Copa do Mundo

Ibrahim Sabra: O atacante da Jordânia que foi suspenso, virou velocista e agora mira a Copa do Mundo

Jovem foi punido pelo clube por tentar peneira escondido, aproveitou para competir no atletismo, venceu provas nacionais e acabou convocado para duas seleções ao mesmo tempo

Tem histórias no futebol que nenhum roteirista inventaria. A de Ibrahim Sabra, da Jordânia — uma das grandes surpresas classificadas à Copa do Mundo, é uma delas, e ele pode ir de uma suspensão, “troca de esporte” e medalha no atletismo para o Mundial deste ano.

Em setembro de 2023, aos 17 anos, o jovem atacante do Al-Wehdat viajou para Dubai às escondidas para fazer uma peneira em outro clube sem avisar a diretoria. Foi descoberto, suspenso e ficou sem jogar futebol por um tempo. Qualquer outro jogador teria usado a pausa para descansar ou treinar escondido. Sabra resolveu correr. Literalmente.

Sem clube para jogar, o atacante se inscreveu por conta própria no Campeonato Aberto de Atletismo do Reino da Jordânia, torneio que permite a participação de qualquer interessado, sem necessidade de ser federado. O que aconteceu depois virou notícia no país inteiro: ele ganhou os 100 metros com 11,44 segundos e os 200 metros com 24,1 segundos, superando 357 atletas de diversas províncias.

A seleção jordaniana de atletismo não perdeu tempo: entrou em contato para convocar o jogador de futebol que havia acabado de dominar as pistas nacionais como se fosse natural.

Suspenso pelo clube, convocado por duas seleções e agora uma Copa do Mundo

A ironia da história de Sabra é quase poética. O mesmo episódio que rendeu a punição do Al-Wehdat, a viagem não autorizada a Dubai em busca de uma oportunidade no exterior, acabou por abrir espaço para que ele mostrasse ao mundo que suas pernas valem muito além dos gramados.

Com a suspensão ativa e o calendário de futebol jordaniano paralisado por mudanças administrativas, Sabra tinha tempo livre. E usou esse tempo para se tornar campeão nacional em duas provas de atletismo.

Ibrahim Sabra pela seleção da Jordânia
Ibrahim Sabra pela seleção da Jordânia (Foto: Meng Gao/Alamy Live News)

Nas redes sociais jordanianas, os torcedores não pouparam comparações. O nome de Usain Bolt apareceu nos comentários, com o bom humor de quem sabe que os tempos ainda estão longe do nível mundial, mas reconhece que vencer provas nacionais de velocidade como atacante de futebol não é exatamente algo que acontece todo dia.

A seleção de atletismo quis o garoto. Sabra, porém, deixou claro que o coração é do futebol e que não pretende trocar as chuteiras pelos tênis de corrida. Sua resposta à convocação do atletismo foi educada, mas direta: obrigado, mas não. O foco era o Al-Wehdat, a seleção jordaniana de futebol e o sonho de chegar cada vez mais longe na modalidade que escolheu desde criança.

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Sabra, Al-Wehdat e a Jordânia na Copa do Mundo

Dentro de campo, Sabra já era considerado uma das maiores promessas do futebol jordaniano antes de virar notícia nas pistas. Nascido em 2006, o atacante foi convocado para a seleção sub-20 do país aos 17 anos e era visto pela diretoria do Al-Wehdat como o próximo grande nome da história do clube, seguindo os passos de ídolos como Jihad Abdel Moneim, Mahmoud Shelbaieh e Baha’ Faisal.

O perfil é o de um atacante moderno: físico forte, velocidade acima da média e capacidade de desequilibrar no um contra um. Qualidades que, agora, têm uma prova cronometrada. O plano do Al-Wehdat era integrá-lo gradualmente ao time profissional, mas foram apenas 27 jogos em dois anos pelo clube antes de trocá-lo pelo Göztepe, da Turquia. Agora, está emprestado ao NK Lokomotiva, da Croácia.

Sabra pelo NK Lokomotiva
Sabra pelo NK Lokomotiva (Foto: Pixsell/Alamy Live News)

Sabra também não está sozinho nessa jornada. O irmão, Khaldoun Sabra, divide a trajetória com ele. A viagem não autorizada a Dubai, portanto, pode ter sido uma punição no curto prazo, mas revela uma ambição clara: os Sabra querem chegar ao futebol europeu.

O contexto maior de tudo isso é a Copa do Mundo. A Jordânia, país de pouco mais de 11 milhões de habitantes, vive um momento especial no futebol, mesmo que não esteja nem perto das favoritas do Mundial — e jovens como Sabra são a aposta do país para construir uma seleção competitiva nas próximas décadas.

Um atacante que corre os 100 metros em 11,44 segundos, que tem estrutura física para o futebol de alto nível e que, mesmo suspenso, encontrou uma forma de aparecer e se destacar, é exatamente o tipo de jogador que alimenta esse sonho. Convocado desde 2024 pela seleção jordaniana, ele tem cinco jogos e um gol pelo time principal do país.

A história de Ibrahim Sabra ainda está no começo. Os mais diferentes obstáculos foram superados ao longo do caminho. É o tipo de trajetória que, anos depois, culminaria no maior palco do futebol: a Copa do Mundo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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