Copa do Mundo

As medidas da Fifa contra o calor na Copa do Mundo e por que cientistas ainda acham insuficientes

Entidade tirou lições do torneio passado e tenta evitar desgaste por calor nos jogadores e na torcida

As altas temperaturas registradas durante o Mundial de Clubes de 2025 acenderam um alerta na Fifa para a próxima Copa do Mundo. Disputado também nos Estados Unidos, México e Canadá, e no mesmo período do calendário, o torneio de seleções já gera preocupação entre organização, equipes e atletas por conta do calor intenso.

Um grupo de cientistas da Atribuição Climática Global (WWA) alertou a Fifa recentemente, afirmando que as medidas de segurança contra o calor durante o Mundial são “inadequadas” e podem gerar riscos graves à saúde.

Eles pediram que a Fifa adotasse proteções mais rigorosas, incluindo pausas mais longas para resfriamento e protocolos claros sobre atrasar ou adiar partidas em caso de temperaturas extremas.

Calor preocupa na Copa do Mundo 2026

Ainda segundo os cientistas, as temperaturas em 14 dos 16 estádios utilizados para a competição podem ser de risco para os atletas. O alerta, em maioria, é para partidas no Sul dos Estados Unidos e norte do México, em que as médias diárias costumam ficar entre 30 °C e 35 °C, podendo se aproximar dos 40 °C.

Além disso, o fator temperatura poderia ser ainda mais complicado em caso de união com a umidade, velocidade do vento e intensidade da radiação solar. Em conjunto, esses fatores deixam os atletas com ainda mais risco de estresse térmico no organismo.

O verão no hemisfério norte ainda poderá ser agravado pelo fenômeno El Niño, que possui 82% de chance de se formar justamente em meio à Copa, entre maio e julho de 2026, segundo previsões do Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA)

Durante o Mundial de Clubes, a Trivela conversou com médicos e especialistas para explicar os efeitos do calor no corpo humano.

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O perigo alertado pelos especialistas

Rodrygo, do Real Madrid, no Metlife Stadium em jogo do Mundial de Clubes, em 2025
Rodrygo, do Real Madrid, no Metlife Stadium em jogo do Mundial de Clubes, em 2025. Foto: IMAGO / Sportimage

Os pesquisadores concentraram a análise no índice de temperatura de bulbo úmido e globo (WBGT), indicador que mede o impacto real do calor sobre o corpo humano ao considerar não apenas a temperatura do ar, mas também fatores como resfriamento por evaporação, radiação térmica e velocidade do vento.

— Um dia [de 30 graus Celsius] em condições secas e com brisa é muito diferente de um dia [de 30 graus Celsius] com alta umidade, sol forte e pouco vento — disse Chris Mullington, professor do Imperial College London, e um dos cientistas envolvidos na análise publicada pela World Weather Attribution (WWA).

O estudo também apontou quais cidades poderiam ser mais afetadas pelas altas temperaturas. Os três maiores riscos são Miami, Kansas City e Nova Jersey, palco da final em 19 de julho. A análise prevê uma probabilidade de uma em oito de atingir 26°C segundo a escala WBGT e uma probabilidade de uma em 37 de atingir 28°C segundo a escala WBGT, nessa data.

Já em Dallas e Houston, embora faça bastante calor, os duelos devem ser menos afetados, já que possuem sistemas de refrigeração adequados em seus estádios.

Veja a escala WBGT

Faixa WBGTNível de RiscoRecomendações e Cuidados
Abaixo de 21°CBaixoRisco baixo para atividades gerais.
21°C a 26°CModeradoAtenção redobrada para esforços prolongados. A hidratação regular é essencial.
26°C a 28°CAltoEstresse térmico real. Práticas esportivas de alto rendimento e trabalhos intensos exigem pausas frequentes para resfriamento.
28°C a 32°CMuito AltoRisco severo. Atividades extenuantes ou prolongadas devem ser limitadas ou interrompidas.
Acima de 32°CExtremoAltíssimo risco de insolação e hipertermia. A interrupção imediata ou o adiamento das atividades é altamente recomendado.

Especialistas pedem mudanças para a Fifa

Apesar das mudanças da Fifa, especialistas pedem que a entidade reformule sua abordagem e altere algumas de suas mudanças. Os 20 pesquisadores, com destaque para Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Europa, querem o seguinte:

  • Adiamento ou suspensão de partidas quando o WBGT ultrapassar 28°C
  • Pausas para resfriamento mais longas, de pelo menos seis minutos
  • Melhores estruturas de resfriamento para os jogadores
  • Atualizações regulares das diretrizes com base nas evidências científicas mais recentes

Quais medidas a Fifa já implementou para a Copa do Mundo?

Xabi Alonso, no comando do Real Madrid, em jogo do Mundial de Clubes, no MetLife Stadium
Xabi Alonso, no comando do Real Madrid, em jogo do Mundial de Clubes, no MetLife Stadium. Foto: IMAGO / Sportimage

Com a realização do Mundial de Clubes em 2025, a Fifa pode tirar algumas lições para não repetir o erro durante a Copa do Mundo. Atualmente, a entidade implementou um protocolo de cuidado com os atletas, como parte do seu “compromisso com o bem-estar dos jogadores”.

Dentre os cuidados da Fifa, estão pausas obrigatórias de três minutos para resfriamento em cada tempo da partida, além de bancos de reservas climatizados para comissões técnicas e atletas.

Além disso, a entidade modificou o calendário, alterando o horário de algumas partidas e optando por estádios climatizados. Os duelos que acontecerão em horário de pico do calor ocorrerão nessas arenas mais modernas.

A maioria das partidas antes das 16h (horário local) — os horários mais cedo — acontecerá em estádios com teto ou climatizados, como o Mercedes-Benz Stadium (Atlanta), AT&T Stadium (Arlington/Dallas), NRG Stadium (Houston), SoFi Stadium (Los Angeles) e BC Place (Vancouver).

Dos 40 jogos marcados antes das 16h, 29 deles serão em um dos estádios citados acima.

Dos dez restantes, apenas o Lumen Field, em Seattle, receberá mais de duas partidas. No entanto, a cidade do estado de Washington tem um clima mais ameno em relação aos outros palcos do Mundial.

Parte dessas medidas já havia sido aplicada durante o Mundial de Clubes. Outras passaram a valer a partir da Copa do Mundo, com base no que a Fifa tirou de lição do torneio anterior.

E não são apenas os jogadores. A Fifa também afirmou que possui medidas para os torcedores presentes em caso de temperaturas elevadas. Cada espectador poderá levar uma garrafa de água lacrada, além de oferecer áreas de sombra, sistema de névoa d’água, ônibus climatizados e distribuição de água nos estádios.

Para definir seus cuidados, a Fifpro (Sindicato dos Jogadores) utiliza a medida considerada padrão para calor no esporte, a Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (WBGT, na sigla em inglês). Ela avalia o estresse térmico no corpo ao analisar temperatura e umidade. Um WBGT em torno de 28°C é considerado o limite.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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