Copa do Mundo

Insônia e depressão quase o fizeram desistir, mas Soucek saiu da lama para voar com a Tchéquia

Um dos líderes de sua seleção, meia de 31 anos viveu drama pessoal durante auge na carreira como jogador de futebol

Entre 2022 e 2023, Tomas Soucek viveu seu auge. O meia foi um dos responsáveis pela conquista inédita da Conference League com o West Ham, que ficou 24 anos sem levantar títulos relevantes. Na seleção da Tchéquia, também foi crucial para garantir a classificação à Eurocopa via Eliminatórias. Parecia ser o momento perfeito para qualquer jogador. Mas, fora de campo, ele enfrentava um drama silencioso.

Soucek viveu “dois anos de horror” enquanto sofria de insônia e depressão. Com vergonha de falar sobre os temas até mesmo com os pais, o destaque dos Hammers cogitou se aposentar porque não sabia lidar com o calvário “insuportável”. Se sentia sozinho, ao mesmo tempo que era aclamado por torcedores ingleses e tchecos.

Um sentimento ambíguo, causado pela pressão do esporte em alto nível e os holofotes que a carreira em um dos maiores palcos do mundo traz. Seria um final precoce, sobretudo por ter batalhado tanto para sair de uma pequena vila do país até chegar ao estrelato na seleção e na Premier League.

— A pressão é implacável no futebol profissional. Fraquezas não são perdoadas. Se eu demonstrar vulnerabilidade, o adversário vai se aproveitar — desabafou.

Tomas Soucek exibe taça da Conference League conquistda no West Ham em 2022/23 (Foto: Imago/PA Images)
Tomas Soucek exibe taça da Conference League conquistada no West Ham em 2022/23 (Foto: Imago/PA Images)

Mas Soucek não desistiu. Primeiro, compartilhou o que estava acontecendo com a esposa Natalie Dobrovodska, que o ajudou a carregar o fardo psicológico. Depois, o meia de 31 anos procurou assistência profissional de um psiquiatra e um médico, que foram fundamentais em sua recuperação.

Aos poucos, Soucek passou a dormir melhor e, embora ainda não tenha o “sono perfeito”, reconhece que é “incomparavelmente melhor” de quando chegou ao fundo do poço. E para sair da lama, o camisa 28 do West Ham resolveu fazer sua autobiografia intitulada “Suk”, lançada em novembro de 2025.

Em seu livro, Soucek confessou toda a verdade, acabando com a ilusão de uma vida sem defeitos que as redes sociais podem transparecer. O capitão da seleção tcheca também explicou como a comemoração do helicóptero, que virou sua marca registrada no London Stadium, o fez alçar voo para dias mais felizes.

Agora, o helicóptero Tomas Soucek vai pousar na América do Norte para levar a Tchéquia a sua primeira Copa do Mundo em 20 anos.

Soucek enfrentou infância longe de casa para surgir no Slavia Praga

Soucek comemora gol pelo Slavia Praga contra Borussia Dortmund na Champions League, em 2019 (Foto: Imago/Revierfoto)
Soucek comemora gol pelo Slavia Praga contra Borussia Dortmund na Champions League, em 2019 (Foto: Imago/Revierfoto)

Nascido em 1995 em Havlíckuv Brod, uma cidade no interior com cerca de 24 mil habitantes, Soucek começou a jogar futebol ainda com 4 anos. Já aos 10, o garoto deixou a terra natal para se juntar ao Slavia Praga, um gigante da Tchéquia, para tentar a carreira no futebol.

E a grandeza do clube veio acompanhada de uma vida completamente desafiadora na capital do país, com uma população de quase 1,4 milhão de pessoas. E como os outros meninos da base já eram da região e se conheciam desde sempre, Soucek teve dificuldades para se enturmar.

Em entrevista aos canais oficiais dos Hammers, o meia relembra que, por ser de um lugar diferente, era constantemente zoado pelas outras crianças. Soucek sentia que ninguém gostava dele e pensou até mesmo em abandonar o Slavia Praga.

— Às vezes eu chorava e desejava poder voltar atrás, então foi muito difícil. Mais tarde, porém, quando todos nós ficamos um pouco mais velhos, as coisas mudaram e de repente todos queriam ser meus amigos! — disse em janeiro deste ano.

Após se integrar ao grupo, o jogador completou sua formação e subiu para os profissionais. Sem muito espaço em seu início no multicampeão tcheco, Tomas Soucek foi emprestado ao Viktoria Zizkov e Slovan Liberec para acumular minutos, cujas experiências foram fundamentais no início da carreira.

De volta ao Slavia Praga, se firmou com o bicampeonato tcheco, os dois títulos da copa nacional e o troféu da Supercopa, sendo peça importante no meio-campo. Ao mesmo tempo, saiu das seleções juniores para fazer a estreia no time principal do país, em 2016.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

A grande chance no West Ham veio acompanhada da sobrecarga psicológica

Tomas Soucek em jogo do West Ham, em março de 2020 (Foto: Imago/Martin Dalton)
Tomas Soucek em jogo do West Ham, em março de 2020 (Foto: Imago/Martin Dalton)

Com o passar do tempo, as fronteiras tchecas ficaram pequenas demais para o futebol do meia. Em janeiro de 2020, Soucek foi emprestado ao West Ham, onde rapidamente virou titular e foi crucial para evitar o rebaixamento na elite inglesa na metade final da temporada.

O bom desempenho convenceu os Hammers a desembolsarem 20 milhões de euros (em torno de R$ 116 milhões na cotação atual) para contratar o tcheco em definitivo em julho daquele ano. Dali para frente, Tomas Soucek se tornou um dos pilares da equipe, que figurava em competições europeias.

