Copa do Mundo 2026

‘Camaleão’ e intenso, Japão esbanja armas e se credencia como ameaça na Copa

Atuação dominante no milésimo jogo da história das Copas reforça credenciais de uma das seleções mais interessantes do torneio

A goleada do Japão por 4 a 0 sobre a Tunísia, na madrugada deste domingo (21), em Guadalupe, no México, ficará registrada por um motivo que transcende o próprio resultado. O duelo, válido pela segunda rodada do Grupo F, foi o jogo de número 1000 da história das Copas do Mundo. Mas, se havia um palco simbólico para marcar a ocasião, os japoneses trataram de transformá-lo em uma exibição de força coletiva, identidade bem definida e maturidade competitiva.

O placar elástico foi consequência direta de uma atuação dominante. Mais do que vencer, os japoneses controlaram os espaços, ditaram o ritmo e impuseram uma intensidade que a Tunísia jamais conseguiu acompanhar.

O resultado leva o Japão aos quatro pontos, mesma pontuação dos Países Baixos, e deixa a classificação à fase de 16 avos de final muito bem encaminhada. A equipe asiática chega à rodada derradeira dependendo apenas de si para avançar e, principalmente, reforça a impressão de que pode ser uma das seleções mais incômodas da fase eliminatória.

A explicação vai além dos números. Está na maneira como o time joga.

O estilo arrojado de jogar do ‘camaleão’ Japão

Embora costume partir de uma estrutura base em 3-4-2-1, o Japão está longe de ser uma equipe presa a esquemas rígidos. Talvez sua principal virtude seja justamente a capacidade de alterar comportamentos sem abrir mão da própria identidade.

Os alas são peças fundamentais nesse mecanismo. Funcionam como pontas em muitos momentos, empurrando o adversário para trás e oferecendo amplitude constante. Em outros, aparecem por dentro, participando de triangulações e associações curtas que aceleram a circulação da bola. O resultado é um ataque difícil de prever e ainda mais complicado de marcar.

Contra a Tunísia, isso ficou evidente. Frequentemente, o Japão atacava com cinco ou até seis jogadores ocupando o campo ofensivo. A equipe alargava a defesa rival, criava superioridades numéricas nos corredores e encontrava espaços para infiltrações. Quando não havia caminho pelo chão, surgia a bola longa. Quando o jogo pedia paciência, vinha a troca de passes. E quando aparecia espaço para correr, a transição era imediata.

Poucas seleções nesta Copa apresentaram tamanho repertório até o momento. Não à toa, os Samurais Azuis estão entre as principais surpresas do torneio.

O termo “camaleão” encaixa-se perfeitamente. O Japão consegue adaptar suas ações às circunstâncias sem parecer improvisado. Não há ruptura entre um plano e outro. Tudo parece treinado, assimilado e executado com naturalidade.

Essa versatilidade ajuda a explicar por que a equipe chegou ao Mundial embalada por uma sequência tão expressiva. Antes mesmo da estreia, os japoneses vinham de seis vitórias consecutivas, incluindo resultados importantes diante de adversários de peso, como Brasil e Inglaterra. O empate por 2 a 2 contra a Holanda na primeira rodada já havia servido como demonstração de competitividade. Agora, a vitória sobre a Tunísia reforça tal tendência.

São nove partidas de invencibilidade para uma seleção que parece cada vez mais confortável em enfrentar cenários distintos.

Seleção japonesa perfilada
Seleção japonesa perfilada (Foto: Kenjiro Matsuo / AFLOSPORT / Imago)

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Pressão sufocante e um ritmo difícil de acompanhar

Se a flexibilidade ofensiva chama atenção, o comportamento sem a bola talvez seja ainda mais impressionante.

O Japão pratica com eficiência um dos conceitos mais valorizados do futebol contemporâneo: o perde-pressiona. Quando perde a posse, a reação é imediata. Os jogadores encurtam espaços, aceleram a perseguição ao portador da bola e tentam recuperar o controle da jogada antes que o adversário consiga organizar qualquer saída. Foi exatamente isso que aconteceu diante da Tunísia.

Sempre que os tunisianos ensaiavam uma construção mais limpa, encontravam uma parede de camisas azuis pela frente. A pressão alta sufocou a circulação de bola, provocou erros técnicos e obrigou a equipe africana a recorrer a lançamentos precipitados.

Além da agressividade na recuperação, chama atenção a velocidade com que o Japão executa suas ações ofensivas. Pensamento rápido, troca de posições constantes e ocupação dos espaços a partir de cada movimento do adversário.

Essa dinâmica produz um efeito desgastante. O rival corre atrás da bola, precisa reagir às trocas de posição e raramente consegue estabelecer períodos prolongados de controle. Aos poucos, a pressão física se transforma também em pressão mental.

Daichi Kamada e Takehiro Tomiyasu em ação pela seleção japonesa
Daichi Kamada e Takehiro Tomiyasu em ação pela seleção japonesa (Foto: Heuler Andrey / ZUMA Press Wire / Imago)

Como está o panorama do Japão no Grupo F?

Agora, o Japão chega à última rodada ocupando a vice-liderança do Grupo F e dependendo apenas de um bom resultado — empate já basta — diante da Suécia para confirmar presença no mata-mata. A Tunísia, por outro lado, está matematicamente eliminada.

Mais importante do que a situação na tabela, porém, é a mensagem enviada ao restante da Copa. O Japão já não pode ser tratado como uma seleção capaz apenas de surpreender ocasionalmente. Existe consistência, modelo de jogo e uma sequência de atuações que sustenta o otimismo.

A depender da combinação de resultados e posições finais nos dois grupos, o Japão pode cruzar o caminho do Brasil logo na fase de 16 avos de final. O encontro ocorrerá caso as duas seleções avancem em colocações complementares dentro de suas respectivas chaves — uma em primeiro e a outra em segundo.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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