Análise: Seleção brasileira reforça pressão sobre seu próprio sucesso em Copas do Mundo
Seleção não consegue dominar duelo com a Noruega e é eliminado de forma precoce no Canadá, Estados Unidos e México
Há um ponto negativo em ser o maior campeão do mundo: a pressão que recai sob seus ombros a cada nova edição da Copa do Mundo. A seleção brasileira é, de certa forma, culpada por seu próprio sucesso. Com a eliminação diante da Noruega, nas oitavas de final, o Brasil completará 28 anos sem títulos, igualando o período entre 1930 e 1958, quando ainda não havia se sagrado campeão.
São seis Mundiais sem ser campeão desde 2002. No futebol, é impossível vencer todos os anos. No Brasil, idem. Além da pentacampeã mundial, outras 47 seleções se juntaram à disputa no Canadá, Estados Unidos e México. Apenas uma se sagrará “campeã de fato”, as demais retornam às suas casas eliminadas. Isso é o esporte, e isso é a Copa do Mundo.
Quem saiu em baixa e em alta na Seleção após a Copa do Mundo?
É errado se frustrar quando a seleção brasileira não consegue se sagrar campeã? Não. Mas é preciso entender, após as lágrimas de Neymar, Casemiro e dos torcedores, que é normal perder. Na Copa do Mundo, a exceção é ser campeão. Ao longo dos anos, essa ideia parece ter se perdido — principalmente a partir da expectativa que se cria pelo sonho do hexa.
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Seleção brasileira vem carregando ‘fardo’ nas últimas Copas
Em 2026, 12 novas seleções se juntaram à disputa. Ainda que Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, tenha dito que o aumento no número de equipes cria um desinteresse pela Copa do Mundo, este fator aumenta a dificuldade em se sagrar campeão. De sete partidas para disputar, agora é necessário passar por oito jogos até o título mundial.
Tim Vickery, à Trivela, defendeu o “fardo” que se criou com a ambição da seleção brasileira pelo título. Afinal, nada além do título, para um povo que se acostumou a vencer, é o suficiente. Em certo ponto, o Brasil chega pressionado para ser a melhor equipe em campo e ser campeão. Qualquer coisa além disso é vista como fracasso, sem margem para erro.
Pegamos, por exemplo, este período sem títulos mundiais, desde 2002. Há resultados traumáticos, como o próprio 7 a 1. Com exceção desta goleada, classificada como “vexame” pelos mais diferentes veículos ao longo dos anos, as demais derrotas são circunstanciais, que “pertencem ao futebol”. Não é à toa que todas as seleções que eliminaram o Brasil em Mundiais chegaram ao menos às semifinais.
França, em 2006; Países Baixos, em 2010; Bélgica, em 2018; Croácia, em 2022; e Noruega, em 2026. Com exceção do duelo com Zinedine Zidane, na Alemanha, a seleção brasileira chegou a ser superior nos demais confrontos, mas foi eliminada. Contra os noruegueses, teve o pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães ainda no primeiro tempo, que poderia colocar o Brasil à frente do placar.
Este é um problema do futebol: nem sempre ser melhor é sinônimo de ser vencedor. Isso significa que o Brasil dominou a Noruega? Não necessariamente. É preciso colocar em perspectiva a própria eliminação. Em campo, não conseguiu se sobressair à adversária. Sofreu com Erling Haaland no segundo tempo e teve seu menor índice de posse de bola (34%) desde 1966, segundo dados da “Opta”. Mesmo assim, foi quem mais criou chances de gol.
— Eu acho que o Brasil, com esse plantel, poderia competir até o final da Copa do Mundo. No jogo de hoje me pareceu que tivemos oportunidades e controlamos — afirmou Ancelotti após a partida contra a Noruega.
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Maracanazo, em 1950, foi a maior derrota da seleção brasileira até o 7 a 1, no Mineirão, em 2014. Mesmo naquele ano, quando o Brasil perdeu o título para o Uruguai nos minutos finais — e poderia ser campeão até com o empate —, o tom adotado pela imprensa foi de “conformismo”. Um choque para os 200 mil presentes no Maracanã. Mas condizente com o que é o futebol.
— Uruguai, campeão mundial, de fato; mas o Brasil, melhor time do mundo — trouxe o “Jornal dos Sports”, em sua edição logo após a partida decisiva da Copa do Mundo de 1950.
