Copa do Mundo: As importantes questões que a Fifa precisa resolver
Torneio ocorre entre junho e julho deste ano, e terá Canadá, EUA e México como sedes
Gianni Infantino chega à sua terceira Copa do Mundo desde que assumiu a presidência da Fifa, antes do Mundial de 2018, na Rússia. Depois das duas últimas edições, o suíço se vê diante da organização mais polêmica de um torneio sob sua chefia, a menos de três meses do início da competição no Canadá, Estados Unidos e México.
A maioria destes problemas, que precisam ser resolvidos às pressas antes da competição, passa por um dos países-sede. Em especial os Estados Unidos, que têm sido aquele com maior destaque ao longo deste e que “monopolizou” a organização do Mundial — sediando o sorteio dos grupos e com encontros frequentes entre Donald Trump e Gianni Infantino ao longo dos últimos meses.
A menos de 100 dias, a Fifa tem um problema principal para solucionar, e que tem relação direta com os Estados Unidos: o conflito com o Irã, que ameaça sua participação no torneio. Desde o primeiro bombardeio americano, neste mês, com o apoio de Israel, sobre as bases militares em Teerã, a entidade máxima do futebol tem se organizado para evitar a desistência dos iranianos, mas ainda sem uma solução.

Situação do Irã ameaça participação da seleção na Copa do Mundo
Irã e Estados Unidos têm conflitos armados desde a década 1980, quando o país asiático passou pela Revolução Iraniana, que resultou na criação da teocracia islâmica, sob a liderança do clero xiita e do aiatolá, líder supremo. Os bombardeios deste mês tiveram como impacto o assassinato de dezenas de líderes militares e políticos, incluindo o aiatolá Ali Hosseini Khamenei.
A seleção iraniana também se vê afetada pelos conflitos armados, e ameaçou desistir da Copa do Mundo. Ahmad Donyamali, ministro do Esporte e da Juventude iraniano, afirmou que o cenário com os Estados Unidos impede a participação da equipe no Mundial.
“Considerando que este regime corrupto (os EUA) assassinou nosso líder, sob nenhuma circunstância poderemos participar da Copa do Mundo”, afirmou Donyamali, à TV estatal do Irã. Ainda que forte, a declaração não é uma garantia definitiva, já que o abandono da seleção deve partir da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), mas deu um aceno para as intenções da equipe.

Infantino havia conversado com Trump antes da declaração de Donyamali, e revelou que o presidente americano deu garantias de que os iranianos seriam “bem-vindos” na Copa do Mundo. Posteriormente, o presidente americano confirmou o diálogo, mas aconselhou que o Irã não viajasse para os Estados Unidos.
— A Seleção Iraniana de Futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas eu realmente não acredito que seja apropriado que eles estejam lá, para a própria segurança deles — escreveu Trump.
O cenário atual, para é Fifa, é defender a permanência do Irã na Copa do Mundo, mas sob os seus próprios interesses. Nos últimos dias, a Federação de Futebol do Irã procurou a entidade máxima do futebol para alterar o local de suas partidas, dos Estados Unidos para o México. Pedido este que foi recusado pela Fifa.
— A Fifa mantém contato regular com todas as associações participantes da Copa do Mundo, incluindo o Irã, para discutir o planejamento do Mundial. A Fifa está ansiosa para que todas as equipes compitam de acordo com o cronograma de partidas anunciado em dezembro — comunicou um porta-voz da Fifa.
A seleção iraniana está no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Todas as partidas serão disputadas nos Estados Unidos. Se, de fato, desistir da disputa, a Fifa pode decidir como bem entender qual decisão será tomada.
Na mesa, existe a possibilidade de substituir o Irã por outra seleção asiática (Iraque ou Emirados Árabes Unidos, que disputaram a repescagem continental), de qualquer outro continente ou até deixar o Mundial com apenas 47 seleções participantes.
Nesta segunda-feira (23), Trump anunciou um cessar-fogo temporário, que poderia resultar em um cenário positivo para o Irã e o Mundial. O presidente americano afirmou que irá interromper por cinco dias os ataques a estruturas energéticas do país para “dialogar” com Teerã.
No entanto, segundo a agência de notícias iraniana Fars, estatal da Guarda Revolucionária do Irã, não há conversas em andamento com a Casa Branca neste momento.
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Isenção de impostos ainda não foi garantida para as seleções na Copa do Mundo
Assim como ocorreu no Mundial de Clubes de 2025, os Estados Unidos ainda não garantiram às seleções participantes da Copa do Mundo a isenção de impostos. A Trivela conversou, com uma fonte próxima à Fifa, que garantiu que essa questão ainda está sendo tratada internamente, às vésperas do início do torneio.
Apesar de, nas candidaturas para a Copa do Mundo, os países-sedes tenham de garantir a isenção de impostos às nações classificadas, os Estados Unidos ainda não asseguraram o benefício previsto pela Fifa — e como ocorreu no último Mundial, no Catar. Canadá e México, que também receberão partidas da Copa do Mundo, terão isenção de impostos aos países participantes.
De acordo com o “The Guardian”, mesmo com a distribuição recorde de dinheiro às seleções neste ano — US$ 655 milhões (R$ 3,6 bilhões) —, cerca de dez federações europeias, durante o último congresso anual da Uefa, mostraram preocupação quanto aos custos e diminuição do lucro que terão no próximo Mundial.

