Por que a promissora seleção norueguesa pode ser a ‘nova Croácia’ desta Copa do Mundo
Equipe escandinava combina talento e consistência e passa a ser observada como possível surpresa do Mundial
Durante anos, a Noruega conviveu com uma contradição no futebol internacional. Enquanto revelava talentos importantes espalhados pela Europa, a seleção seguia incapaz de transformar potencial individual em classificação para grandes torneios. O país viu jogadores como Erling Haaland e Martin Odegaard alcançarem o estrelato nos maiores clubes do continente antes mesmo de conseguir encerrar o longo jejum em Copas do Mundo.
Esse cenário finalmente mudou. Depois de quase três décadas longe do principal palco do futebol, a Noruega voltou ao Mundial em 2026 e, pelo menos em sua estreia, deu motivos para acreditar que sua trajetória pode ir além de uma simples participação. A vitória por 4 a 1 sobre o Iraque foi uma das atuações mais convincentes da primeira rodada, com Haaland marcando dois gols e liderando uma equipe que parece muito mais madura e organizada do que em ciclos anteriores.
Ainda é cedo para colocá-la no mesmo patamar de seleções como França, Argentina e Espanha. A própria caminhada nas próximas semanas deve impor desafios muito mais complexos do que o encontrado diante dos iraquianos.
Veja o ranking dos melhores terceiros colocados da Copa do Mundo.
DNA esportivo e recorde prematuro: Haaland nasceu para ser um fenômeno da Noruega
Senegal, próximo adversário da equipe no Grupo I, representa um teste bem mais duro e pode oferecer uma dimensão mais real do potencial norueguês. Mesmo assim, há elementos suficientes para enxergar na seleção escandinava uma candidata a surpreender no mata-mata.
Talvez a melhor comparação seja com a Croácia de outras Copas. Não necessariamente pelo estilo de jogo, mas pela capacidade de construir campanhas acima das expectativas sem carregar o peso do favoritismo. Os croatas chegaram à final em 2018 e à semifinal em 2022 sustentada por uma combinação de talento, organização coletiva e confiança. A Noruega tenta trilhar caminho semelhante.
Uma classificação que mudou o patamar da seleção norueguesa
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O primeiro indício de que algo diferente estava acontecendo apareceu ainda nas Eliminatórias. Depois de anos acumulando frustrações, a Noruega realizou uma campanha praticamente perfeita para garantir presença na Copa do Mundo. A equipe venceu os oito jogos que disputou, terminou com 100% de aproveitamento e confirmou a vaga de maneira incontestável.
Mais importante do que os resultados foi a forma como eles aconteceram. A Noruega deixou de ser uma seleção excessivamente dependente de momentos individuais e passou a apresentar uma identidade coletiva mais clara sob o comando de Stale Solbakken. O treinador conseguiu construir uma equipe equilibrada, capaz de pressionar alto, atacar em velocidade e aproveitar a qualidade técnica de seus principais jogadores.
Naturalmente, Haaland segue sendo a figura central do projeto. O centroavante foi o principal nome da campanha classificatória, anotando 16 gols em oito partidas. Nenhum jogador simbolizou tanto a transformação da seleção quanto ele.
Mas reduzir os noruegueses a Haaland seria um erro. Odegaard oferece criatividade e controle no meio-campo. Sorloth amplia as opções ofensivas com sua força física e presença de área. Antonio Nusa acrescenta velocidade e capacidade de desequilíbrio pelos lados, enquanto Sander Berge garante sustentação e equilíbrio. Trata-se de uma geração mais profunda e versátil do que aquelas que o país produziu nas últimas décadas.
O resultado é uma seleção que parece confortável em diferentes cenários de jogo. Contra adversários mais frágeis, consegue controlar a posse e empurrar o rival para trás. Contra equipes de maior nível, tem recursos para acelerar transições e explorar espaços.
Essa versatilidade costuma ser um atributo importante em torneios curtos.
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A estreia mostrou força, mas também deixou lições
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O placar de 4 a 1 sobre o Iraque chamou atenção imediatamente, mas a partida foi um pouco mais complexa do que a diferença no marcador sugere. Durante alguns momentos, principalmente após o empate iraquiano ainda no primeiro tempo, a Noruega precisou lidar com pressão e desconforto. O adversário criou situações interessantes e mostrou que o jogo estava longe de ser controlado.
Foi justamente nesse contexto que apareceu o principal diferencial da equipe: a capacidade de transformar oportunidades em gols. Haaland abriu o placar, viu o Iraque reagir e, poucos minutos depois, recolocou os Vikings em vantagem antes do intervalo. A partir dali, a superioridade técnica prevaleceu. Leo Ostigard ampliou na etapa final e o placar ganhou contornos de goleada.
A atuação reforçou algo que já havia sido visto nas Eliminatórias. A Noruega talvez não tenha o volume de jogo das maiores favoritas, mas possui poder de decisão suficiente para castigar qualquer erro adversário.
Quando Haaland encontra espaço, poucas seleções conseguem sobreviver.
Ao mesmo tempo, o confronto de estreia também evidenciou aspectos que precisarão evoluir. Em alguns momentos, a defesa mostrou vulnerabilidade diante da pressão iraquiana e permitiu situações evitáveis perto da própria área. Contra Senegal, França ou um eventual adversário de mata-mata, esse tipo de oscilação pode custar caro.
É justamente por isso que ainda parece precipitado falar em candidatura ao título. As seleções campeãs normalmente combinam talento ofensivo com um grau de solidez que a Noruega ainda não demonstrou possuir de forma consistente.
O caminho da Noruega para virar a surpresa da Copa
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A discussão apontada acima, no entanto, talvez nem seja a mais interessante. Fato é que poucos times chegam à Copa com uma mistura tão equilibrada entre expectativa moderada e potencial de crescimento.
A Noruega não carrega a pressão histórica dos gigantes. Não será cobrada como França, Brasil ou Argentina. Entra em campo com “menos obrigação” de resultado, o que reduz o peso das decisões e pode influenciar diretamente o desempenho em jogos eliminatórios.
Se confirmar o favoritismo diante de Senegal e garantir a classificação antecipada, a equipe ganhará confiança e passará a ser observada com outros olhos. A partir daí, o mata-mata pode abrir caminhos inesperados.
Não seria uma surpresa vê-la cair nas oitavas para uma potência tradicional. Também não seria absurdo imaginá-la repetindo trajetórias que marcaram outras Copas recentes, como as de Croácia (2018 e 2022) e Marrocos (2022).
A Noruega talvez não tenha elenco para levantar a taça. Mas tem talento, organização e um dos atacantes mais decisivos do planeta. Em um Mundial cada vez mais aberto, isso costuma ser suficiente para sonhar com algo grande.
E, quem sabe, transformar uma seleção que passou décadas distante dos holofotes em uma das histórias mais interessantes desta Copa do Mundo.