É possível ser o melhor time em uma Copa do Mundo, mesmo sem o título. Foi o caso dos Países Baixos, de Johan Cruyff, em 1974, e da seleção húngara, em 1954. Ambas as equipes lideraram as estatísticas ofensivas e defensivas em suas respectivas edições. Terminar sem o título não é sinônimo de fracasso.
Após 1958, e os sucessos com Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo, Tostão, Gerson, Rivellino e cia, o que se criou no imaginário popular era a ideia de que o Brasil chega com a obrigação de ser campeão mundial. Não à toa, a maioria das eliminações desde então é marcada por traumas: “A Tragédia do Sarriá”, em 1982; “Convulsão de Ronaldo”, em 1998; roubo da arbitragem, em 1978, e por aí vai. Em 2026, será o “Tabu contra a Noruega”.
Esta pressão também se mostra presente no comando técnico da seleção brasileira. Até a chegada de Tite, que trabalhou nas Copas de 2018 e 2022, nenhum treinador havia permanecido no comando do Brasil após perder uma Copa do Mundo. Até Telê Santana, que encantou o mundo no Mundial de 1982, deixou a equipe e retornou às vésperas de 1986.
Este fenômeno ajuda a explicar o que se espera da seleção: nada além do sucesso objetivo. Ou seja, a taça. Em outros países, é diferente. Didier Deschamps chegou à sua quarta Copa do Mundo em 2026. Gareth Southgate comandou a Inglaterra em 2018 e 2022, mesmo sem títulos. E Thomas Tuchel, seu sucessor, já tem contrato assinado para permanecer na seleção inglesa até 2030. A própria Noruega trata a vitória sobre o Brasil como seu maior feito da história.
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Ancelotti tem confiança da CBF para continuar trabalho para 2030
Em 2026 será semelhante? Só o tempo dirá. Carlo Ancelotti tem a confiança da direção da CBF, e um contrato que lhe garante uma sobrevida até a próxima Copa do Mundo. Ele chegou a esta edição, aliás, sem um trabalho de longo prazo: um ano e apenas dez jogos até montar sua lista final. Não é possível ter uma análise completa com pouco mais de 12 meses à frente da seleção.
O Brasil, aliás, não é o único time do mundo que sofre com o seu sucesso. O Real Madrid, ao longo dos anos 2000, “moeu” diversos treinadores diante dos tropeços na Champions League — mesmo com outras conquistas na Espanha. Tanto a seleção brasileira quanto os merengues acostumaram seus torcedores com a vitória. E, no caso dos brasileiros, muitas vezes.
Além de conclusões absolutistas, é possível tirar algo de positivo desta campanha. O Brasil mostrou bons momentos, com uma formação com quatro atacantes (ou homens de frente), que não dava as caras desde 1970 — e em algumas partidas da campanha de 2002. Teve brilhos de Vinicius Júnior e Bruno Guimarães, protagonistas desta campanha.
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Além disso, pelo debate em torno de Neymar, e posteriormente com Endrick, é possível cravar: o brasileiro voltou a se interessar pela Amarelinha, mesmo que aos trancos e barrancos.
Só que, assim como a vida, não é possível vencer sempre. Danilo, lateral-direito, afirmou em uma das suas coletivas em Nova Jersey que o Brasil “nunca irá deixar a primeira prateleira da Copa do Mundo”. Argentina e França estavam em momentos melhores, por exemplo. E outras equipes, ao longo dos anos, conseguiram evoluir e igualar as ações com o Brasil.
Desde 1998, quando a Copa do Mundo passou a ser disputada por 32 seleções, seis equipes diferentes se sagraram campeãs. Além disso, 15 times chegaram às semifinais. Com exceção da Itália, todas estas seleções estiveram presentes no Mundial deste ano. E é impossível que todas conquistem o título, como ambiciona o Brasil ao longo dos anos.
O jejum é incômodo. Também não se espera que, assim como com Croácia e Bélgica, em 2018, Ancelotti e seus 26 convocados não irão parar o Rio de Janeiro para que a cidade receba a seleção brasileira, eliminada, de braços abertos. Mas é possível entender que há coisas para além da taça em uma Copa do Mundo — ainda que seja um “chavão”. Caso contrário, o torneio deixa de ser uma celebração de culturas e do próprio futebol para adotar um tom burocrático.