebe que é você o protagonista desta cena que havia vivido 10, 15 anos antes pela televisão. Você sabe que é um daqueles que o mundo todo olha neste momento, E você sabe que pode entrar para a história”, afirmou anos depois, em entrevista ao Canal+.

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No fim das contas, a partida no Estádio Santiago Bernabéu não fugiu dos prognósticos. A Itália seria amplamente superior e conquistou a vitória por 3 a 1. A equipe não começou tão bem, mas não que a Alemanha Ocidental representasse grande perigo. Com o passar dos minutos, contudo, a Azzurra melhorava e até se deu ao luxo de desperdiçar um pênalti com Cabrini aos 24 minutos. O primeiro gol ficaria à etapa complementar, aos 12. E quem, além de Paolo Rossi, poderia marcar? Gentile cruzou da direita, Altobelli não conseguiu completar e Pablito escorou de cabeça na pequena área.

A Alemanha Ocidental assustou em um lance ou outro, mas sem exercer uma pressão concreta. E a velocidade da Itália nos contragolpes determinaria o placar amplo. O segundo veio aos 24, no famoso chute de Tardelli na meia-lua. Aos 36, Altobelli também pôde anotar o seu, num avanço totalmente aberto dos italianos puxado por Conti. Os alemães-ocidentais só descontaram depois disso, aos 38, com Paul Breitner se responsabilizando pelo gol de honra. Nada que atrapalhasse a noite de festa da Azzurra, pelo tricampeonato mundial, encerrando a espera de 44 anos. Nada que impedisse a consagração definitiva de Paolo Rossi, eleito o melhor jogador da Copa e também artilheiro isolado com seis gols. Ao final do ano, ainda faturou a Bola de Ouro.

“A vitória contra o Brasil foi importante porque criou uma certa aura ao redor da equipe. Os jogos seguintes pareciam meras formalidades, mesmo que não fossem. A partida contra a Polônia era fácil em comparação, contra a Alemanha também. Nós nos sentimos como os melhores do mundo, ninguém podia nos tocar”, contaria Paolo Rossi, à Fifa, anos depois. “Receber a taça foi uma alegria indescritível. Quando você joga futebol a vida toda, esse é um sonho que se torna realidade. Quando você a ergue… Mas não percebe na hora, leva um tempo até realmente ter noção. Com o passar do tempo, você percebe que fez algo excepcional e, mais importante, deixou tanta gente feliz. Os resultados em si não tem significado, mesmo as realizações pessoais. Mas saber que todas essas pessoas tiveram tanta alegria com sua conquista traz uma enorme sensação de alegria interior”.

“Não me lembro exatamente quando chegamos na Itália, mas me lembro da recepção incrível que recebemos. Do aeroporto ao palácio do governo, onde jantamos com o presidente, eu me lembro de uma enxurrada de pessoas vibrando nas ruas. Foi como se a guerra tivesse acabado. São momentos históricos que todos se lembram se estavam lá ou o que estavam fazendo na hora. Não existem muitos momentos assim na vida. São memórias fabulosas, maravilhosas. Momentos de alegria e felicidade a todos”, concluía o herói de uma nação, lembrado para sempre como a face do tricampeonato. Eternizado.