Para disputar a Copa do Mundo, a Fifa distribui US$ 10,5 milhões (R$ 58 milhões) a cada uma das 48 seleções participantes, valor que representa a soma dos custos de preparação (US$ 1,5 milhões) e classificação para o torneio (US$ 9 milhões).
Por outro lado, o valor da diária paga pela entidade máxima do futebol aos membros das delegações nacionais foi reduzido para US$ 850 para US$ 600 por pessoa. Somado aos impostos que deverão arcar nos Estados Unidos — que receberá a maioria das partidas entre junho e julho —, a tendência é que as federações nacionais tenham um prejuízo maior com o Mundial.
Segurança e visto de turistas durante a Copa do Mundo
O governo de Donald Trump tem sofrido críticas em relação às políticas com imigrantes — com destaque para o trabalho do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) — e a repressão aos estrangeiros.
Em janeiro, os Estados Unidos bloquearam o visto de imigração (“Greencard”) para 75 países — incluindo o Brasil. À época, o governo americano comunicou a Fifa antes de anunciar a medida, para assegurar que ela não teria impacto para a entrada de turistas na Copa do Mundo.
Entretanto, há o receio de torcedores, que ainda não garantiram o visto, de ter problemas para poder viajar aos EUA — algo que não ocorre da mesma forma com Canadá e México.
Ao comprar os ingressos para a Copa do Mundo, os torcedores são comunicados que a entrada não é garantia de que o visto será assegurado de forma automática, já que é preciso passar pela avaliação dos agentes de segurança dos Estados Unidos.

Além dessa questão, os conflitos armados com o Irã, e tensões geopolíticas dos Estados Unidos com a Dinamarca e o bloco europeu pela Groenlândia, preocupam a segurança nacional durante a Copa do Mundo — ainda que o governo americano continue assegurando à Fifa que não haverá riscos durante a realização do torneio.
Em outros casos, quando há invasões ou ataques armados em outro país, a Fifa já baniu a seleção do país responsável de competições internacionais. É o que ocorreu em 2022, quando a Rússia invadiu o território da Ucrânia. Desde então, a seleção russa está banida da Fifa e da Uefa.
Apesar da pressão internacional, a Fifa ainda não tomou decisão semelhante com os Estados Unidos, que seguem como país-sede e recebendo encontros frequentes entre Infantino e Trump. Durante o sorteio, o presidente dos Estados Unidos também foi condecorado pelo “Troféu da Paz”, criado pela Fifa e que teve o presidente americano como primeiro — e, até agora, único — premiado.
Ameaça de estádios ‘vazios’ na Copa do Mundo preocupa a Fifa
Desde a venda do primeiro lote de ingressos para a Copa do Mundo, torcedores se irritaram com os preços praticados pela organização do torneio — que poderia ultrapassar a casa dos R$ 10 mil. Infantino revelou uma busca recorde por ingressos neste ano, com mais de 500 milhões de pedidos, mas há diversas partidas com entradas disponíveis.
Neste mês, e sem aviso prévio, a Fifa lançou uma nova campanha de venda de ingressos para o Mundial na semana passada. A empresa responsável pelos bilhetes enviou um e-mail para os torcedores interessados alegando que “a disponibilidade é extremamente limitada”.
A entidade ofertou entradas para pelo menos 64 confrontos na América do Norte, segundo noticiou o “The Athletic”. Para evitar estádios vazios para jogos “menos atrativos”, a entidade irá lançar um último lote de entradas em abril, a dois meses dos jogos.
Além disso, a estratégia adotada pela Fifa para a repescagem intercontinental, que ocorre neste mês, no México, pode ser um bom sinal para esta última carga de ingressos. As entradas para as quatro partidas custam entre R$ 60 e R$ 90 (200 e 300 pesos mexicanos, respectivamente).