Na seleção, foi importante na qualificatória da Euro disputada em 2021, quando chegou até as quartas de final do principal torneio da Uefa, repetindo a campanha surpreendente de nove anos antes. Só que o sucesso nos campos veio acompanhado de uma sobrecarga psicológica.

— Acho que eu me pressionava demais, porque tinha me esforçado para progredir, chegar ao West Ham e entrar no time, e queria continuar conquistando mais e provar meu valor a cada ano. Tinha medo de que, se não me mantivesse no mais alto nível, as pessoas começariam a me odiar ou se esqueceriam de mim — declarou.

Tomas Soucek em partida da Tchéquia nas Eliminatórias da Euro 2024 (Foto: Imago/Fotostyk)
Tomas Soucek em partida da Tchéquia nas Eliminatórias da Euro 2024 (Foto: Imago/Fotostyk)

Um medo repentino do futuro tomou conta do seu dia a dia. À noite, o camisa 28 dos Hammers agonizava com a insônia e, em desespero, chegou a trocar de quarto 13 vezes, mas a estratégia não surtiu efeito. Como não conseguia se abrir com ninguém, Soucek passou a jogar uma sequência de jogos com apenas duas ou três horas dormidas.

— Olhando para trás, eu também não entendo direito. Onde outros não se arriscam por medo da dor, eu me jogo de cabeça. Perdi a conta das cicatrizes no meu corpo, termino as partidas com a cabeça enfaixada, mas isso me machucava na alma. No começo era só um pouco incômodo, mas depois de alguns meses ficou insuportável — confidenciou em seu livro.

— Tinha dinheiro que não gastaria pelo resto da vida. E também tinha um problema que não conseguia resolver sozinho — diz trecho do “Suk”.

O helicóptero tcheco

Enquanto fazia seu tratamento com discrição, com poucos amigos e familiares cientes dos transtornos mentais, o meia continua se entregando pelo West Ham e pela Tchéquia. E durante um treino em Londres, Tomas Soucek comemou o gol marcado girando no próprio eixo.

Um movimento atípico, que causou estranheza no elenco. “Tom, o que foi isso?”, alguém perguntou. “Nada importante”, murmurou baixinho como resposta. Mas, na verdade, era um raro momento de expressão do astro tcheco, que estava perdendo a timidez de se tornar um helicóptero.

Em outubro de 2023, em uma partida contra o Newcastle, Soucek balançou as redes com o gol aberto após assistência de Emerson Palmieri. E pela primeira vez, o ídolo dos Hammers fez a comemoração em público, cujo motivo sempre foi mantido em segredo — até a publicação de sua autobiografia.

— Eu me transformei em um helicóptero porque, apesar dos momentos difíceis, ainda consigo voar. Assim que marco um gol, ligo a hélice e voo para o céu para poder tocar as estrelas novamente — explicou.

Tomas Soucek admite que pode parecer constrangedor um homem de 1,92m de altura rodopiar com os braços abertos, todo desengonçado. Mas apenas para quem nunca experimentou a sensação de impotência. Para o meia, ser um helicóptero foi uma libertação em meio às pílulas e terapias para lidar com a insônia e a depressão.

— Minha comemoração se tornou parte de mim. Ela expressa meu sentimento interior de que posso lutar. Por muito tempo, tive medo de que, se admitisse a depressão, as pessoas me julgariam. Mas agora? Por que me torturar com isso? — escreveu Soucek, que continua fazendo o gesto toda a vez que marca um gol.

O papel de Tomas Soucek na Copa do Mundo

Soucek comemora classificação da Tchéquia à Copa do Mundo na respecagem da Uefa, em março (Foto: Imago/CTK Photo)
Soucek comemora classificação da Tchéquia à Copa do Mundo na respecagem da Uefa, em março (Foto: Imago/CTK Photo)

O ícone do West Ham cresceu tendo como referência Tomas Rosicky, que marcou época no Arsenal e na seleção tcheca no Mundial de 2006. Contudo, como o próprio Tomas Soucek reconhece, seu estilo de jogo pouco tem a ver com a lenda do país, embora seja tão absoluto entre os titulares quanto o ex-jogador foi em seu tempo.

Sem tanta velocidade, o meia recompensa com a entrega, percorrendo todo o gramado para ajudar na marcação e na construção ofensiva. Graças à imposição física, Soucek se destaca nos duelos corpo a corpo e jogadas aéreas. Além disso, tem boa capacidade de infiltração para finalizar vindo de trás.

O líder da seleção foi importante ao longo do ciclo rumo aos Estados Unidos, México e Canadá, depois de tantas tentativas parando na trave. Apesar da Tchéquia ter sido eliminada na fase de grupos da Eurocopa, Tomas Soucek marcou um dos três gols na competição realizada em 2024, na Alemanha.

Na última edição da Liga das Nações, a seleção tcheca subiu para o Grupo A após liderar uma chave composta por Ucrânia, Geórgia e Albânia. O jogador do West Ham disputou cinco das seis partidas, todas como titular, e balançou as redes uma vez.

Já nas Eliminatórias, Soucek fez a diferença na Tchéquia com dois gols e muita combatividade para garantir o 2º lugar do Grupo L, que tinha Croácia, Ilhas Faroe, Montenegro e Gibraltar. Na repescagem da Uefa, o meia foi a voz da experiência da seleção nas classificações contra Irlanda e Dinamarca, ambas em decisões por pênalti, cujas cobranças foram convertidas.

Na Copa, a seleção tcheca espera fazer aquilo que não conseguiu há duas décadas: chegar ao mata-mata. E no Grupo A ao lado de México, África do Sul e Coreia do Sul, Tomas Soucek e companhia podem se permitir sonhar com as estrelas.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo