Copa do Mundo 2026

Pau Cubarsí: Como um zagueiro adolescente virou o alicerce da Espanha na Copa do Mundo

Aos 19 anos, defensor lidera principais estatísticas da posição, dita a saída de bola e chega à final como um dos protagonistas da seleção espanhola

Há jogadores que amadurecem com o tempo. Outros parecem nascer prontos. Aos 19 anos, Pau Cubarsí pertence claramente ao segundo grupo.

Enquanto a maior parte dos atletas da sua idade ainda busca espaço no futebol profissional, o zagueiro do Barcelona já se consolidou como titular de um dos maiores clubes do planeta, tornou-se peça indispensável da seleção espanhola e chega à final da Copa do Mundo como um dos principais responsáveis pela campanha que recolocou a Fúria na decisão após 16 anos.

A decisão contra a Argentina colocará frente a frente dois estilos consagrados, recheados de estrelas e talentos ofensivos. Ainda assim, um dos personagens mais influentes da partida atua longe dos holofotes normalmente destinados aos atacantes. Cubarsí não marca gols nem distribui assistências em sequência, mas poucos jogadores exercem tamanho impacto sobre o desempenho coletivo de sua equipe quanto o jovem defensor espanhol.

E isso fica evidente tanto aos olhos quanto nos números. Até aqui, nenhum defensor venceu tantos duelos defensivos quanto Cubarsí no Mundial. Sua taxa de sucesso chega a impressionantes 85%, liderando o torneio. Também é o zagueiro com maior número de passes progressivos por 90 minutos (11) e o que mais criou oportunidades de gol entre atletas da posição, com cinco chances produzidas.

Em outras palavras, ele reúne atributos que normalmente aparecem separados: é dominante sem a bola e igualmente decisivo quando a Espanha inicia suas jogadas.

Cubarsí vai muito além de defender: é o primeiro construtor da Espanha

Cubarsí em ação pela seleção espanhola
Cubarsí em ação pela seleção espanhola (Foto: David Buono / Icon Sportswire / IMAGO)

Durante anos, o futebol associou zagueiros quase exclusivamente à capacidade de marcar, cortar cruzamentos e vencer disputas físicas. Cubarsí representa uma geração que ampliou completamente essa definição.

Na Espanha, ele é o primeiro organizador da equipe.

Quando a pressão adversária sobe, é dele que costuma partir a serenidade para encontrar linhas de passe. Quando o jogo acelera, raramente perde a calma; e quando o adversário fecha os espaços, sua qualidade técnica permite quebrar linhas com naturalidade.

Os números ilustram isso com clareza. Cubarsí completou 96,2% dos passes durante toda a Copa do Mundo, índice impressionante para qualquer jogador e ainda mais extraordinário para alguém que atua justamente na zona do campo onde qualquer erro costuma ser fatal.

Mas a estatística talvez nem seja o aspecto mais impressionante. O que chama atenção é a forma como o camisa 22 da Espanha joga.

Não há ansiedade e não há precipitação. Tampouco existe o comportamento comum de um atleta que ainda sequer completou duas décadas de vida. Em muitos momentos, Cubarsí transmite a impressão de estar disputando sua terceira ou quarta Copa do Mundo. Sua leitura de jogo permite antecipar movimentos antes mesmo que os atacantes consigam desenvolver a jogada, seu posicionamento reduz a necessidade de carrinhos desesperados.

Enquanto boa parte dos jovens defensores depende da força física para compensar erros de posicionamento, Cubarsí faz justamente o contrário. Ele chega antes porque enxerga a jogada antes. A velocidade aparece mais na tomada de decisão do que na corrida.

Não por acaso, alguns dos atacantes mais perigosos do futebol mundial passaram praticamente despercebidos quando enfrentaram a Espanha. Mbappé, Dembélé, Olise, Doué e Cristiano Ronaldo encontraram um mesmo obstáculo ao longo da competição. Em diferentes contextos e estilos de jogo, todos tiveram enorme dificuldade para encontrar espaços diante do jovem espanhol.

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A maturidade que explica uma campanha histórica

Pau Cubarsí em jogo da Espanha na Copa do Mundo
Pau Cubarsí em jogo da Espanha na Copa do Mundo. Foto: IMAGO / Sports Press Photo

A força defensiva da Espanha nesta Copa dificilmente pode ser compreendida sem Pau Cubarsí.

A seleção sofreu apenas um gol enquanto o zagueiro esteve em campo durante toda a campanha. O dado impressiona, mas deixa de parecer coincidência quando se observa seu impacto dentro do sistema defensivo.

E o reconhecimento também aparece na história. Com a vitória sobre a França na semifinal, Cubarsí alcançou o sexto jogo sem sofrer gols em sete partidas de Copa do Mundo, tornando-se o jogador mais rápido a atingir essa marca na história da competição. O antigo recorde pertencia a Paolo Maldini, uma das maiores referências que a posição já produziu.

A comparação talvez parecesse precipitada alguns meses atrás. Hoje, ao menos estatisticamente, ela deixou de ser exagero. Naturalmente, carreira nenhuma se constrói em uma única Copa do Mundo. Maldini levou décadas para consolidar seu legado, enquanto Cubarsí ainda está apenas começando. Mas é justamente essa distância entre idade e desempenho que torna sua trajetória tão impressionante.

Enquanto outros jovens precisam de tempo para aprender a conviver com partidas decisivas, Cubarsí parece alimentá-las.

Nunca transmite nervosismo e nunca abandona sua personalidade. Continua pedindo a bola sob pressão, inicia ataques como se fosse um meio-campista e defende como um veterano acostumado às maiores decisões do futebol.

Na final diante da Argentina, os olhares naturalmente estarão voltados para os grandes nomes ofensivos dos dois lados. É o roteiro mais comum em qualquer decisão de Copa.

Mas, se a Espanha levantar a taça, será difícil explicar essa conquista sem mencionar o garoto de 19 anos que transformou a defesa espanhola em uma fortaleza, comandou a saída de bola com autoridade improvável para sua idade e mostrou ao mundo que um zagueiro também pode ser protagonista.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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